segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sr. Oliveira



Conforme as lendas antigas, os gregos construíram uma grandiosa cidade e quiseram que ela tivesse um Deus padroeiro. Decidiram então instituir uma competição entre os favoritos, que no caso eram Poseidon, rei dos mares e Athena, dona da sabedoria. Aquele que desse o melhor presente a cidade, seria padrinho e a cidade seria batizada em seu nome. Então Poseidon, com seus bondosos olhos azuis, num bater do seu tridente, fez a água dos oceanos emergir para a terra e assim criou o cavalo, que serviria com meio transporte para a população. Mas o fato é que o cavalo era meio arrojado e muito feroz, e os habitantes tinham certa dificuldade em domá-lo. Palas Athena, com seu sensato olhar cinza, domou rapidamente o cavalo, e ainda criou a Oliveira, que é uma árvore que fornecia frutos para a população, óleo para suas lanternas, lenha para suas fogueiras, essências para seus incensos, azeites e óleos medicinais entre outras funções.
Assim surgiu a cidade de Atenas. E assim surgiu a Oliveira, a árvore da sabedoria. E assim eu começo a história.

Eu não vim para refletir sobre antigos mitos gregos. Apesar de acreditar que por vezes, os deuses podem sim se transformar temporariamente em humanos, para nos testar, nos dar conselhos e ensinar-nos lições, não sei se creio duzentos por cento em tudo isso. Eu vim hoje para falar do Sr. Oliveira.

O Sr. Oliveira era um rapaz antes de qualquer coisa. Jovem. De natureza simples. Seus olhos eram azuis como o mar, mas com pequenos traços de cinza e amarelo. Era esperto e gentil. Particularmente não me recordo de nenhum momento que tenha sido rude, até mesmo quando o vi nervoso com alguma coisa. Sentia a necessidade, por mais que negasse pelo que percebi, de se ligar ao mundo, apesar de já ter boas conexões pelo que percebi.

Era um rapaz extremamente peculiar. Esbanjava felicidade nos momentos que o vi. Adorava sua cidade natal, sua terra, e falava dela com um fervor que causava uma vontade absurda de conhecer. Era incrível como ele tinha esse dom, o de convencer usando essa paixão natural que tinha. Falando em paixão, era um apaixonado por urbanidades e arquitetura. Café e filmes de terror. O que muito diferia da minha personalidade, pois sou o maior medroso do universo. Tem até alguns filmes que ele me recomendou que eu nunca assisti, e agora tenho até certa curiosidade em vê-los. E os que eu vi ele simplesmente me solta um 'Mas esse filme de terror é muito fraco!' ou 'Stephen King escrevia livros de terror de histórias que eu imaginava quando era adolescente. Aquilo não assusta ninguém' ou algo que o valha. Convém dizer que eu discordava um pouco, o que gerava bons debates. Éramos absurdamente diferentes, em quase que todos os aspectos.

Ele era extremamente realista. Ele sabia diferenciar bem o que era ficção do que não era e, por isso, acabava se tornando meio cético com coisas mais.... infantis eu diria. Não estou dizendo que isso é uma coisa ruim, pelo contrário, é só um aspecto que achei curioso. E esse realismo dele o fazia ser muito sensato, o que o, aparentemente, deixava com os pés no chão. Mas é incrível como cada vez que eu começo a divagar sobre ele, lembro de mais coisas. Apesar de tudo isso, ele era um baita dum sonhador. Ele tinha seu plano de vida, carreira, sabia o que queria muito cedo. Isso pode parecer para alguns uma coisa normal, mas eu achava fantástico alguém tão jovem com sonhos tão altos. E pensava alto mesmo, e pelo que percebi não tinha medo de mostrar isso. Aliás, nunca o vi ter medo de nada.

Lembro dele e começo de novo a recordar o carinho que ele tinha pelos amigos. Muitas vezes ele simplesmente se irritava ou cansava, mas ele preferia simplesmente guardar para ele, pelo simples 'não vale a pena'. Ou outros motivos nunca esclarecidos. Ele era um bom ouvinte, sempre estava de prontidão para ouvir quem precisasse dele pelo que percebi, mas ele às vezes sentia necessidade de falar, mas sempre guardava. Dificilmente o vi reclamar ou falar que o estivesse de fato incomodando, algo que não seja físico, lógico. Claro, ele adorava criticar. Mas é bem diferente. Paulistas e Paulistanos era um assunto à parte. Aliás, convém dizer que o Sr. Oliveira apenas morava em São Paulo, mas era na verdade do Espírito Santo. Viera apenas estudar e estava havia oito ou nove meses, não me recordo com certeza.

Eu tenho certo receio em voltar a olhar algumas conversas que tive com ele. Minha memória ainda está bagunçada e cheia de lembranças e citações aleatórias e coisas bagunçadas. Lembro que fui exemplificar uma metáfora para ele e simplesmente o balancei. Sim, eu o peguei pelo braço e o chacoalhei. Lembro da cara de assustado dele e ainda me arranca um sorriso. Mas também lembro que mais tarde ele me disse que tinha entendido de primeira, que não precisava daquilo. Então rio de novo. E de certa forma fico triste com tudo isso.

De qualquer forma, eu poderia passar horas ou até dias contando fatos sobre o Sr. Oliveira. Mas eu não consigo passar mais que alguns minutos falando dele sem de fato me comover. Porque, mesmo que nos conhecemos por pouquíssimo, sinto uma ligação muito forte com o Sr. Oliveira. Não sei até que ponto isso era verdade para ele também, mas para mim foi. Tanto que resolvi escrever todo esse texto só para poder, assim, eternizar o não eterno Sr. Oliveira, que nos deixou dia vinte e três de abril de dois mil e quatorze, antes de completar vinte anos.


Deixo, por fim, uma homenagem sonora, de uma música que o Sr. Oliveira gostava. E que muito convém a ocasião. Daydreamer - Adele.

sábado, 5 de abril de 2014

Eloquência número quatorze



Sou ferro.
Sou feno.
Sou ferrenho em tudo
Que quero.
E espero
Sinceridade,
Cumplicidade,
Quem sabe amizade.
E não peço,
Despeço
Juras de falso amor.
Horror
Que um dia
Sentia.
Por muito me entregar.
Enganar
A quem me fazia falta.
Pausa. Para um concerto de piano.
E mais um engano.
E me sinto um impostor
Um encantador de ofídios.
Por que ser sincero
Nunca me trouxe nada além de meros
Sonhos, ilusões, pensamentos.
É como se no meu truque barato
O enganado
Fosse eu.

sábado, 15 de março de 2014

Da chuva

Que se inicia repentina
Ou anunciada.
Que se permite.
Que molha e inunda
Que é admirada
E muito odiada.
Molha o pé
E a alma.
Inspira o músico sonolento
E o amante apaixonado.
Que escurece o dia
E clareia num Arco-íris.
Mesmo quem vê da janela
Ou ao vivo de uma poça de lama
Se afetam.

Se permite ser inesperada
Ou ter aviso de chegada.
Que deixa permitir.
Que molha e encharca
Que se reluz
E relampeja.
Que deixa molhado o pé
E deixa encharcada a alma.
E o músico sonolento canta
Inspira o amante apaixonado que ama.
Que mesmo com Nimbus
Ou gotículas de óleo refletidas pelo sol.
Mesmo de longe
Ou de perto
É afeto.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Monitoração de Consciência



Ano passado coisas terríveis eram ditas sobre mim. De fato, eu não fiquei sabendo na hora, só depois, bem depois. E é horrível isso.

Quando fiquei doente, mais comentários terríveis. O mais terrível foi quando eu estava numa cama de hospital, sem saber quando ia sair de lá e sendo tratado como se nada tivesse acontecido. Um colega me disse depois o quanto de arrependido foi consumido pelas besteiras covardes que foram ditas naquele período. O quanto de choro que foi derramado porque não sabia o que dizer, então disse demais. Os julgamentos precipitados feitos fora daquele quartinho 3X3 de hospital, onde tomei sei lá quantos mil comprimidos e quantas centenas de injeções.

Quando saí de lá, tomei nota desses comentários maldosos, que fique bem claro. Muito claro.

Agora que faz nove meses que saí de lá, ainda não me considero plenamente recuperado. Muito estrago físico e psicológico foi feito, e não só pela minha saúde, mas pelas pequenas coisinhas que descobri nesse período. E descobri que aqueles pequenos comentários maldosos começaram a surgir à tona de novo.

Gostaria de dar um conselho. Não espere eu estar numa cama de hospital de novo para se arrepender do que fala. Pode ser que, da próxima vez, eu não saia dela. Ou saia apenas para um lugar pior, mais escuro e mais gelado.

Obrigado.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sobre Almofadas



Uma vez conheci um rapaz diferente.
Na verdade, ele era mais diferente fisicamente que em qualquer outro aspecto, mas acho que o físico magrelo dele não entra nessa questão.
Conversamos por pouco tempo. Acredito que um mês apenas, umas duas vezes na semana. Foi pouco, assumo, mas o bastante pra me fazer refletir em algumas coisas um bocado interessantes. Devo adiantar-me e dizer que não sei mais do paradeiro deste rapaz, e na verdade nem me interessa saber isso hoje. Acredito que a época de nos falarmos já foi o suficiente e que somos tipos incompatíveis para qualquer tipo de conversa hoje em dia.
Mesmo que um dia nos encontremos em qualquer lugar confortável, como um sofá, e sentemos por uma hora, talvez não houvesse mais o que falar. Pelo menos não da minha parte. Seria extremamente desconfortável, por mais almofadas que existam entre nós.

Devo dizer que ele gostava muito, muito mesmo, de falar. Na verdade não me lembro da voz dele, mas lembro que ele gostava de falar. Ele falava sobre tudo, e parecia às vezes que não havia filtro entre o cérebro e a boca. Falava sem pensar, mas não que isso fosse ruim ou ingenuidade. Prefiro definir isso como transparência. Soa mais agradável pelo menos.
De qualquer forma, Ele falava sobre ele, as ruas, lugares que foi, coisas que gostava e mais ainda das que não gostava. Essas ele falava um bocado, era incrível. Lembro o quanto disse que detestava fotos de pessoas em frente a monumentos, e que suas fotos são sempre em frente a um fundo branco. Nunca entendi bem o motivo desse gosto, mas nunca questionei. Essa parte dele não me interessava.
Na verdade, eu me interessava quando ele começava a falar sobre ele mesmo. Isso sim era bem divertido. Explicarei mais para frente.

Lembro que me disse que um dia, viu um casal no ônibus. Mas a menina não ficava beijando o menino ou dando aquelas risadas esgarçada como as meninas faziam geralmente com seus namorados, ela brincava com ele, conversando com um sorriso, enquanto ele dava uns petelecos na cabeça dela e a chamava de 'feiosa'. Nada semelhante aquelas propagandas de pasta de dente, sabe? O casal sorridente que conversa com sorrisão de boca aberta, diferente daqueles dos comerciais que com o hálito fresco não desgrudavam os lábios um do outro. Mas tinha alguma coisa ali. Eles não se tratavam por 'lindo', 'bebê' ou algum desses apelidos carinhosos e pegajosos que casais fazem. Era mais 'cabeção', 'feiosa' e 'chulézento'.
Lembro que me disse isso com os olhos brilhando e, no fim, soltou um risinho dizendo: "Será que algum dia vou achar alguém pra me chamar de 'cabeção' ou algo assim?". Sorri mas não respondi. Na verdade, a gente nunca sabe o que responder para essas pessoas quando elas perguntam sobre o futuro delas.

Uma coisa que muito me intrigou, na verdade, foi quando comecei a analisar, de certa forma, criticamente o comportamento dele. Uma das coisas que me fazia refletir sobre ele era que ele dizia ser muito sentimental. Que se machucava fácil com as pessoas, que se decepcionava facilmente com elas. E que as deixava entrar na sua vida muito fácil, coisa que sempre acontecia pelo que percebi. Ele dizia não ter companhias, amigos e outras coisas do gênero, mas com um quê de exagero ele até que é cercado por bastante gente. Talvez eu entre no mérito 'quem é mais anti-social, ele ou eu?' mas vou me abster a falar dele. Onde eu estava mesmo?

Ah, então, ele dizia que as pessoas entravam muito fácil na vida dele, faziam uma baderna qualquer e saiam. Mas pelo pouquíssimo tempo que conversei com ele percebi um padrão que talvez mesmo ele não percebesse.
De fato, ele deixava as pessoas se aproximarem com muita facilidade. E elas o faziam, pois ele é alguém muito simpático, e diferente fisicamente, como disse. Mas ao contrário do que ele dizia, que as pessoas entravam e faziam bagunça na vida dele, e por isso se machucava fácil, percebi que o que acontecia era exatamente o oposto: ele afastava as pessoas discretamente. Elas tentavam se aproximar, penetrar de alguma forma naquela couraça atraente que era seu ego, e este ego de certa forma era convidativo. Mas, sem sinal, sem nada, ele acaba removendo a pessoa da couraça, e não sabe se explicar. E, por isso tanta gente ao redor dele, todos querem penetrar sua couraça, mas quando conseguem, ele expulsa. E por isso ele diz ter poucos ao seu redor. Ele não deixa tempo para que os outros procurem um lugar ao redor dele, peguem uma almofada e se sentem. Ele pega sua almofada antes, se levanta e deixa os desconhecidos a paisana.

Sabe, este era um rapaz muito bacana e simpático. Lamento muito que, de certa forma, tenhamos perdido o contato. Simplesmente aconteceu que, quando fui buscar minha almofada para me sentar perto e ouvir mais estórias, ele já tinha ido embora com a almofada dele.

sábado, 9 de março de 2013

Com Amor e Sordidez

Eu tinha escrito uma coisa enorme, chata e enfadonha, porém altamente pessoal sobre a minha atual situação. Porém resolvi passar uma borracha em tudo isso para manter apenas um trecho de um livro  amarelado que muito me acolheu agora a noite.

"Imagine um homem realmente sonolento, Esmé, e você verá que êle tem sempre alguma chance de se tornar outra vez um homem com tôdas as fac... com tôdas as F-A-C-U-L-D-A-D-E-S intactas."

J. D. Salinger - Para Esmé, com Amor e Sordidez.