quarta-feira, 12 de setembro de 2012

No centro de mim mesmo



Acho que nunca postei algo tão pessoal quanto isso.

Eu tive que apanhar um bocado pra entender. Ralei e mesmo assim não conseguia entender o porquê das coisas estavam acontecendo daquela forma.
Sabe, foi difícil pacas, Não conseguia entender que eu me esforçava, pensando num futuro melhor, sem me dar conta do que estava acontecendo na hora. Sempre me preocupei ao máximo no que deveria ser feito, no que era esperado de mim, no que era o certo a se fazer, no que aconteceria no futuro, criar um planejamento absurdo para os próximos anos e no que eu poderia fazer para conseguir. Talvez essa última parte eu tenha deixado um pouco de lado, pois fazia até mesmo o que não era possível.
Enfim, eu não me considero ambicioso, nem idealista, nem qualquer coisa do gênero. Só gosto de organização nas coisas que faço. Mas também não me preocupei com planos de última hora e mudanças no planejamento. Claro, isso poderia acontecer a qualquer momento, mas não premeditado.
Foi necessário muita dor de cabeça (literalmente) e ficar uma semana numa cama de hospital pra me fazer refletir.
Como posso executar qualquer plano sem o principal? Que no caso, sou eu.
Nunca me considerei melhor em nada, Sempre fui um pouco pessimista apesar de tudo. Mas nunca me dei conta que, pra mudar qualquer coisa, eu teria que cuidar de mim. E o 'Eu' nunca ficou em primeiro plano. Nunca. Nem nunca me dei o valor que merecia. E por isso, decidi que vou ter que fazer drásticas mudanças no meu jeito de viver.
E a primeira já começou me deixando um tanto quanto deprimido. Eu preciso me colocar em primeiro plano a partir de agora.
Ontem eu fiz minha desistência da pós-graduação.
E assim vou ter que seguir. Aprender a me colocar no centro de mim mesmo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Eu tinha um coração

Eu lembro.
Me lembro muito bem, eu tinha coração.
Lembro que pus ele em algum lugar por aqui, em alguma dessas gavetas.
Também lembro que tinha guardado exatamente para o momento em que eu precisasse usá-lo de novo.
Não lembro onde guardei. Sei que guardei bem guardado, protegido com todo o esforço, para que não rachasse como da última vez.

Eu lembro. Mas não acho.
Deve ser porque ainda não preciso dele.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Calibrando Pneu

- Você só vai tomar isso?!
Eu olhei para ela. Não via necessidade que tomar mais que um copo de leite de manhã. Aliás, nem tempo pra isso eu tinha. Porém, expressar isso em palavras era um tanto quanto complicado, então simplesmente disse:
- Obrigado, mas eu não estou com fome agora.
Sei que ela fez uma careta pelas minhas costas, mas não liguei. Ainda precisava verificar se tinha combustível o suficiente para percorrer os 40 quilômetros diários. E se precisasse, teria que passar no posto para reabastecer.
Peguei as chaves e ela a bolsa. Ainda tinha uma fatia de bolo nas mãos. Não dei importância. Eu estava acostumado a ficar correndo de um lado pro outro tentando resolver as coisas. Pelo que eu percebi, ela não. Deixou várias vezes o casaco cair dos braços enquanto eu tentava colocar as coisas em ordem.

Enfim, o carro não tinha combustível o bastante. Precisei passar no posto, ou seja, duas curvas a mais que o normal, então aproximadamente quinze minutos de atraso, se o trânsito estiver bom, coisa que eu duvidava muito.
- Marcos - ela disse, suavemente - posso descer pra comprar um maço de cigarros enquanto você reabastece?
Eu hesitei. Desde quando Erica fumava? Bom, havia muitas coisas que eu não sabia a respeito dela ainda. Tínhamos pouco mais de um mês de namoro e acredito que esse seja o tipo de coisa que demoramos a perceber.
- Claro, mas acho que nunca te vi fumando...
- Não mesmo, detesto cigarros. Mas é que eu derrubei o maço do meu chefe numa poça de lama e fiquei devendo um para ele.
Fiz cara de desdém. Isso explicava MUITA coisa. Principalmente o porquê tinha lama na bota dela na semana passada.
- Podemos ir jantar fora hoje? Ontem a lua estava tão bonita que eu queria dar uma saída hoje pra vê-la melhor.
- Ela vai continuar do jeito que estava ontem?
- Claro, são três dias que ela vai ficar assim. Hoje é o último. Você não tem de fazer hora extra hoje de novo, tem querido?
Odiava que me chamassem de querido. Parecia até um termo irônico. Claro que vindo da Erica, tudo ficava mais fofo. Ou mais aterrorizante, depende do caso. Então, por isso, apenas concordei e disse que estava livre. E então voltamos a nossas conversas banais de sempre, sobre livros, música, a roupa que a colega de trabalho dela estava usando (essa parte não prestei muita atenção, mas aposto que foi algo extremamente divertido. Ela falou com ânimo e é o que importa.).

Aproveitei para calibrar um pouco o pneu. Sentia que estava um bocado murcho na parte traseira. Nisso veio um rapaz me cumprimentar. De onde surgiu, não sei.
- E aí Marcio, quanto tempo!
- Hum... Meu nome é Marcos. Acho que está me confundindo com alguém.
- Mas é claro que não. Desde que te conheço você tem o mesmo carro. Não lembra de mim?
De fato, ele estava certo. Fazia oito anos que estava com o mesmo carro. Isso significava que o conhecia há menos tempo que isso. E eu simplesmente detesto encontrar alguém que me conhece e eu não lembro. Te faz se sentir como se estivesse se afogando: não tem saída, a não ser mergulhar mais fundo.
- Marcos, vamos?
Erica. Por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa. Agora posso me livrar desse cara chato sem lembrar quem é... mas...
- Juan, você por aqui?!
- Erica! Meu Deus, você conhece o Marcos!?
- Claro, estamos namorando. Nos conhecemos através da Rosana, a irmã do Julio.
- Nossa, que bacana. Agora vou ter que ir. Fico contente que vocês estejam juntos, formam um belo casal.
Não sei por que, as palavras dele não me encorajavam. Parecia até que vinha algum rancor. Mas, o que importa, é que realmente não lembrava dele.
Fomos para o carro para que eu pudesse levar Erica até o trabalho dela. Ficava quase tão longe quanto o meu, mas pelo menos ficava perto um do outro. Isso era bom e ruim ao mesmo tempo.

- Não sabia que conhecia o Juan.
- Nem eu sabia que o conhecia. Não me lembro dele. E ele parece que me conhece tão bem.
Erica levantou a sobrancelha. Deu uma tossida de leve e pôs uma dessas balas de hortelã na boca. Enquanto ajustava o cabelo no espelho do quebra-sol, disse.
- Ele é meu primo. E se não me engano vocês fizeram o mesmo curso na faculdade. Será que vocês não eram da mesma turma?
Putz. Erica, por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Cristal

Dói.

Durante muito tempo, vim trabalhando para construir um cristal que tivesse a minha imagem. Não minha imagem física, mas sim a imagem de dentro. Logo a imagem de um pequeno cristal redondo, com várias lascas pequenas surgiu. Vim então trabalhando para polir esse cristal e que todas as lascas fossem removidas.

Vim exibindo meu cristal liso a todos que quisessem ver. E todos apreciavam 'Olha que cristal brilhante', 'como reluz essa jóia'. E coisas do gênero. Meu cristal logo se tornou motivo de orgulho para muitos, uma vez que aquela pequena coisa se destacava dentre as outras pedras.

Às vezes, era necessário dar um polimento a mais, pois a pedra se apagava por um tempo e reacendia. Eu me assustava nesses pequenos períodos de escuridão.
Por vez, a pedra chegou a brilhar tanto que foi alvo de discussões serias, onde todos se perguntavam como que um cristal conseguia brilhar, com tão pouco tamanho. Eu sorria me orgulhando o cristal que eu tinha criado, e assim foi por algum tempo.

Dói.
O que por vezes eu esquecia é que uma vez lascado, o polimento serviria apenas para esconder toda a imperfeição da pedra. E por muito tempo eu tinha esquecido o quando tinha por baixo daquela beleza brilhante. Tinha esquecido todos os riscos e lascas que o polimento escondia.

Eu também, por vezes, esquecia que o polimento no cristal seria o mesmo que mascarar a face lascada.
Até que uma pequena lasca surgiu. E virou uma rachadura. Em menos de três horas, o cristal começou a se apagar, e a rachadura aumentar. Jamais pensaria que aquela lasca, lembro-me muito bem dela quando fiz o cristal pela primeira vez, viesse afetar depois de tanto tempo preenchida. Mas erroneamente ao invés de lixar a lasca, resolvi simplesmente a mascará-la como se nunca tivesse lá.

Dói.
O meu cristal se rachou. Quebrou em doze menores pedaços. Alguns brilhantes, alguns apagados. Quase todos frágeis.
Menos a parte onde a maior e menos notável lasca tinha se formado. Aquele era o maior e mais grosso pedaço do meu cristal espatifado.

O meu cristal espatifado criado a minha imagem espatifada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Chocolate Quente com Marshmallow

Ela olhou para fora. Vira os carros passarem apressadamente pelo lado de fora da janela por um minuto e suspirou. Afagou os cabelos da nuca enquanto pensava em como começar a falar. Quando movera os lábios pela terceira vez sem produzir som algum, a garçonete apareceu.
- O que o casal feliz deseja?
Sem dúvida alguma, a vontade da moça era de fuzilar a garçonete. Que idéia era essa de dizer 'Casal Feliz'? Soltou então um longo suspiro, concentrou todas as suas forças e deu um sorriso.
- Você disse que o chocolate quente com Marshmallow daqui era bom, não é?
O rapaz a fitou nos olhos com vagarosidade e murmurou.
- Sim, o chocolate quente daqui é bom. Quero um com Marshmallow e um croissant integral de queijo.
Ela repetiu o pedido e a garçonete partiu. Olhou novamente para fora e viu um casal de idosos atravessando a rua vagarosamente, sorrindo. Revirou os olhos e se virou novamente para o rapaz.
- Fazia tempo que você estava me esperando? Me atrasei um pouco.
- Não muito, uns dez minutinhos só. Estava ocioso em casa mesmo.
Pensou consigo mesma 'Então porque não disse que estava livre mais cedo?', mas relevou o pensamento e continuou a ferver os neurônios para tentar conversar com aquele rapaz. Antes que começasse a falar, ele começou a falar para o vidro.
- Sabe, sei que pode parecer uma conversa clichê, Mas o tempo hoje está realmente agradável. Sabe, esse tempo cinza, nem frio nem quente. As pessoas podem escolher se saem usando blusas ou camisetas.
Ela olhou novamente para fora e viu, realmente. Havia dois rapazes andando em frente ao café. Um usando Shorts curtos de correr com uma camiseta curta e sem mangas, conversando alegremente com outro rapaz, com longos Jeans, casaco e até um cachecol. Criava um contraste engraçado. Ela riu.
- Por que ri?
- Aqueles dois rapazes. Estão engraçados vestidos assim.
Ele sorriu por uma fração mínima de segundos e voltou à feição normal, como se estivesse com um sono permanente. Ela ainda não entendia o porquê daquele semblante fechado. Pela quarta vez, ia começar a falar, quando foi interrompida pela garçonete, trazendo os chocolates quentes e se desculpando pelos croissants, que haviam queimado, mas ela já traria outros.
Quando a garçonete se afastou, ela tocou a ponta do nariz gelado e começou a falar.
- Você me parece meio abatido. Aconteceu algo?
Ele hesitou uma resposta, olhou para o chocolate e respondeu lentamente.
- Não se preocupe, é o meu jeito habitual. Não estou abatido, pelo contrário, fico feliz de estar aqui.
Ela sorriu pela resposta, mas não compreendeu realmente o que ele quis dizer com aquilo. 'Bom, se ele diz estar feliz em estar aqui, poderia ao menos DEMONSTRAR estar'.
-É que você está com olheiras um pouco fundas e não tem falado muito. Pode conversar comigo, estou aqui pra te ouvir.
Ele hesitou novamente, deu um sorriso curto e respondeu tranquilamente.
- Fico feliz que se preocupe comigo, mas está realmente tudo bem. Me acostumei a dormir tarde e por isso as olheiras. Não sei muito o quê falar com você, mas não leve isso a mal.
- Eu só quero ajudar...
Ele tomou um longo gole do chocolate. A garçonete trouxe os croissants, agora aparentando estarem crus demais, e se retirou. A moça, vendo que não tinha muito o quê fazer, passou a fitar o vidro com a caneca de chocolate na mão.
- Não que isso interfira no meu comportamento habitual, mas eu ando com alguns problemas familiares, meu trabalho anda bem desgastante e não ando me sentido muito seguro com relação a você. Sinto que vou te perder.
Ela se manteve estática. Não esperava uma resposta tão direta do rapaz que, agora, parecia um pouco mais confortável. Era como se antes ele estava com alguma coceira que, de repente, cessou e atacou ela. Fitou mais uma vez o chocolate e suspirou.
- Olhe, eu só quero que você fique feliz. Eu também ando tendo problemas com minha família, você sabe, fui até chamada de acidente pelo meu pai, estudo numa área que não me apetece, mas preciso continuar pra não perder meu emprego. Você está abatido e não se abre comigo. Como posso ficar bem assim? Apesar de tudo, estou procurando ser feliz dessa forma.
Ele suspirou
- Parece impossível.
- É improvável, não impossível. Se eu não tentar, vou me abater para sempre, porque não é sempre que coisas boas acontecem. E mesmo assim temos de viver.
Ele abaixou os olhos para o chocolate. Pareceu com se tivesse levado uma bofetada.
- Eu quero terminar logo de estudar, é só mais um ano, e fazer uma pós em alguma coisa que eu realmente queira. Vou terminar de pagar meu apartamento e adotar um cachorro chamado Spark e uma gata chamada Diamont. Vou arrumar um emprego melhor e voltar a fazer aulas de dança. E só de pensar nessas coisas, já me dá vontade de continuar. Quais são os seus planos para o futuro? Não tem nada que te motive?
- Nunca fiz planos a longo prazo. Toda vez que os faço acabo me decepcionando ou mudando de idéia antes de acabar. Por enquanto, meu único objetivo é terminar o curso de Alemão que comecei. Eu acredito que as coisas boas não são buscadas e, sim, elas aparecem ao acaso. Assim como você surgiu.
Ela se engasgou com o chocolate. Tossiu três vezes, o suficiente pra chamar a atenção de todos os presentes no estabelecimento. Assim que se recuperou, e que todos os clientes do estabelecimento voltaram suas atenções as respectivas companhias, disse numa voz fraca e pastosa de marshmallow.
- Com todos... os problemas que eu... cough... ando tendo, não preciso de alguém que me deprima mais que já estou. Preciso de alguma motivação, alguém alegre. Alguém que queira ficar comigo e me animar. Não alguém que me diz que não tem a mínima vontade de fazer algo...
- Eu nunca disse isso, eu apenas...
- Ouça. - Ela o interrompeu - Sabe, eu gosto muito de você, quero muito que você fique bem, mas não dá pra ficarmos juntos se você não fica bem e nem procura estar bem. Não me venha com essa de que 'Temos de esperar a marolinha passar'. Se só esperarmos, nada vai acontecer.
- Entendo o que quer dizer, mas...
- E pare de falar comigo formalmente. Tem de se descontrair. Estamos saindo juntos há um mês e só vi você sorrir três ou quatro vezes. Me diz o porquê disso tudo isso?
Ele lançou um profundo e tristonho olhar a ela. Apesar de todos já terem desviado o olhar, ainda tinham os ouvidos sensíveis a conversa do casal. A caneca de chocolate tremia na mão da moça, não sabendo se por causa do frio repentino que viera da porta recentemente aberta ou se da raiva que estava sentindo.
- Eu nunca soube demonstrar bem meus sentimentos. Eu... peço desculpas por isso tudo e vou entender se você quiser lançar esse chocolate na minha cara.
De fato, o chocolate pulava da caneca dela. Assim que ela percebeu, baixou a caneca na mesa e pousou as mãos no colo. Ela suspirou e esperou ele continuar, mas seu rosto se voltou a contemplar o vidro e as pessoas na rua.
- Você sabe que não dá mais, não é? - Ela suspirou baixinho.
- Obrigado - ele disse, voltando o rosto para a caneca. - por todo esse tempo. Foi maravilhoso.
Ela, aturdida com essas palavras, se levantou e saiu pisando forte. Parou por um segundo a porta, tomou fôlego e saiu. Ele ficou olhando pelo vidro enquanto ela passava, andando em frente sem virar para trás. Ele virou sua caneca de chocolate, pagou a conta e foi embora, andando na direção oposta.

quarta-feira, 9 de março de 2011

À Deriva

Estávamos à deriva. Éramos dependentes do mar e do vento. Talvez até mesmo da estação Lunar. Como botes encalhados, esperando boas condições para o resgate. Como velas alçadas, quase hasteadas. Como âncoras sendo liberadas.

Era carvão, aguardando o fogo para combustão. Era como qualquer metáfora que dependesse de ação para reação. E este estado era definitivo, interminável, eterno, irreversível.

Porém não podia ser assim.

Apesar de esperar, algo acontecia até todo o processo ocorrer. Não que houvesse autocombustão ou auto-hasteamento. Mas mesmo botes encalhados mandam seus sinais de socorro. Estávamos à deriva, sim. Mas não totalmente imobilizados. O mar, o vento, a estação Lunar eram variáveis inconstantes. Nossa condição não.

Assim como o carvão a espera da combustão, éramos humanos, a espera da morte.
Mas nem por esse motivo deixamos de viver plenamente. Afinal, definitiva, interminável, eterna e irreversivelmente, estávamos à deriva.