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terça-feira, 23 de junho de 2015

A Lista (Ou Os Monstros de Amara)

Amara escrevia uma lista de compras. Fazia um bom tempo que ela não o fazia. Estava sentada toda curva sobre um pedaço de papel, remoendo o tubo da caneta preta, enquanto pensava nos itens de sua lista. Já tinha revirado os armários vinte e sete vezes, quase o número de vezes de invernos vividos. Suas listas, quando mais nova, eram recheadas de itens como biscoitos, doces, balas e filmes. Hoje, se tinha um chocolate era muito.

Deu um longo suspiro. Coçou a cabeça, levantando a cabeça em direção ao armário e viu a porta semiaberta, presa por algum pedaço de roupa mal dobrado ou algo que o valha. Ficou encarando a porta por longos segundos decidindo se deveria verificar a origem do problema ou se ignoraria até a próxima ida ao guarda roupas. Optou por voltar a sua lista. Ela se lembrou que, quando criança, tinha medo do armário, pois acreditava que os monstros lá moravam. Inclusive, uma vez foi tentar caça-los com uma espada de brinquedo, e ali ficou por longo minutos presa, até que alguém a encontrou e resgatou. Parecia que sua pequena jornada tinha acabado mais cedo e de forma mais frustrante que imaginava.
Aparentemente, o monstro do armário não tinha ido embora, mas ela não mais o encarava, então ficaram quites.

Prendeu os cabelos no alto em um coque apenas para solta-los de novo. Tomou uma xícara de algo que estava na pia que tinha cor de café, mas gosto de sapólio. Foi até o mercado com sua lista, percorrendo de prateleira a prateleira, procurando os itens. Era um processo automático, não a fazia pensar. Amara estava com outros 162 problemas na cabeça, quase que sua altura em centímetros. No caixa, ela teve um vislumbre de um senhor barrigudo, carregando uma sacola de compras nas costas com um olhar mareado, como se não estivesse de fato ali. Lembrou de quando lhe contavam a história do Homem do Saco, que raptava crianças que não se comportavam direito. O senhor barrigudo poderia muito bem estar carregando uma criança, pensou, mas o saco estava imóvel. E nunca fez muito sentido para ela alguém que raptava crianças mal comportadas. Amara sempre foi bagunceira, mas o tal homem nunca apareceu.
Ela ficava olhando na janela de sua casa para ver se ele iria aparecer depois de alguma traquinagem. Via alguns homens maltrapilhos passando, mas eles nunca entraram. Então estavam quites por ora.

Enquanto ordenava os itens no armário, já a noite, percebeu que tinha esquecido de comprar sabão. Ela pensou em voltar ao mercado, mas como já havia escurecido, não seria uma boa opção. Ela resolveu então simplesmente colocar sua camisola e deitar. Ao pressionar o interruptor, a lâmpada deu um estalo e se apagou. Amara ficou tateando no escuro até pegar o celular e iluminar as gavetas atrás de uma lâmpada. Obviamente, sem sucesso, uma vez que não estava na lista. Resolveu simplesmente deitar e ficar encarando o escuro. Ela lembrou das várias histórias que lhe contavam antes de dormir, por causa do medo do escuro. Algumas tinham uma menina perdida num país maluco, outras um rapaz que podia voar, nunca envelhecia e tinha sua própria turma.
Ela sentia um medo abismal do escuro e seus monstros. Mas imaginando todas as histórias, ela adormecia rápido e não tinha de lidar com ele por muito tempo. Então estavam quites por ora.

Mas bem.
Os monstros de Amara nunca foram embora. O monstro continuava no armário. O Homem do Saco permanecia vagando. Os monstros do escuro continuavam a fazer barulho quando a luz apagava. Mas todos eles perceberam que Amara tinha tanto medo deles quanto da realidade. E que, quanto mais ela cresceu, maiores ficaram os monstros dela. Todos eles se apiedaram e resolveram deixar Amara em paz.

Então estavam quites. Por ora. E Amara continua assustada. Apenas com monstros maiores.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Monitoração de Consciência



Ano passado coisas terríveis eram ditas sobre mim. De fato, eu não fiquei sabendo na hora, só depois, bem depois. E é horrível isso.

Quando fiquei doente, mais comentários terríveis. O mais terrível foi quando eu estava numa cama de hospital, sem saber quando ia sair de lá e sendo tratado como se nada tivesse acontecido. Um colega me disse depois o quanto de arrependido foi consumido pelas besteiras covardes que foram ditas naquele período. O quanto de choro que foi derramado porque não sabia o que dizer, então disse demais. Os julgamentos precipitados feitos fora daquele quartinho 3X3 de hospital, onde tomei sei lá quantos mil comprimidos e quantas centenas de injeções.

Quando saí de lá, tomei nota desses comentários maldosos, que fique bem claro. Muito claro.

Agora que faz nove meses que saí de lá, ainda não me considero plenamente recuperado. Muito estrago físico e psicológico foi feito, e não só pela minha saúde, mas pelas pequenas coisinhas que descobri nesse período. E descobri que aqueles pequenos comentários maldosos começaram a surgir à tona de novo.

Gostaria de dar um conselho. Não espere eu estar numa cama de hospital de novo para se arrepender do que fala. Pode ser que, da próxima vez, eu não saia dela. Ou saia apenas para um lugar pior, mais escuro e mais gelado.

Obrigado.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sobre Almofadas



Uma vez conheci um rapaz diferente.
Na verdade, ele era mais diferente fisicamente que em qualquer outro aspecto, mas acho que o físico magrelo dele não entra nessa questão.
Conversamos por pouco tempo. Acredito que um mês apenas, umas duas vezes na semana. Foi pouco, assumo, mas o bastante pra me fazer refletir em algumas coisas um bocado interessantes. Devo adiantar-me e dizer que não sei mais do paradeiro deste rapaz, e na verdade nem me interessa saber isso hoje. Acredito que a época de nos falarmos já foi o suficiente e que somos tipos incompatíveis para qualquer tipo de conversa hoje em dia.
Mesmo que um dia nos encontremos em qualquer lugar confortável, como um sofá, e sentemos por uma hora, talvez não houvesse mais o que falar. Pelo menos não da minha parte. Seria extremamente desconfortável, por mais almofadas que existam entre nós.

Devo dizer que ele gostava muito, muito mesmo, de falar. Na verdade não me lembro da voz dele, mas lembro que ele gostava de falar. Ele falava sobre tudo, e parecia às vezes que não havia filtro entre o cérebro e a boca. Falava sem pensar, mas não que isso fosse ruim ou ingenuidade. Prefiro definir isso como transparência. Soa mais agradável pelo menos.
De qualquer forma, Ele falava sobre ele, as ruas, lugares que foi, coisas que gostava e mais ainda das que não gostava. Essas ele falava um bocado, era incrível. Lembro o quanto disse que detestava fotos de pessoas em frente a monumentos, e que suas fotos são sempre em frente a um fundo branco. Nunca entendi bem o motivo desse gosto, mas nunca questionei. Essa parte dele não me interessava.
Na verdade, eu me interessava quando ele começava a falar sobre ele mesmo. Isso sim era bem divertido. Explicarei mais para frente.

Lembro que me disse que um dia, viu um casal no ônibus. Mas a menina não ficava beijando o menino ou dando aquelas risadas esgarçada como as meninas faziam geralmente com seus namorados, ela brincava com ele, conversando com um sorriso, enquanto ele dava uns petelecos na cabeça dela e a chamava de 'feiosa'. Nada semelhante aquelas propagandas de pasta de dente, sabe? O casal sorridente que conversa com sorrisão de boca aberta, diferente daqueles dos comerciais que com o hálito fresco não desgrudavam os lábios um do outro. Mas tinha alguma coisa ali. Eles não se tratavam por 'lindo', 'bebê' ou algum desses apelidos carinhosos e pegajosos que casais fazem. Era mais 'cabeção', 'feiosa' e 'chulézento'.
Lembro que me disse isso com os olhos brilhando e, no fim, soltou um risinho dizendo: "Será que algum dia vou achar alguém pra me chamar de 'cabeção' ou algo assim?". Sorri mas não respondi. Na verdade, a gente nunca sabe o que responder para essas pessoas quando elas perguntam sobre o futuro delas.

Uma coisa que muito me intrigou, na verdade, foi quando comecei a analisar, de certa forma, criticamente o comportamento dele. Uma das coisas que me fazia refletir sobre ele era que ele dizia ser muito sentimental. Que se machucava fácil com as pessoas, que se decepcionava facilmente com elas. E que as deixava entrar na sua vida muito fácil, coisa que sempre acontecia pelo que percebi. Ele dizia não ter companhias, amigos e outras coisas do gênero, mas com um quê de exagero ele até que é cercado por bastante gente. Talvez eu entre no mérito 'quem é mais anti-social, ele ou eu?' mas vou me abster a falar dele. Onde eu estava mesmo?

Ah, então, ele dizia que as pessoas entravam muito fácil na vida dele, faziam uma baderna qualquer e saiam. Mas pelo pouquíssimo tempo que conversei com ele percebi um padrão que talvez mesmo ele não percebesse.
De fato, ele deixava as pessoas se aproximarem com muita facilidade. E elas o faziam, pois ele é alguém muito simpático, e diferente fisicamente, como disse. Mas ao contrário do que ele dizia, que as pessoas entravam e faziam bagunça na vida dele, e por isso se machucava fácil, percebi que o que acontecia era exatamente o oposto: ele afastava as pessoas discretamente. Elas tentavam se aproximar, penetrar de alguma forma naquela couraça atraente que era seu ego, e este ego de certa forma era convidativo. Mas, sem sinal, sem nada, ele acaba removendo a pessoa da couraça, e não sabe se explicar. E, por isso tanta gente ao redor dele, todos querem penetrar sua couraça, mas quando conseguem, ele expulsa. E por isso ele diz ter poucos ao seu redor. Ele não deixa tempo para que os outros procurem um lugar ao redor dele, peguem uma almofada e se sentem. Ele pega sua almofada antes, se levanta e deixa os desconhecidos a paisana.

Sabe, este era um rapaz muito bacana e simpático. Lamento muito que, de certa forma, tenhamos perdido o contato. Simplesmente aconteceu que, quando fui buscar minha almofada para me sentar perto e ouvir mais estórias, ele já tinha ido embora com a almofada dele.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Reptilianos



Os Reptilianos. Eles estão por toda a parte.

Esse não é mais um destes relatos paranóicos que você vai encontrar pela internet. Nem mais uma teoria demente de conspiração. É apenas a opinião de mais uma pessoa que anda, se alimenta, vive e sofre como qualquer ser humano normal.

Por qualquer lugar que você olhe, você encontra relatos falando dos Reptilianos. Alguns dizem que são alienígenas, outros dizem que são descendentes de uma linhagem, outros dizem que foi uma civilização antiga ao maior estilo Atlântida, mas eu sempre tive pra mim uma teoria diferente.

Baseadas em algumas lendas que li quando era mais jovem, tirei pra mim que os Reptilianos eram uma raça híbrida de répteis com humanos que vivia sobre a face do nosso planeta, em alguma época antes da escrita. Sempre vejo essa raça ser retratada como vil, má ou qualquer adjetivo negativo que consiga imaginar. Foram de certa forma extinta por algum tipo de civilização pré-histórica ou por algum ancestral do Homo Erectus ou Australopitecus. Ou pior. A causa da sua ruína foram seus próprios adjetivos. Não é o foco disso.

Várias literaturas, desde a antiga série 'O Elo Perdido', 'Os estranho Curioso',  um recente desenho da Liga da Justiça, ou mesmo livros de conspiração que falam sobre os Illuminati , mostram que esses Reptilianos deixaram um legado. Uma missão, onde diziam que iam voltar para poder tomar a terra que lhes foi tomada, ou algo assim. E que se escondiam onde ninguém lhes encontraria: No âmago dos seres humanos.

Recentes frustrações têm me feito enxergar o mundo de uma forma melhor. Tenho vistos sombras onde não existem. Vejo coisas que não estão onde estão. E o principal: estou com uma percepção extra-sensorial com relação às pessoas. Vejo seus comportamentos egoístas e mesquinhos todo o tempo, vejo sua ingratidão e falta de zelo. Vejo suas falsas preocupações com o próximo e sua preocupação absurda com aparências. Ignorância, intolerância e quaisquer outros adjetivos negativos que podem levar uma civilização a ruína.
Vejo suas semelhanças com os Reptilianos em todos os lugares. Entre pessoas nas ruas, pessoas próximas, e por incrível que pareça, pessoas que compartilho sangue.

Aliás, se esses não são iguais aos Reptilianos que teorizo, digo uma coisa muito pior que isso.
 Ou somos todos Reptilianos, ou somos piores que eles.

Esse é um relato que espero que você deduza se é real ou ficção.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Porta-Guarda-Chuva e a Cimitarra



Eu sempre odiei aquele porta-guarda-chuva.
Mas minha amada tinha ganhado de sua tia. Ou avó, não me lembro. E ela também detestava minha cimitarra persa, que comprei com minha economia de um ano de mesadas aos quinze anos. Lembro que quase me mataram quando cheguei em casa com ela. Expliquei que tinha lido num livro que meu herói favorito usava uma cimitarra para se defender de seus oponentes numa guerra contra seres mitológicos, e que eu estava namorando na loja fazia um tempão. Também expliquei que ela teria efeitos apenas decorativos.

Anos depois tinha de fazer duras negociações com minha noiva: ela deixava aquele porta-guarda-chuva medonho ao lado da porta da sala e eu podia pendurar minha cimitarra na parede acima. Quase que formando um Yin-Yang. Já disse que conheci minha noiva na loja onde comprei minha cimitarra nove anos atrás?

Mas aquele porta-guarda-chuva sempre teve algo de estranho. Ele me instigava uma raiva absurda, não sabia bem explicar. Acho que foi a ocasião em como chegou em casa. Foi como se uma neblina densa de mau-humor tivesse penetrado por todo canto logo em que ela chegou carregando o tal artefato. Pensando melhor, acabo de me lembrar que esse treco foi da tia-avó dela. Porque a energia bizarra que aquilo transmitia era exatamente igual a que sentia perto da maligna da tia-avó dela, que me olhava de canto de olho e cochichava tenebrosidades a meu respeito aos conhecidos.

Em contrapartida, minha cimitarra me transmitia uma calma profunda. Era como se eu soubesse que ela estaria sempre lá, para me defender de qualquer guerra, em qualquer momento que eu precisasse. E eu tinha guardado tanto dinheiro nove anos atrás para comprá-la. Sempre que percebia, pegava-a na mão e ficava admirando o punho cravejado com pequeninas pedras esverdeadas onde está escrito 'Verdade' em alguma língua que não faço a menor idéia. Talvez Persa, ou Árabe, já me esqueci de novo. "حقیقت" Era bonito e pronto.
Mas toda vez que tirava da parede, Ela gritava comigo. 'Por que você tirou esse negócio medonho da parede de novo?'. Ou então 'Sabe que a parede mancha toda vez que mexe nesse seu bagulho inútil?'.

Até que um dia, enquanto eu estava com minha cimitarra nas mãos de novo, ela ralhou comigo. Eu me assustei e, sem querer, tropecei no porta-guarda-chuva e a cimitarra voou da minha mão e a acertou em cheio. O punho pesado bateu em sua cabeça. E uma concussão a levou de mim.

Eu sempre odiei aquele porta-guarda-chuva.

A partir daquele dia, ainda mais.

"A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou. Cada um que recolhe um pedaço diz que toda a verdade está naquele caco."
Provérbio Persa

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Muralhas de um coração I


Ao contrário do que dizem por aí e do que penso, eu tenho um coração de carne como todo mundo. Não é de pedra, de gelo, peludo ou seja lá qual seja a atual definição que dão dessa vez. É um coração como qualquer outro.
A maior prova disso é que, se você me cortar, eu vou sangrar como qualquer outro. Provo: sou um ser humano e tenho minhas limitações como qualquer outro.

Mas nem por isso sou igual. Novamente posso provar.

Sempre senti esse músculo involuntário um tanto quanto patético. Fica se retorcendo por coisas idiotas e por pessoas sem merecimento. Parecia que cada vez que ele se retorcia, um hematoma novo nesse pedaço de carne surgia, como se alguém arremessasse uma pedra ou atirasse uma flecha ou algo que o valha.
Óbvio. Todo mundo é assim. Sofre uma decepção e se machuca, blé.

Para evitar esse tipo de injúrias, resolvi fazer uma coisa que li uma vez num livro. Quer dizer, algo bem semelhante. Num conto, um rapaz arrancou seu coração e o guardou num cofre para evitar qualquer tipo de sofrimento. Obviamente não funcionou muito bem, uma vez que o coração ganhou vida própria por estar fora do corpo do rapaz. Mas e se o cofre estivesse no meu peito? E se não fosse um cofre, e sim paredes impenetráveis? Melhor: muralhas. Estaria imune a esses espólios. Pedras seriam desviadas e flechas seriam quebradas quando arremessadas no cofre ou muralha, seja lá que raios eu colocasse. Ainda estaria em mim meu coração, mas selado a vácuo para impedir detritos externos.

Pensei. Não posso levantar essas muralhas a qualquer um. Devo baixar a guarda a algumas pessoas, claro. E essas devem ser bem escolhidas. Meus métodos, assumo, nunca foram bem esclarecidos, pois apesar de ser bem racional, eu levo meus pensamentos por um lado bem passional. Como uma porta traseira da imparcialidade. Uma divisão quase que perfeita do racional e passional. Deve ser algum efeito colateral de trancafiar meu músculo num cubículo de pedra. Ele deve se manifestar de alguma outra forma, enfim.

O fato é: eu ergui muralhas em torno do meu coração para não permitir que qualquer um possa machucá-lo. Isso me tornou mais frio?  Talvez. Isso impede de demonstrar meus reais sentimentos? Talvez. Mas talvez fosse a maneira mais sadia de não me machucar com tanta facilidade.

Mesmo machucando quem tenta penetrar por entre essa muralha.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Comi carne crua. Babei sangue.



Comi carne crua. Babei sangue. Só não sabia se era o meu ou do animal morto.

Mordia cada pedaço com uma força descomunal. Quase animal. Sentia meus caninos transpassando e chegando a minha língua, sentindo aquele misto de dor e prazer naquele sentimento sufocante. Era o auge, o ápice. Aquela carne exalando um cheiro acre de recém cortada. Mas minha raiva precisava ser descontada, e nenhum animal vivo merecia aquilo.

Eu estava naquela tênue linha entre o deprimido e o deprimente. Não sentia bem nada, só o cheiro da carne, a dor na língua, uma queimação na nuca, o sangue quente escorrendo da boca. Babava feito uma criança. Só que vermelho.

Pela janela conseguia ver aquelas pessoas andando na rua. Nenhuma delas estava de fato na rua, com a cabeça longe metros, talvez quilômetros de sua localização original. Nenhuma dela via o terror que acontecia na janela. Nenhuma delas vira meu jantar sangrento. Nenhuma delas queria ver, mesmo se o visse. 

Nenhuma delas reconheceria o meu jantar. Já estava extremamente mutilado.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Sou eu que estou chorando? São minhas lágrimas?"



Essas foram algumas das últimas frases de Rei Ayanami antes de morrer em Neon Genesis Evangelion. Bom, se você ia ler ou assistir, problema seu. O que de fato importa é que nunca entendi essa demora dela para perceber que estava chorando. Rei sempre foi uma garota que não era apegada aos sentimentos, entendo, e os foi desenvolvendo ao longo da série. O auge é quando ela percebe que se preocupa com seus colegas, e por isso começa a chorar, o que leva a tal cena. Não que Rei seja fria ou qualquer coisa, ela apenas não conhecia os sentimentos.


Nunca entendi isso. Nunca. Como pode desconhecer os próprios sentimentos e não saber ao certo o que sente? Como pode não perceber dos gostos ou desgostos ou qualquer coisa? Nunca consegui entender Rei. Mas por incrível que possa parecer, sempre a considerei uma garota forte, não por omitir isso, mas por assumir que não sabia da existência desses.

Ao contrário de mim. Sempre me senti forte por saber muito bem esconder meus reais sentimentos. Talvez alguns aspectos como desprezo ou algo do gênero falhassem um pouco, assumo. Eu, ao contrário de Rei, os conheço muito bem. Só que quero guardá-los e me tornar tão forte quanto Rei foi. Ou quanto considerava Rei forte.

Sempre me orgulhei de, por exemplo, ter chorado na frente de pouquíssimas pessoas. Não por coisas tipos filmes meigos ou músicas estupendas. Digo por causa dos meus sentimentos. E digo que isso é uma das piores coisas que pode ter me acontecido. Juro que não entendo essa onde recente de distúrbios que acontecem, e venho tentando me fazer de forte na frente de todos. Mas quando já estava tudo no controle que eu realmente me desesperei. Aqueles pensamentozinhos ruins começaram agora a invadir. E me peguei vergonhosamente numa viagem de ônibus chorando igual uma garotinha. E pela primeira vez em quase cinco anos e me vi igual a Rei e entendi o porque ela demorou tanto pra saber o porque aquelas lágrimas eram dela.
“Sou eu que estou chorando? São minhas lágrimas?”

Minha maior fraqueza é querer me mostrar forte.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Eu tinha um coração

Eu lembro.
Me lembro muito bem, eu tinha coração.
Lembro que pus ele em algum lugar por aqui, em alguma dessas gavetas.
Também lembro que tinha guardado exatamente para o momento em que eu precisasse usá-lo de novo.
Não lembro onde guardei. Sei que guardei bem guardado, protegido com todo o esforço, para que não rachasse como da última vez.

Eu lembro. Mas não acho.
Deve ser porque ainda não preciso dele.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Calibrando Pneu

- Você só vai tomar isso?!
Eu olhei para ela. Não via necessidade que tomar mais que um copo de leite de manhã. Aliás, nem tempo pra isso eu tinha. Porém, expressar isso em palavras era um tanto quanto complicado, então simplesmente disse:
- Obrigado, mas eu não estou com fome agora.
Sei que ela fez uma careta pelas minhas costas, mas não liguei. Ainda precisava verificar se tinha combustível o suficiente para percorrer os 40 quilômetros diários. E se precisasse, teria que passar no posto para reabastecer.
Peguei as chaves e ela a bolsa. Ainda tinha uma fatia de bolo nas mãos. Não dei importância. Eu estava acostumado a ficar correndo de um lado pro outro tentando resolver as coisas. Pelo que eu percebi, ela não. Deixou várias vezes o casaco cair dos braços enquanto eu tentava colocar as coisas em ordem.

Enfim, o carro não tinha combustível o bastante. Precisei passar no posto, ou seja, duas curvas a mais que o normal, então aproximadamente quinze minutos de atraso, se o trânsito estiver bom, coisa que eu duvidava muito.
- Marcos - ela disse, suavemente - posso descer pra comprar um maço de cigarros enquanto você reabastece?
Eu hesitei. Desde quando Erica fumava? Bom, havia muitas coisas que eu não sabia a respeito dela ainda. Tínhamos pouco mais de um mês de namoro e acredito que esse seja o tipo de coisa que demoramos a perceber.
- Claro, mas acho que nunca te vi fumando...
- Não mesmo, detesto cigarros. Mas é que eu derrubei o maço do meu chefe numa poça de lama e fiquei devendo um para ele.
Fiz cara de desdém. Isso explicava MUITA coisa. Principalmente o porquê tinha lama na bota dela na semana passada.
- Podemos ir jantar fora hoje? Ontem a lua estava tão bonita que eu queria dar uma saída hoje pra vê-la melhor.
- Ela vai continuar do jeito que estava ontem?
- Claro, são três dias que ela vai ficar assim. Hoje é o último. Você não tem de fazer hora extra hoje de novo, tem querido?
Odiava que me chamassem de querido. Parecia até um termo irônico. Claro que vindo da Erica, tudo ficava mais fofo. Ou mais aterrorizante, depende do caso. Então, por isso, apenas concordei e disse que estava livre. E então voltamos a nossas conversas banais de sempre, sobre livros, música, a roupa que a colega de trabalho dela estava usando (essa parte não prestei muita atenção, mas aposto que foi algo extremamente divertido. Ela falou com ânimo e é o que importa.).

Aproveitei para calibrar um pouco o pneu. Sentia que estava um bocado murcho na parte traseira. Nisso veio um rapaz me cumprimentar. De onde surgiu, não sei.
- E aí Marcio, quanto tempo!
- Hum... Meu nome é Marcos. Acho que está me confundindo com alguém.
- Mas é claro que não. Desde que te conheço você tem o mesmo carro. Não lembra de mim?
De fato, ele estava certo. Fazia oito anos que estava com o mesmo carro. Isso significava que o conhecia há menos tempo que isso. E eu simplesmente detesto encontrar alguém que me conhece e eu não lembro. Te faz se sentir como se estivesse se afogando: não tem saída, a não ser mergulhar mais fundo.
- Marcos, vamos?
Erica. Por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa. Agora posso me livrar desse cara chato sem lembrar quem é... mas...
- Juan, você por aqui?!
- Erica! Meu Deus, você conhece o Marcos!?
- Claro, estamos namorando. Nos conhecemos através da Rosana, a irmã do Julio.
- Nossa, que bacana. Agora vou ter que ir. Fico contente que vocês estejam juntos, formam um belo casal.
Não sei por que, as palavras dele não me encorajavam. Parecia até que vinha algum rancor. Mas, o que importa, é que realmente não lembrava dele.
Fomos para o carro para que eu pudesse levar Erica até o trabalho dela. Ficava quase tão longe quanto o meu, mas pelo menos ficava perto um do outro. Isso era bom e ruim ao mesmo tempo.

- Não sabia que conhecia o Juan.
- Nem eu sabia que o conhecia. Não me lembro dele. E ele parece que me conhece tão bem.
Erica levantou a sobrancelha. Deu uma tossida de leve e pôs uma dessas balas de hortelã na boca. Enquanto ajustava o cabelo no espelho do quebra-sol, disse.
- Ele é meu primo. E se não me engano vocês fizeram o mesmo curso na faculdade. Será que vocês não eram da mesma turma?
Putz. Erica, por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Cristal

Dói.

Durante muito tempo, vim trabalhando para construir um cristal que tivesse a minha imagem. Não minha imagem física, mas sim a imagem de dentro. Logo a imagem de um pequeno cristal redondo, com várias lascas pequenas surgiu. Vim então trabalhando para polir esse cristal e que todas as lascas fossem removidas.

Vim exibindo meu cristal liso a todos que quisessem ver. E todos apreciavam 'Olha que cristal brilhante', 'como reluz essa jóia'. E coisas do gênero. Meu cristal logo se tornou motivo de orgulho para muitos, uma vez que aquela pequena coisa se destacava dentre as outras pedras.

Às vezes, era necessário dar um polimento a mais, pois a pedra se apagava por um tempo e reacendia. Eu me assustava nesses pequenos períodos de escuridão.
Por vez, a pedra chegou a brilhar tanto que foi alvo de discussões serias, onde todos se perguntavam como que um cristal conseguia brilhar, com tão pouco tamanho. Eu sorria me orgulhando o cristal que eu tinha criado, e assim foi por algum tempo.

Dói.
O que por vezes eu esquecia é que uma vez lascado, o polimento serviria apenas para esconder toda a imperfeição da pedra. E por muito tempo eu tinha esquecido o quando tinha por baixo daquela beleza brilhante. Tinha esquecido todos os riscos e lascas que o polimento escondia.

Eu também, por vezes, esquecia que o polimento no cristal seria o mesmo que mascarar a face lascada.
Até que uma pequena lasca surgiu. E virou uma rachadura. Em menos de três horas, o cristal começou a se apagar, e a rachadura aumentar. Jamais pensaria que aquela lasca, lembro-me muito bem dela quando fiz o cristal pela primeira vez, viesse afetar depois de tanto tempo preenchida. Mas erroneamente ao invés de lixar a lasca, resolvi simplesmente a mascará-la como se nunca tivesse lá.

Dói.
O meu cristal se rachou. Quebrou em doze menores pedaços. Alguns brilhantes, alguns apagados. Quase todos frágeis.
Menos a parte onde a maior e menos notável lasca tinha se formado. Aquele era o maior e mais grosso pedaço do meu cristal espatifado.

O meu cristal espatifado criado a minha imagem espatifada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Chocolate Quente com Marshmallow

Ela olhou para fora. Vira os carros passarem apressadamente pelo lado de fora da janela por um minuto e suspirou. Afagou os cabelos da nuca enquanto pensava em como começar a falar. Quando movera os lábios pela terceira vez sem produzir som algum, a garçonete apareceu.
- O que o casal feliz deseja?
Sem dúvida alguma, a vontade da moça era de fuzilar a garçonete. Que idéia era essa de dizer 'Casal Feliz'? Soltou então um longo suspiro, concentrou todas as suas forças e deu um sorriso.
- Você disse que o chocolate quente com Marshmallow daqui era bom, não é?
O rapaz a fitou nos olhos com vagarosidade e murmurou.
- Sim, o chocolate quente daqui é bom. Quero um com Marshmallow e um croissant integral de queijo.
Ela repetiu o pedido e a garçonete partiu. Olhou novamente para fora e viu um casal de idosos atravessando a rua vagarosamente, sorrindo. Revirou os olhos e se virou novamente para o rapaz.
- Fazia tempo que você estava me esperando? Me atrasei um pouco.
- Não muito, uns dez minutinhos só. Estava ocioso em casa mesmo.
Pensou consigo mesma 'Então porque não disse que estava livre mais cedo?', mas relevou o pensamento e continuou a ferver os neurônios para tentar conversar com aquele rapaz. Antes que começasse a falar, ele começou a falar para o vidro.
- Sabe, sei que pode parecer uma conversa clichê, Mas o tempo hoje está realmente agradável. Sabe, esse tempo cinza, nem frio nem quente. As pessoas podem escolher se saem usando blusas ou camisetas.
Ela olhou novamente para fora e viu, realmente. Havia dois rapazes andando em frente ao café. Um usando Shorts curtos de correr com uma camiseta curta e sem mangas, conversando alegremente com outro rapaz, com longos Jeans, casaco e até um cachecol. Criava um contraste engraçado. Ela riu.
- Por que ri?
- Aqueles dois rapazes. Estão engraçados vestidos assim.
Ele sorriu por uma fração mínima de segundos e voltou à feição normal, como se estivesse com um sono permanente. Ela ainda não entendia o porquê daquele semblante fechado. Pela quarta vez, ia começar a falar, quando foi interrompida pela garçonete, trazendo os chocolates quentes e se desculpando pelos croissants, que haviam queimado, mas ela já traria outros.
Quando a garçonete se afastou, ela tocou a ponta do nariz gelado e começou a falar.
- Você me parece meio abatido. Aconteceu algo?
Ele hesitou uma resposta, olhou para o chocolate e respondeu lentamente.
- Não se preocupe, é o meu jeito habitual. Não estou abatido, pelo contrário, fico feliz de estar aqui.
Ela sorriu pela resposta, mas não compreendeu realmente o que ele quis dizer com aquilo. 'Bom, se ele diz estar feliz em estar aqui, poderia ao menos DEMONSTRAR estar'.
-É que você está com olheiras um pouco fundas e não tem falado muito. Pode conversar comigo, estou aqui pra te ouvir.
Ele hesitou novamente, deu um sorriso curto e respondeu tranquilamente.
- Fico feliz que se preocupe comigo, mas está realmente tudo bem. Me acostumei a dormir tarde e por isso as olheiras. Não sei muito o quê falar com você, mas não leve isso a mal.
- Eu só quero ajudar...
Ele tomou um longo gole do chocolate. A garçonete trouxe os croissants, agora aparentando estarem crus demais, e se retirou. A moça, vendo que não tinha muito o quê fazer, passou a fitar o vidro com a caneca de chocolate na mão.
- Não que isso interfira no meu comportamento habitual, mas eu ando com alguns problemas familiares, meu trabalho anda bem desgastante e não ando me sentido muito seguro com relação a você. Sinto que vou te perder.
Ela se manteve estática. Não esperava uma resposta tão direta do rapaz que, agora, parecia um pouco mais confortável. Era como se antes ele estava com alguma coceira que, de repente, cessou e atacou ela. Fitou mais uma vez o chocolate e suspirou.
- Olhe, eu só quero que você fique feliz. Eu também ando tendo problemas com minha família, você sabe, fui até chamada de acidente pelo meu pai, estudo numa área que não me apetece, mas preciso continuar pra não perder meu emprego. Você está abatido e não se abre comigo. Como posso ficar bem assim? Apesar de tudo, estou procurando ser feliz dessa forma.
Ele suspirou
- Parece impossível.
- É improvável, não impossível. Se eu não tentar, vou me abater para sempre, porque não é sempre que coisas boas acontecem. E mesmo assim temos de viver.
Ele abaixou os olhos para o chocolate. Pareceu com se tivesse levado uma bofetada.
- Eu quero terminar logo de estudar, é só mais um ano, e fazer uma pós em alguma coisa que eu realmente queira. Vou terminar de pagar meu apartamento e adotar um cachorro chamado Spark e uma gata chamada Diamont. Vou arrumar um emprego melhor e voltar a fazer aulas de dança. E só de pensar nessas coisas, já me dá vontade de continuar. Quais são os seus planos para o futuro? Não tem nada que te motive?
- Nunca fiz planos a longo prazo. Toda vez que os faço acabo me decepcionando ou mudando de idéia antes de acabar. Por enquanto, meu único objetivo é terminar o curso de Alemão que comecei. Eu acredito que as coisas boas não são buscadas e, sim, elas aparecem ao acaso. Assim como você surgiu.
Ela se engasgou com o chocolate. Tossiu três vezes, o suficiente pra chamar a atenção de todos os presentes no estabelecimento. Assim que se recuperou, e que todos os clientes do estabelecimento voltaram suas atenções as respectivas companhias, disse numa voz fraca e pastosa de marshmallow.
- Com todos... os problemas que eu... cough... ando tendo, não preciso de alguém que me deprima mais que já estou. Preciso de alguma motivação, alguém alegre. Alguém que queira ficar comigo e me animar. Não alguém que me diz que não tem a mínima vontade de fazer algo...
- Eu nunca disse isso, eu apenas...
- Ouça. - Ela o interrompeu - Sabe, eu gosto muito de você, quero muito que você fique bem, mas não dá pra ficarmos juntos se você não fica bem e nem procura estar bem. Não me venha com essa de que 'Temos de esperar a marolinha passar'. Se só esperarmos, nada vai acontecer.
- Entendo o que quer dizer, mas...
- E pare de falar comigo formalmente. Tem de se descontrair. Estamos saindo juntos há um mês e só vi você sorrir três ou quatro vezes. Me diz o porquê disso tudo isso?
Ele lançou um profundo e tristonho olhar a ela. Apesar de todos já terem desviado o olhar, ainda tinham os ouvidos sensíveis a conversa do casal. A caneca de chocolate tremia na mão da moça, não sabendo se por causa do frio repentino que viera da porta recentemente aberta ou se da raiva que estava sentindo.
- Eu nunca soube demonstrar bem meus sentimentos. Eu... peço desculpas por isso tudo e vou entender se você quiser lançar esse chocolate na minha cara.
De fato, o chocolate pulava da caneca dela. Assim que ela percebeu, baixou a caneca na mesa e pousou as mãos no colo. Ela suspirou e esperou ele continuar, mas seu rosto se voltou a contemplar o vidro e as pessoas na rua.
- Você sabe que não dá mais, não é? - Ela suspirou baixinho.
- Obrigado - ele disse, voltando o rosto para a caneca. - por todo esse tempo. Foi maravilhoso.
Ela, aturdida com essas palavras, se levantou e saiu pisando forte. Parou por um segundo a porta, tomou fôlego e saiu. Ele ficou olhando pelo vidro enquanto ela passava, andando em frente sem virar para trás. Ele virou sua caneca de chocolate, pagou a conta e foi embora, andando na direção oposta.

quarta-feira, 9 de março de 2011

À Deriva

Estávamos à deriva. Éramos dependentes do mar e do vento. Talvez até mesmo da estação Lunar. Como botes encalhados, esperando boas condições para o resgate. Como velas alçadas, quase hasteadas. Como âncoras sendo liberadas.

Era carvão, aguardando o fogo para combustão. Era como qualquer metáfora que dependesse de ação para reação. E este estado era definitivo, interminável, eterno, irreversível.

Porém não podia ser assim.

Apesar de esperar, algo acontecia até todo o processo ocorrer. Não que houvesse autocombustão ou auto-hasteamento. Mas mesmo botes encalhados mandam seus sinais de socorro. Estávamos à deriva, sim. Mas não totalmente imobilizados. O mar, o vento, a estação Lunar eram variáveis inconstantes. Nossa condição não.

Assim como o carvão a espera da combustão, éramos humanos, a espera da morte.
Mas nem por esse motivo deixamos de viver plenamente. Afinal, definitiva, interminável, eterna e irreversivelmente, estávamos à deriva.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sonhos em Luz e Plástico

As luzes. Cada minúsculo ponto brilhante daquela avenida consumia uma pequena potência de existência.
Havia bonecos em forma de bonecos, bolas em forma de bolas, sonhos em forma de pequenos farelos brilhantes que circundavam todos os glóbulos das lâmpadas que apareceram ao correr aquela semana pela cidade.

Um gracioso e reluzente Boneco de Neve de plástico brilhava por entre vários Pirulitos verdes e vermelhos. Todos possuíam nariz de Cenoura de Plástico, Cartolas de Veludo Negro de plástico, Cachecóis quentes e peludos de plástico e luzes extra-coloridas, dando uma majestade maior do que realmente aparenta ter um Boneco de Neve num país tipicamente tropical. Mas o sorriso daquele pequeno monte de plástico aparentemente inútil fazia com que os rostos de diversas crianças de todas as idades refulgissem a luz daquela noite pouco estrelada de uma época nublada. Panapanás coloridas de plástico voavam em bandos para lugar algum, em círculos eternos sobre uma armação de arames, transformando o ato de voar num singelo tempero alegre noturno e adocicado.

Gigantescos pinheiros concentrando as diversas cores em sua imensa extensão, onde em suas raízes estavam as esperanças e felicidades das crianças que esperavam um brinquedo. Bolas magistrais sempre nas mesmas cores pendiam de seus galhos como se fossem frutos de uma época inexistente, porém que pareciam saborosos aos olhos. Outros frutos também pendiam de outros postes, sempre com cores Rubras ou derivadas, mas nunca trazendo discórdia ou algo do gênero. Pelo contrário, acalmava corações aturdidos com bilhares de questionamentos.

Luzes tipicamente azuladas combinam com o Pseudo-Inverno da Estação veraneia. Luzes absurdamente verdes, fazendo os pinheiros parecerem maior do que realmente são. Vermelho forte, combinando com sentimentos intensos dos variados tipos de pessoas que por ali andavam. Amarelos e dourados chamativos, para que as pessoas acreditassem que era a época de ouro do ano. Prateados e Alvo, lembrando pássaros incrivelmente brancos que simbolizam tranqüilidade. Violetas, trazendo todo o mistério presente na imaginação absurdamente fértil dos humanos.

Uma criança parou na rua, apontou para uma pequena gravata iluminada e chamou sua mãe. Aparentemente, seus olhos refletiam a mesma intensidade, senão superior, a das luzes que eram emitidas pelas gravatas. Seus olhos lacrimejaram de graciosidade e um sorriso surgiu rapidamente no rosto. Outra criança parou e encarou o boneco de neve, com as sobrancelhas levemente arqueadas começou a questionar seu avô sobre a neve e como é feita. Seus ouvidos eram atentos a estória contada pelo feliz ancião. Uma terceira criança olhou para o grandioso pinheiro e o mostrou ao pai. Pai este abriu um gigantesco sorriso e abraçou o filho bem apertado, como se aquele fosse o seu pertence mais precioso. Outra criança olhou brevemente uma das borboletas no arame, lembrou de seus natais antigos, e abriu um sorriso para suas filhas .

E assim, todas as crianças iam olhando para o alto, com os rostos levantados, sempre com os olhos brilhando. Cada uma com uma reação diferente, mas todas com o brilho daquelas diversas luzes, de diversas tonalidades, refletindo todos os sentimentos que esperaram todo um ano para sentir novamente.

domingo, 26 de setembro de 2010

Convite

Não obstante a todo esse universo, devo lhe dizer, Joana, que posso trazer-lhe o Sol, ou levá-la as estrelas. Não é simplesmente mais uma dessas minhas declarações apaixonadas ou algo que o valha, sinto lhe dizer. Mas é que o novo planetário da cidade já está aberto à visitação.

Outro detalhe que gostaria de frisar foi que ontem me encontrei com seu irmão, Miguel. Conversamos um bocado e ele me disse gentilmente a posição dele com relação a minha estadia na sua casa. Fiz questão de lhe contar sobre o dinheiro que ando gastando, o financiamento do meu novo apartamento e o meu pedido de noivado.
Apesar de termos conversado um bocado, foi uma conversa curta, uma vez que meu pai aparecera pedindo para que eu o levasse ao médico. Sabe que a saúde dele não é das melhores... Enfim, ele está bem, era só uma dor de cabeça mais forte.

Com relação aquela carta de atraso do pagamento da conta de telefone que chegou, liguei e resolvi o problema. O sistema estava com algum defeito e por isso não haviam contabilizado o pagamento. Passei um fax com o recibo de pagamento e eles que se resolvam. Hehe, Fax, que coisa antiga.
Sua Tia-Avó Mirele ligou. Ela pedira para que você retornasse a ligação o mais cedo possível. Ela irá convidá-la para passar umas semanas na Noruega junto com ela. Eu sugiro que você ligue o quanto antes, afinal, como você mesma disse, o humor dela é um bocado inconstante.

Como você percebeu Joana, deixei esta carta dentro de um livro, na exata página onde o marcador estava. Sugiro que leia a página 257 novamente, deixei uma frase sublinhada que gosto pacas.

A Cleide também ligou. Deixei esta por último para fazer suspense. E adivinhe... ahã.... Você começa na quarta! Deve ir por entre hoje e amanhã para assinar o contrato e pronto. Não é genial? Fico feliz que você tenha conseguido essa vaga, Joana.

Deixe-me encerrar por aqui. Te amo
    Ao infinito
           E Além.
           Eduardo.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Felicidade Satisfatória

Meu pai sempre foi daquele tipo de homem que saia de casa logo pela manhã com o jornal embaixo do braço e o terno bem arrumado, sem nenhuma dobrinha e com o cabelo arrumado todo certinho, impecável. Levava eu e minha irmã para o colégio e rumava ao serviço. Ligava ao meio dia em casa pra saber se estava tudo bem e mandava um beijo pra minha mãe. Chegava em casa as sete em ponto da noite, com o terno em cima do ombro, o óculos meio tombado e o cabelo antes todo arrumadinho, meio bagunçado. Dava um beijo na minha mãe, ia tomar banho, colocava sua pantufa e ficava no sofá até a hora de dormir.

Minha mãe sempre foi daquele tipo de esposa dedicada. Acordava meia hora antes de o papai sair pra trabalhar e fazia-lhe o café que cheirava a quarteirões de distância. Buscava o jornal na porta e colocava em cima da mesa, aberto na página favorita do meu pai, as notícias econômicas. Preparava o café da manhã com devoção e uma alegria sem tamanho. Quando chegávamos do colégio, o almoço já estava quentinho na mesa já arrumada. Às vezes, enquanto mamãe estendia a roupa no varal, parava para conversar com nossa vizinha ou para espantar Toby, nosso cachorro, da roupa lavada. Papai chegava e mamãe servia-lhe seu prato preferido, que era o refogado de abobrinha, que eu e minha irmã fazíamos cara feia ao comer. Mas papai dizia que ia nos deixar forte, então comíamos sem reclamar. Mamãe via TV com papai enquanto fazíamos nossos deveres.

Minha maninha sempre foi aquela nerd e insuportável. Ela tinha dezessete anos e era conhecida como a ‘sabidinha’ da sala. Acordava cinco minutos antes que o papai, fazia sua série de alongamentos, tomava banho e colocava o uniforme do colégio. Ficava me aporrinhando para levantar logo. Abria a janela do meu quarto me obrigando a levantar. Arrumava o material que ia precisar para aquele dia e ia para a cozinha, ajudar mamãe a preparar o café. Quando eu chegava, ela estava comendo aquele cereal horrível. Sentava no banco da frente do carro do papai, onde ficava brincando de trocar a estação da rádio ou ficava se vangloriando da sua ultima nota dez no colégio, onde ficava o recreio todo na biblioteca estudando. Ela me esperava na porta do colégio, onde voltavamos a pé para casa, conversando sobre as peculiaridades do dia. Chegava em casa, ela arrumava o quarto e voltava a estudar. E ali ficava até o jantar.

Sempre me chamaram de folgado. Sempre fui o último a levantar, mas nunca viam que eu sempre era o último a ir dormir. Sempre acordava com minha mana abrindo a janela e pulando na minha cama. Eu espreguiçava e ia pro banho. Trocava-me e ia tomar o café com maninha, mamãe e papai. Papai falava sobre algum índice novo da bolsa de valores, mamãe contava sobre os lençóis novos do vizinho e maninha tagarelava sobre o que o professor disse do último trabalho dela. Despedia-me de mamãe e ia com papai pra garagem, onde ele sempre comentava da minha altura. Sentava-me no banco de trás do carro, ligava meu foninho de ouvido pra não ouvir minha mana falar asneira e dormia no carro, até o colégio. Lá sempre me divertia pacas. Meus colegas eram uns palhaços que só sabiam conversar coisas inúteis. Sempre saía mais tarde da sala, conversando com eles, e encontrava minha maninha na porta do colégio, me apressando pra ir embora logo. Chegávamos em casa, almoçávamos a comida fresquinha da mamãe. Eu ia pro meu quarto, ouvir música, ver TV, jogar algum jogo ou ficar a toa. Papai chegava, íamos pra sala de jantar, fazíamos nossa refeição e ajudava mamãe a tirar a mesa, todos bem animados. Fazia um pouco dos deveres, ficava um pouco na sala e ia dormir.
Todo sábado fazíamos alguma coisa em família. Ou íamos à casa da vovó, ou íamos ao parque levar o Toby pra passear, ou íamos a algum restaurante ou alguma coisa do gênero. Domingo acordávamos todos cedo, íamos a Igreja e voltávamos, conversando alegremente sobre as coisas da semana que tinham acontecido.

Felicidade Satisfatória.

Mas eu sei que meu pai nunca quis ser economista. Sei que o sonho dele foi ser professor de música junto com seu colega da primeira faculdade dele, Artes. Sei que ele detesta refogado de abobrinha e que tudo que ele mais gosta de comer é o cachorro quente que vende em frente ao escritório dele. Sei que ele casou jovem demais com a mamãe, mas ela já estava grávida da maninha. Sei que, pra dizer a verdade, ele ainda se encontra com o amigo de faculdade, e que eles sempre saem juntos, sem a mamãe perceber. Também sei que papai só dirige para nos levar ao colégio. Ele detesta assumir a direção do volante.

Eu sei que mamãe tinha outros sonhos quando jovem, antes de ter minha maninha. Ela queria ser jornalista e, para pagar a faculdade, trabalhava como monitora de berçário. Percebo a tristeza nos seus olhos toda vez que chega alguma carta de amigas de faculdade dela. Sei que ela detesta cachorros e, conseqüentemente, nunca aceitou Toby totalmente. Sei que ela detesta o trabalho de dona de casa, faz o faz parecer divertido para não se aborrecer. Aliás, também sei que ela toma vários comprimidos para depressão, tentando se esquecer do acidente que matou o pai dela.

Minha maninha tem taras enormes pelo Rogério, o garoto popular do colégio. Tanto que as garotas de lá vivem tirando o sarro dela por causa de uma declaração que ela fez sem saber que estava sendo gravada. Sei que quando ela diz que vai dormir na casa da amiga dela sexta à noite, na verdade as duas estão indo para alguma balada, pois ouço quando ela chega às seis da manhã nas pontas do pé. Também sei que ela esconde alguns comprimidos embaixo da cama, mas nunca me perguntei o que era.

Sei que nenhum de nós é católico, apesar de irmos à igreja toda semana. Sei que todos nós nos irritamos em levar Toby para passear e ter de recolher as fezes que ele deixa nas calçadas. Sei que ninguém mais tem paciência quando a vovó começa a contar as mesmas histórias, de quando era jovem e namorava o vovô. Sei que nenhum de nós suporta acordar cedo, a não ser talvez minha irmã.

Sei que quando colocava meu fone de ouvido no carro e dormia, na verdade, estava ouvindo minha irmã conversar com papai. E que quando ficava até tarde vendo filme ou ficava no PC, era porque papai e mamãe discutiam até tarde e eu não conseguia dormir.
Sei que é impossível se ter uma família perfeita. Sei que, socialmente, o significado da felicidade pode ser bem relativo. Sei que não somos todos felizes com nossas vidas.
Sei que eu me isolava o máximo que podia da minha família, mas era pra manter pra sempre o que eu tenho por uma família feliz. E assim somos.

domingo, 23 de maio de 2010

Ctônico

Hoje estava com as meias molhadas. Mas não havia o que ser feito a não ser caminhar para casa, como todo final de tarde. Milhares de pensamentos a lá Hipnos e Tânatos, de tão desditosos e enfadonhos. Fazia o que tinha de fazer quase que automaticamente, sem se preocupar em pensar. Uma vez que pensar era tedioso demais, pois quando se pensa em algo, está apenas valorando socialmente o que esse algo é, se preocupava em imaginar como poderiam ser todo o resto. Pensara em fugir para a mesma raiz de árvore, mas devido a Zeus e seu mau humor não-rotineiro do mês de maio, resolvera que o melhor lugar a se encontrar naquele momento era uma confortável cama com cobertas quentes.

Novos horizontes tem se aberto àquele rapaz. Eram bilhares de alternativas, de escolhas, de direções, de qualquer coisa que lhe poderia ser destinados. Era, sem dúvidas, o momento de maior glória, que ele jamais encontraria novamente. Era aquele o momento onde todo o futuro deveria ser planejado. Calmamente e sem antecipação, sem realmente precisar se adiantar, afinal, já estava bem adiantado.
Mas, definitivamente, não era isso que ele via.

Ao invés de ver tudo aquilo como alternativas a serem escolhidas, era visto como Hidras a serem domadas. Ao invés de escolhas, ele acreditava ser a grande escolha de Ulisses, entre Scylla e Caríbdes. Ao invés de direções, era possível distinguir o olhar dele como se visse os Campos Elíseos, o Tártaro e a Planície dos Narcisos. Não era possível ver o que pensava, pois nada era claro para ele, assim como se auto-destinara.
Se via como Prometeu ou Andrômeda. Acorrentado.

Por mais que soubesse que deveria ter de escolher o que seguir, o que acreditar, resolvera simplesmente se colocar nas raízes das árvores e contar o número de formigas que subia em suas mãos. E, por isso, ninguém o julgava muito capaz de fazer qualquer coisa, mesmo acreditando que tinha um Gênio brilhante. Talvez realmente o tivesse, mas não funcionava bem como queriam. Era inóspito a qualquer um que tentasse entender seu interior, mesmo porque saberia que ninguém o poderia fazer. Já desistira de criar esperanças a encontrar qualquer coisa que lhe entenda. Mas era tão simples de se compreender. O problema dos homens é simples: não querem nada simples. E era isso que faltava em alguém para que pudesse compreender tal complexidade: simplicidade.

Tudo que se deveria fazer foi deixado de lado. Necessidades físicas foram abandonadas. Sentidos biológicos foram abalados. Enquanto o calor se estende quando se sente confortável, o frio torna tudo mais descortês e um bocado sem cor. Afinal, cores são tão complexas quanto qualquer outra coisa. Talvez esse fosse o grande motivo das mãos dele serem tão geladas. Que combinavam perfeitamente com seus olhos, que emanavam certa energia dúbia. Aliás, mesmo Jano poderia ter dúvida do que era dito.

Definitivamente, os pensamentos que se tinham exprimido não eram dignos de Atenienses, mas eles soavam tão sonhadores e sem sentido que era como se algum Morfeu ou Ícelo dominasse o ar. Nada se mostrava muito lógico no que era dito, mesmo quando fazia algum sentido. Com isso, qualquer coisa era taxada como vil. Isso o fez parar de dizer tudo o que pensa.

Enquanto pensava no quanto estragara toda a construção e alguma forma não convencional de reparar o grande erro, já dentro do coletivo, passou uma senhora carregando uma pesada sacola, onde era possível ver comida enlatada de gatos. Ela o encarou diretamente nos olhos. Pela frigidez do rapaz, rapidamente desviou o olhar para a janela, onde só era possível ver pesadas cortinas de água descendo torrencialmente. Já tinha até se esquecido da senhora quando novamente virou-se e encontrou a senhora a encarar-lhe fervorosamente. Por instinto, logo imaginou que o cabelo estava bagunçado ou que a gola da camisa estava torta e tratou de se mirar no espelho do vidro para ver se procedia tal pensamento. Nada de anormal. Ele se virou uma terceira vez para a senhora e ela continuava a lhe encarar. E lhe sorriu.

"_ C'est l'Homme aux mille tours, Muse, qu'il faut me  dire, Celui qui tant erra quand, de Troade, il eut pillé la ville santé, Celui qui visita les cités de tant d'hommes et connut leur esprit. Celui qui, sur les mers, passa par tant d'angoisses, en luttant pour survivre et ramener ses gens. Hélas! même à ce prix, tout son désir ne put sauver son équipage: ils ne durent la mort qu'à leur propre sottise, ces fous qui du Soleil, avaient mangé les boeufs; c'est lui, le Fils d'En Haut, qui raya de leur vie la journée du retour.
Viens, ô fille de Zeus, nous dire, à nous aussi, quelqu'un de ces exploits..." (Homero)

O rapaz ergueu uma sobrancelha e começou a olhar através da senhora. Via outra senhora sentada ao seu lado, também o fitando, com um pequeno sorriso desbotado no rosto. A senhora segredou algo com a sua companheira, que passou do sorriso desbotado a um olhar brilhante. E voltou a encarar o rapaz.

Consciente de que estava encharcado, e que não havia outra escolha senão aguardar o final da viagem, o rapaz virou-se pra janela e ali permaneceu por um bom tempo. Não olhava as janelas propriamente ditas, mas sim algo que ninguém mais conseguiria enxergar. O fato de Apolo e Selene dominar o céu ao mesmo tempo enquanto chovia era algo que possivelmente era único. E o mais incrível, Iris deixara dois rastros entre sua passagem entre o Céu e a Terra.

Chegado o fim da viagem, levantara-se para descer e contemplar de perto os rastros de Iris, encontrara novamente as duas senhoras, descendo do coletivo. Ouvira algo como ‘Fim da Viagem, Dona Lá’ ou algo que o valha da senhora com a sacola de ração enlatada enquanto ela saltava do automóvel. Ambas as senhoras se encontraram com uma terceira senhora e ficaram a papear ali na calçada, onde várias pessoas se empurravam com pressa de passar. Enquanto o rapaz descia, as três o olharam com um sorriso e sussurraram algo como ‘Hora’.

Caminhando em direção ao sonhado cobertor, deduzira ele que tinha encontrado as Moiras e que elas já haviam decidido seu destino. Não havia o que se preocupar então, mesmo com relação a escolhas, alternativas, direções e destinos. Bastava existir para não mais existir. E tudo substancialmente sem aviso prévio. Então não há motivos sólidos para preocupações com qualquer coisa, bastava rumar.

Je reconnais, mon hôte, en toutes tes paroles, les pensées d'un ami , d'un pere por son fils: je n'en oublierai rien.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

No Café

Eu sabia que tinha um sorriso idiota na cara. Mas também sabia o quão inevitável ele surgira no meu rosto.
Estava sentado em uma das cadeiras mais baixas, encostado a uma mesa pequena, longe do balcão e em frente ao vidro. Olhava para o lado de fora do café com uma freqüência que diria que era até absurda. Revirei meu pulso, acho que pela sétima ou oitava vez, e vi que o horário ainda não tinha mudado. Duas e quinze, ainda estava quinze minutos adiantado.
Olhei para o prato a minha frente. O croissant de queijo estava com uma aparência horrível, como se tivesse sido atropelado pela manada de mamutes gigantes e frio como se tivesse sido colocado no congelador, ao invés do forno. O café estava amargo, mas eu não reclamava. Pedi sem açúcar, pois fazia algumas horas que eu não dormia e precisava me manter acordado por mais algumas. Talvez o açúcar não me fizesse muito bem também. Mas não estava preocupado com nada disso.
Olhei para o celular e vi que meu pulso não mentia. Estava quinze minutos adiantado. Não sei pra quê diabos resolvi chegar mais cedo, afinal, eu sempre chegava atrasado. Mas hoje era uma exceção a qualquer coisa.

A porta do café se abriu. Finalmente. Afinal, ELA estava atrasada. Dez minutos. Naquele dia jurei a mim mesmo que nunca mais ia me atrasar a qualquer compromisso.
A princípio, ela não me encontrou. Lógico, eu estava de óculos escuros. Quando percebi, eu os tirei do rosto e dobrei cuidadosamente em cima da mesa, enquanto ela vinha e se sentada exatamente a minha frente.
Ela logo veio se desculpando do atraso, que tinha acontecido um funeral de mosquito na casa da tia da irmã do vizinho da cunhada dela, ou algo que o valha. Talvez fosse até menos dramático. Fingi não ter ligado, mas estava bufando por dentro. Me senti um pastel mal comido.
De alguma forma, ela estava mais bonita que no dia anterior. Não sei se tinha cortado os cabelos louros, ou se simplesmente tinha os colocado atrás das belas orelhas que ela possuía. Na verdade, ela estava tão bela quanto nos outros dias, mas é que meu humor estava um bocado melhor. Apesar da raiva pelo atraso.
-Fico feliz que tenha vindo – Eu disse, sem ter a plena certeza disso – Eu realmente estava precisando de alguma… companhia.
Frisei a ultima palavra, mas sem nenhuma malícia. Mas pelo jeito ela não havia me entendido. Ela ergueu a sobrancelha e me encarou com os olhos dourados. Olhos estes que eu achava os mais lindos de toda a galáxia. Não que tivesse visitado algum outro planeta.
Ela bebericou um pouco da água que acabara de chegar e pediu um chá gelado com torradas. Quem diabos come torradas às duas e quarenta da tarde? Enfim, preferi não me desviar do foco. Assim que o garçom se fora, ela voltou a me encarar com os brilhos dourados.
-Eu tenho que me desabafar com alguém, e achei que talvez fosse a pessoa ideal para isso. – expliquei rapidamente, vendo que a postura dela ficara mais relaxada com a minha afirmação. Talvez ela estivesse achando tudo um tédio. Mas eu não tinha opção. Eu realmente precisava de companhia. E ela era a única disposta a me ouvir. Bom, se bem que eu gostava mesmo da companhia dela, mesmo quando ela grunhia alguma coisa sem sentido, como ela fez agora.
-Bom, entendo que esteja em condições um tanto precárias. É dinheiro o problema? – soltou ela, num segundo.
Eu olhei pro lado. Estava eu mal vestido ou algo assim? Fingi que sequei o suor no braço, mas estava verificando se estava cheirando mal. Nenhum cheiro. Pense no meu apartamento, mas tinha acabado de reformar.
Ela percebeu o que tinha falado e se desmanchou em risos. Murmurou que era uma piada e pediu pra eu prosseguir. Fiquei mais tranqüilo, mas não o suficiente. Talvez minha camiseta estivesse surrada e eu não tivesse percebido. Meu cabelo, talvez. Mas resolvi prosseguir.
Contei que, na verdade, ando muito tempo dentro de casa, e fazia algum tempo que não via algum amigo ou algo que o valha. Que ultimamente tenho sentido um bocado sonolento e que achava que estava emagrecendo anemicamente. Ela riu novamente conforme eu mudava de assunto com uma rapidez um bocado bruta.
-Fazia tempo que não me divertia tanto. – ela me disse. Acho que estava tentando me animar, pois contei de uma experiência traumática de quando uma barata subiu na mesa da cozinha e eu quebrei o prato, tentando matá-la. E ela fugiu. – E não digo isso tentando animar! –Ela adivinhou meus pensamentos.
Ela me contou como está tendo problemas com a família. Não conseguia arrumar trabalho e os irmãos não a ajudavam a cuidar da casa. Que comiam feitos porcos a aposentadoria do pai. Que o namorado da amiga estava dando em cima dela. E como não conseguia se socializar com ninguém.
Com relação a essa ultima afirmação, achei um tanto precipitada. Ela era uma pessoa muito simpática, mas as pessoas a subjugavam pela beleza. Afinal, mulher bonita não devia ser inteligente. Ou de companhia agradável. Apenas boa de cama. Coisa que nunca concordei duzentos por cento.

Olhei no relógio. Cinco e trinta. Ficamos duas horas e alguns milhares de minutos conversando tolices, sentados e eu nem havia percebido que já tinha começado a ficar escuro. Fora, realmente, uma tarde um bocado agradável.
Ela também sacou um celular azul da bolsa e conferiu as horas. Perguntou se nos veríamos mais vezes e eu afirmei que sim. Lógico, nunca imaginei que me divertiria tanto sentado num café de quinta conversando groselhas com alguém. Convidei-a para ir ao meu apartamento na noite seguinte, para um jantar e ela concordara com um sorriso.
Paguei a conta. Não queria que ela realmente pensasse que eu estava querendo dinheiro. Coisa que eu realmente não precisava, afinal, tinha acabado de receber um abono do meu serviço. Levantamos-nos e eu a levei para casa, a dois quarteirões dali. Conversamos mais groselhas a caminho da casa dela, enquanto riamos feito loucos, contando das vezes em que nos encontramos (assumo, foram poucas). Ficamos ao portão da casa dela conversando, quando realmente chegou a hora que ela precisava entrar. Eu, estabanado como sou, fui cumprimentá-la com um aperto de mão formal. Ela segurou minha mão e me puxou para um beijo no rosto. Não sei se mencionei, meus movimentos são um bocado retardados, então não virei o rosto direito.
Acabamos trocando um pequeno selinho. Coisa que, particularmente, eu não estava esperando. Separamos-nos e ela ficou um pouco corada. Ela abaixou os olhos e vi algo no rosto dela que nunca tinha visto. Resolvi me aproximar de novo e beijá-la pra valer.
Encostei meus lábios nos dela uma vez. Apenas encostei. Me separei pra ver o efeito e vi que ela não fizera nada contra. Pelo contrario, ela sorriu. Encostei meus lábios no nariz dela e ela deu uma risada. Sempre fui de ficar tentando as pessoas quando vou beijá-las. Cria um clima engraçado. Expectativa, talvez. Encostei meu lábios pela terceira vez nos lábios dela, enquanto passei as mãos pela cintura fina dela. Ela jogou os braços por trás do meu pescoço e retribuiu meu beijo.
Ficamos assim por algum tempo, até que decidi que era hora dela entrar. Me afastei carinhosamente, dando um último beijo na ponta de seu nariz e disse um ‘até amanhã’.
Esperei ela entrar, enquanto ela mandava um tchauzinho da porta. Me afastei com a sensação de que várias coisas a partir dali iam mudar na minha vida. Começando pelo fato de que nunca mais ia me atrasar para um compromisso. E perceber que nunca tinha me apaixonado de verdade por alguém até agora me deixou feliz.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Giz de Cera

- Luciano, você está bem?
Ele virou o rosto em direção a voz que ouvi. Vinha de Dani, colega de faculdade. Viu que fazia uma careta de desaprovação, pois, ao invés de ouvir o professor, Luciano estava muito além...
A cada dia que passava, Luciano tinha um maior controle sobre seu dom, de maneira mais eficiente e com maior poder, assim por dizer. Conseguia agora ficar por horas sem ouvir uma voz sequer. Às vezes, berros secos surgiam brutalmente, fazendo-o acordar de um sonho um tanto quanto utópico.
- Desculpe, Dani – Sorriu Luciano. Um sorriso forçado e quase que exagerado. – É que me veio umas coisas em mente.
Quanto a isso, ele não mentia.
- Não é porque você é inteligente e tudo o mais que tem que ignorar as aulas. – Disse, seca.
O professor já ignorava a comum falta de atenção do rapaz. Aliás, qualquer um ignorava a presença de Luciano, exceto um restrito grupo de duas pessoas.
Havia um exercício na lousa branca. E esse era o motivo pela qual Dani chamara a atenção de Luciano.
Loura, baixa, absurdamente magra. Olhos claros e profundos, onde finas olheiras envolviam na pele quase prateada. Cabelos na altura da cintura fina, que combinava com a finura do cabelo, fazendo com que se esvoaçassem com extrema facilidade. Era meiga no modo de se vestir, sempre com uma aparência bem animada e repleta de cores fortes, porém sempre combinando bem entre elas. Hoje, usava um tênis branco e meias listradas na altura dos joelhos. Macaquinho jeans por cima de uma alegre camiseta roxa e branca.
Luciano a olhou por alguns momentos. “O que será que acontece com ele. É sempre tão desligado e tão relaxado. É como se... não se importasse com nada.”. De repente, se virou para Luciano e deu um sorriso.
Com a boca levemente aberta, Luciano saiu da sala sem pronunciar uma única palavra. Já tinha ouvido centenas, talvez milhares de pensamentos. Sé de Dani, uma grande parcela.
Mas nunca algo sobre ele. Por incrível que pareça.
Quando chegou ao banheiro, enfiou a cabeça embaixo da torneira, deixando toda a água escorrer para seu pescoço. A água escorria, mas os últimos minutos não saiam da cabeça de Luciano. Fechou a torneira, secou-se com alguns papéis e se olhou no espelho.
Seus cabelos haviam coberto suas orelhas por completo. Seu rosto parecia pálido e seus olhos absurdamente arregalados. Pôs as mãos no rosto e assim viu o famoso retrato de Edvard Münch a sua frente, como se berrasse. Não sabia se corria ou se permanecia estático. Por fim, passado algum tempo, resolveu voltar à sala.
Quando saiu, se deparou com Christopher, que parecia amedrontado. Luciano se assustou.
- Chris?
- Oi Luciano. Você saiu da sala tão... O que aconteceu com seu cabelo?
Chris ficou roxo. Ele era bem branco, mas possuía a pele bem bronzeada, devido ao tempo que ficava exposto ao sol. Seus cabelos, perto do ombro, tinham um tom marrom claro, combinando perfeitamente com seus olhos escuros. Como sempre, a barba por fazer, dava-lhe um ar agressivo, mas que combinava com sua aparência. Jeans rasgado nos joelhos, camiseta escura e tênis comum.
- Enfiei a cabeça embaixo da torneira. Precisava pensar um pouco. Vamos indo que explico no caminho.
Luciano falou que, quando a cabeça doía, ele molhava a nuca. Chris não fez objeções.
Entraram novamente na sala. O professor os olhou e soltou uma risadinha debochada, mas não fez comentários. Os alunos levantaram o rosto por um segundo, mas logo abaixaram pro papel.
- Poderia me responder, Luciano – começou o professor, assim que Luciano se sentou – como devo fazer este exercício?
E olhou desconfiado para Luciano que, não por maldade, simplesmente se levantou, pegou a caneta da mão do professor e rumou para a lousa, sem olhar para trás.
- Não sei explicar. Só fazer.

Quando saíram, Luciano, Dani e Chris sentaram em algum dos bancos que estavam próximos ao prédio onde teriam aula, ao ar livre. Enquanto Chris e Luciano discutiam animadamente sobre a última prova, Dani revirava a bolsa. De repente, quando puxou um embrulho laranja, um giz de cera azul caiu “Ops, como isso veio parar aqui?”.
Luciano pegou o giz, sem realmente tocar ele. “Por que a Dani carrega um giz na bolsa?”, pensou Chris. Quando Luciano devolveu o giz, Dani ficou corada, enfiou o giz na mochila e sorriu.
- Deve ter sido minha irmã – “Detesto parecer idiota na frente do Lu”.
Ainda assustado, mas não o bastante para sair correndo, Luciano sorriu e murmurou um “tudo bem”. Chris deu uma risada, se virando para Dani.
- É agora, Dani?
- Sim!
Os dois ficaram em pé, se colocaram na frente de Luciano e disseram em uníssono.
“Feliz 18 anos, Luciano.” E o embrulho laranja nas quatro mãos, estendidos para Luciano.


O Grito - Edvard Münch

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Leões Dourados e Espelhos Púrpuros

- Vovó, me conta uma história?
- Claro Mariana.Qual você quer dessa vez? A Bela Adormecida?
Mariana fez uma careta.
- Não Vovó. Essas princesas não estão com nada. Ficam esperando príncipes e os cambaus. Quero algo novo.
A velha olhou Jonas e soltou uma sonora gargalhada. Jonas lhe deu uma piscadela e virou-se pra Mariana. A velha se recuperou e voltou a falar.
- Claro que conto, minha pequena. O que acha da história dos Espelhos Púrpuros e os Leões Dourados?
- Leões... Sim, eu quero essa!
A avó lhe sorriu, pigarreou e começou a contar:

“Era uma vez um planeta escuro e afastado.Ao contrário do nosso planeta, ele não possui nenhuma estela muito próxima, o que o torna escuro e gelado.
A pouca claridade que tinha era proveniente de estrelas bem minúsculas e bem afastadas do planeta. Os moradores deste planeta já eram acostumados a enxergar no escuro. Aliás, eles não só enxergavam no escuro como também refletiam essa escuridão.
“Eles eram os Espelhos Púrpuros.
“Eram redondos, como ovos, e tinham uma leve cor arroxeada em suas formas espelhadas. Possuíam pernas e braços finos, e eram desprovidos de pescoços. Tinham a cabeça junto com o globo e tinham olhos pequenos, mas que enxergavam bem longe. Eram desprovidos de sentimentos bons, como compaixão, alegria, amor...
“Havia poucos Espelhos Púrpuros. Como existiam muitas guerras, vandalismos e destruições naquele planeta, eles derretiam com facilidade. Derreter era a forma como deixavam de existir.
“Certo dia, no auge de uma das mais devastadoras batalhas dos Espelhos Púrpuros, surgiu três grandes luzes no céu. Pareciam estrelas cadentes. Conforme essas luzes desciam, rugidos roucos vindos desses brilhos ficavam cada vez mais retumbantes. Em pouco tempo, todos os Espelhos Púrpuros estavam apreciando o show de luzes e rugidos vindos de céu.
“Até que...”

- Vovó?
- Sim, Mariana.
- Eram os Leões Dourados?
A velha gargalhou novamente.
- Sim Mariana. Eram os Leões Dourados.

“Os Espelhos Púrpuros perceberam que os brilhos estavam indo em direção ao centro da guerra. Amigos ou inimigos, estes se afastaram correndo e se acotovelando para sair de perto. Mas não longe o bastante para não verem o que aconteceria a seguir.
“Os brilhos desceram sobre o campo silenciosamente. De tão brilhantes e luminosos que eram, os Espelhos Púrpuros tinham dificuldade para enxergarem e distinguirem as formas.
“Eram gigantescos Leões Dourados. Três enormes. Patas do tamanho de patas de elefante, quase três metros de altura, jubas douradas que mais lembravam coroas. Olhos bem abertos cor de mel, que observavam tudo de maneira bem atenta. Olhavam as manchas púrpuras do chão, que eram os Espelhos Púrpuros mortos em batalha.
“Com um rugido bem alto, os Leões Dourados se agitaram no lugar, bem a vista dos Espelhos Púrpuros escondidos em depressões ao longo do campo de batalha.
“Um dos Espelhos Púrpuros resolveu se aproximar dos Leões Dourados. Ele andava cautelosa e vagarosamente. Conforme se aproximava, o rugido dos Leões fora ficando mais e mais baixo, até que um dos Leões parou de rugir e virou-se para o Espelho. O Leão se aproximava do Espelho, que agia reciprocamente. O Espelho percebeu que o Leão possuía olhos tristes e quase que chorosos. Assim, ele parou a cerca de três metros do Leão e fixou o olhar nos olhos do mesmo. Assim, começou a rachar.
“Começou com uma rachadura fina, mas foi se alargando e se espalhando por toda a extensão do corpo do Espelho Púrpuro. A essa altura, todos os outros habitantes daquele planeta já não estavam mais escondidos, estavam olhando o que acontecia ao Espelho.”

- Ele não sentia dor, Vovó?
- Não Mariana. Pelo contrário.
Jonas pigarreou. Mariana o olhou com uma careta como se dissesse “Não interrompa”.

“O Espelho Púrpuro começou a gargalhar, como se sentisse uma alegria imensa. E, de repente, se rompeu em vários cacos. Onde estava, surgiu uma figura muito semelhante a um humano, mas com braços e pernas finos e compridos, corpo mais comprido e orelhas mais pontudas. Um bocado fino e desajeitado. Pele com um tom azeitonado e com certo brilho próprio. Desta vez, cabelos longos e escuros lhe caía pelos ombros, formando cachos em torno do pescoço comprido e fino.
“Todos os outros Espelhos começaram a rachar. E deles foram surgindo seres semelhantes àquele primeiro. Todos com expressões de alegria e felicidade imensa.
“Os Leões Dourados se ergueram no ar e, com um rugido, voltaram ao céu. Em determinado momento, os três seres brilhantes se encontraram no céu, formando um único foco de luz, capaz de cegar qualquer humano que olhasse diretamente para aquilo, de tão grande e brilhante que era. Desse ponto de encontro, quando foi diminuindo a luz, percebeu-se que surgiu uma estrela, algo como se fosse o Sol para nós.
“Daquele dia em diante, os Espelhos Púrpuros passaram a ser mais atenciosos e cuidadosos com o pequeno planeta, que se encontrava destruído. Em uma das suas lendas, dizem que, se o planeta for novamente dominado pela treva e ódio, os Leões voltarão e lhes tomarão a única fonte de luz.”

- Que diferente, vovó. – Disse a garota, enquanto batia palmas.
- Gostou, Mariana? – Perguntou a velha, sorrindo.
- Muito. Mas tenho uma pergunta.
- Qual seria?
- Os Espelhos Púrpuros... Como se chamam agora?
- Essa é outra história, minha neta, e será contada outro dia.
Jonas olhou a velha e pigarreou. Mariana se levantou e rumou para a cozinha.
- Por que não lhe contou, vovó?
- Acredito que crianças devem ser crianças enquanto puderem ser crianças.
Após um sorriso mutuo, Jonas beijou a avó no rosto e saiu, para acompanhar Mariana.