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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Comi carne crua. Babei sangue.



Comi carne crua. Babei sangue. Só não sabia se era o meu ou do animal morto.

Mordia cada pedaço com uma força descomunal. Quase animal. Sentia meus caninos transpassando e chegando a minha língua, sentindo aquele misto de dor e prazer naquele sentimento sufocante. Era o auge, o ápice. Aquela carne exalando um cheiro acre de recém cortada. Mas minha raiva precisava ser descontada, e nenhum animal vivo merecia aquilo.

Eu estava naquela tênue linha entre o deprimido e o deprimente. Não sentia bem nada, só o cheiro da carne, a dor na língua, uma queimação na nuca, o sangue quente escorrendo da boca. Babava feito uma criança. Só que vermelho.

Pela janela conseguia ver aquelas pessoas andando na rua. Nenhuma delas estava de fato na rua, com a cabeça longe metros, talvez quilômetros de sua localização original. Nenhuma dela via o terror que acontecia na janela. Nenhuma delas vira meu jantar sangrento. Nenhuma delas queria ver, mesmo se o visse. 

Nenhuma delas reconheceria o meu jantar. Já estava extremamente mutilado.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Sou eu que estou chorando? São minhas lágrimas?"



Essas foram algumas das últimas frases de Rei Ayanami antes de morrer em Neon Genesis Evangelion. Bom, se você ia ler ou assistir, problema seu. O que de fato importa é que nunca entendi essa demora dela para perceber que estava chorando. Rei sempre foi uma garota que não era apegada aos sentimentos, entendo, e os foi desenvolvendo ao longo da série. O auge é quando ela percebe que se preocupa com seus colegas, e por isso começa a chorar, o que leva a tal cena. Não que Rei seja fria ou qualquer coisa, ela apenas não conhecia os sentimentos.


Nunca entendi isso. Nunca. Como pode desconhecer os próprios sentimentos e não saber ao certo o que sente? Como pode não perceber dos gostos ou desgostos ou qualquer coisa? Nunca consegui entender Rei. Mas por incrível que possa parecer, sempre a considerei uma garota forte, não por omitir isso, mas por assumir que não sabia da existência desses.

Ao contrário de mim. Sempre me senti forte por saber muito bem esconder meus reais sentimentos. Talvez alguns aspectos como desprezo ou algo do gênero falhassem um pouco, assumo. Eu, ao contrário de Rei, os conheço muito bem. Só que quero guardá-los e me tornar tão forte quanto Rei foi. Ou quanto considerava Rei forte.

Sempre me orgulhei de, por exemplo, ter chorado na frente de pouquíssimas pessoas. Não por coisas tipos filmes meigos ou músicas estupendas. Digo por causa dos meus sentimentos. E digo que isso é uma das piores coisas que pode ter me acontecido. Juro que não entendo essa onde recente de distúrbios que acontecem, e venho tentando me fazer de forte na frente de todos. Mas quando já estava tudo no controle que eu realmente me desesperei. Aqueles pensamentozinhos ruins começaram agora a invadir. E me peguei vergonhosamente numa viagem de ônibus chorando igual uma garotinha. E pela primeira vez em quase cinco anos e me vi igual a Rei e entendi o porque ela demorou tanto pra saber o porque aquelas lágrimas eram dela.
“Sou eu que estou chorando? São minhas lágrimas?”

Minha maior fraqueza é querer me mostrar forte.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Chocolate Quente com Marshmallow

Ela olhou para fora. Vira os carros passarem apressadamente pelo lado de fora da janela por um minuto e suspirou. Afagou os cabelos da nuca enquanto pensava em como começar a falar. Quando movera os lábios pela terceira vez sem produzir som algum, a garçonete apareceu.
- O que o casal feliz deseja?
Sem dúvida alguma, a vontade da moça era de fuzilar a garçonete. Que idéia era essa de dizer 'Casal Feliz'? Soltou então um longo suspiro, concentrou todas as suas forças e deu um sorriso.
- Você disse que o chocolate quente com Marshmallow daqui era bom, não é?
O rapaz a fitou nos olhos com vagarosidade e murmurou.
- Sim, o chocolate quente daqui é bom. Quero um com Marshmallow e um croissant integral de queijo.
Ela repetiu o pedido e a garçonete partiu. Olhou novamente para fora e viu um casal de idosos atravessando a rua vagarosamente, sorrindo. Revirou os olhos e se virou novamente para o rapaz.
- Fazia tempo que você estava me esperando? Me atrasei um pouco.
- Não muito, uns dez minutinhos só. Estava ocioso em casa mesmo.
Pensou consigo mesma 'Então porque não disse que estava livre mais cedo?', mas relevou o pensamento e continuou a ferver os neurônios para tentar conversar com aquele rapaz. Antes que começasse a falar, ele começou a falar para o vidro.
- Sabe, sei que pode parecer uma conversa clichê, Mas o tempo hoje está realmente agradável. Sabe, esse tempo cinza, nem frio nem quente. As pessoas podem escolher se saem usando blusas ou camisetas.
Ela olhou novamente para fora e viu, realmente. Havia dois rapazes andando em frente ao café. Um usando Shorts curtos de correr com uma camiseta curta e sem mangas, conversando alegremente com outro rapaz, com longos Jeans, casaco e até um cachecol. Criava um contraste engraçado. Ela riu.
- Por que ri?
- Aqueles dois rapazes. Estão engraçados vestidos assim.
Ele sorriu por uma fração mínima de segundos e voltou à feição normal, como se estivesse com um sono permanente. Ela ainda não entendia o porquê daquele semblante fechado. Pela quarta vez, ia começar a falar, quando foi interrompida pela garçonete, trazendo os chocolates quentes e se desculpando pelos croissants, que haviam queimado, mas ela já traria outros.
Quando a garçonete se afastou, ela tocou a ponta do nariz gelado e começou a falar.
- Você me parece meio abatido. Aconteceu algo?
Ele hesitou uma resposta, olhou para o chocolate e respondeu lentamente.
- Não se preocupe, é o meu jeito habitual. Não estou abatido, pelo contrário, fico feliz de estar aqui.
Ela sorriu pela resposta, mas não compreendeu realmente o que ele quis dizer com aquilo. 'Bom, se ele diz estar feliz em estar aqui, poderia ao menos DEMONSTRAR estar'.
-É que você está com olheiras um pouco fundas e não tem falado muito. Pode conversar comigo, estou aqui pra te ouvir.
Ele hesitou novamente, deu um sorriso curto e respondeu tranquilamente.
- Fico feliz que se preocupe comigo, mas está realmente tudo bem. Me acostumei a dormir tarde e por isso as olheiras. Não sei muito o quê falar com você, mas não leve isso a mal.
- Eu só quero ajudar...
Ele tomou um longo gole do chocolate. A garçonete trouxe os croissants, agora aparentando estarem crus demais, e se retirou. A moça, vendo que não tinha muito o quê fazer, passou a fitar o vidro com a caneca de chocolate na mão.
- Não que isso interfira no meu comportamento habitual, mas eu ando com alguns problemas familiares, meu trabalho anda bem desgastante e não ando me sentido muito seguro com relação a você. Sinto que vou te perder.
Ela se manteve estática. Não esperava uma resposta tão direta do rapaz que, agora, parecia um pouco mais confortável. Era como se antes ele estava com alguma coceira que, de repente, cessou e atacou ela. Fitou mais uma vez o chocolate e suspirou.
- Olhe, eu só quero que você fique feliz. Eu também ando tendo problemas com minha família, você sabe, fui até chamada de acidente pelo meu pai, estudo numa área que não me apetece, mas preciso continuar pra não perder meu emprego. Você está abatido e não se abre comigo. Como posso ficar bem assim? Apesar de tudo, estou procurando ser feliz dessa forma.
Ele suspirou
- Parece impossível.
- É improvável, não impossível. Se eu não tentar, vou me abater para sempre, porque não é sempre que coisas boas acontecem. E mesmo assim temos de viver.
Ele abaixou os olhos para o chocolate. Pareceu com se tivesse levado uma bofetada.
- Eu quero terminar logo de estudar, é só mais um ano, e fazer uma pós em alguma coisa que eu realmente queira. Vou terminar de pagar meu apartamento e adotar um cachorro chamado Spark e uma gata chamada Diamont. Vou arrumar um emprego melhor e voltar a fazer aulas de dança. E só de pensar nessas coisas, já me dá vontade de continuar. Quais são os seus planos para o futuro? Não tem nada que te motive?
- Nunca fiz planos a longo prazo. Toda vez que os faço acabo me decepcionando ou mudando de idéia antes de acabar. Por enquanto, meu único objetivo é terminar o curso de Alemão que comecei. Eu acredito que as coisas boas não são buscadas e, sim, elas aparecem ao acaso. Assim como você surgiu.
Ela se engasgou com o chocolate. Tossiu três vezes, o suficiente pra chamar a atenção de todos os presentes no estabelecimento. Assim que se recuperou, e que todos os clientes do estabelecimento voltaram suas atenções as respectivas companhias, disse numa voz fraca e pastosa de marshmallow.
- Com todos... os problemas que eu... cough... ando tendo, não preciso de alguém que me deprima mais que já estou. Preciso de alguma motivação, alguém alegre. Alguém que queira ficar comigo e me animar. Não alguém que me diz que não tem a mínima vontade de fazer algo...
- Eu nunca disse isso, eu apenas...
- Ouça. - Ela o interrompeu - Sabe, eu gosto muito de você, quero muito que você fique bem, mas não dá pra ficarmos juntos se você não fica bem e nem procura estar bem. Não me venha com essa de que 'Temos de esperar a marolinha passar'. Se só esperarmos, nada vai acontecer.
- Entendo o que quer dizer, mas...
- E pare de falar comigo formalmente. Tem de se descontrair. Estamos saindo juntos há um mês e só vi você sorrir três ou quatro vezes. Me diz o porquê disso tudo isso?
Ele lançou um profundo e tristonho olhar a ela. Apesar de todos já terem desviado o olhar, ainda tinham os ouvidos sensíveis a conversa do casal. A caneca de chocolate tremia na mão da moça, não sabendo se por causa do frio repentino que viera da porta recentemente aberta ou se da raiva que estava sentindo.
- Eu nunca soube demonstrar bem meus sentimentos. Eu... peço desculpas por isso tudo e vou entender se você quiser lançar esse chocolate na minha cara.
De fato, o chocolate pulava da caneca dela. Assim que ela percebeu, baixou a caneca na mesa e pousou as mãos no colo. Ela suspirou e esperou ele continuar, mas seu rosto se voltou a contemplar o vidro e as pessoas na rua.
- Você sabe que não dá mais, não é? - Ela suspirou baixinho.
- Obrigado - ele disse, voltando o rosto para a caneca. - por todo esse tempo. Foi maravilhoso.
Ela, aturdida com essas palavras, se levantou e saiu pisando forte. Parou por um segundo a porta, tomou fôlego e saiu. Ele ficou olhando pelo vidro enquanto ela passava, andando em frente sem virar para trás. Ele virou sua caneca de chocolate, pagou a conta e foi embora, andando na direção oposta.

domingo, 26 de setembro de 2010

Convite

Não obstante a todo esse universo, devo lhe dizer, Joana, que posso trazer-lhe o Sol, ou levá-la as estrelas. Não é simplesmente mais uma dessas minhas declarações apaixonadas ou algo que o valha, sinto lhe dizer. Mas é que o novo planetário da cidade já está aberto à visitação.

Outro detalhe que gostaria de frisar foi que ontem me encontrei com seu irmão, Miguel. Conversamos um bocado e ele me disse gentilmente a posição dele com relação a minha estadia na sua casa. Fiz questão de lhe contar sobre o dinheiro que ando gastando, o financiamento do meu novo apartamento e o meu pedido de noivado.
Apesar de termos conversado um bocado, foi uma conversa curta, uma vez que meu pai aparecera pedindo para que eu o levasse ao médico. Sabe que a saúde dele não é das melhores... Enfim, ele está bem, era só uma dor de cabeça mais forte.

Com relação aquela carta de atraso do pagamento da conta de telefone que chegou, liguei e resolvi o problema. O sistema estava com algum defeito e por isso não haviam contabilizado o pagamento. Passei um fax com o recibo de pagamento e eles que se resolvam. Hehe, Fax, que coisa antiga.
Sua Tia-Avó Mirele ligou. Ela pedira para que você retornasse a ligação o mais cedo possível. Ela irá convidá-la para passar umas semanas na Noruega junto com ela. Eu sugiro que você ligue o quanto antes, afinal, como você mesma disse, o humor dela é um bocado inconstante.

Como você percebeu Joana, deixei esta carta dentro de um livro, na exata página onde o marcador estava. Sugiro que leia a página 257 novamente, deixei uma frase sublinhada que gosto pacas.

A Cleide também ligou. Deixei esta por último para fazer suspense. E adivinhe... ahã.... Você começa na quarta! Deve ir por entre hoje e amanhã para assinar o contrato e pronto. Não é genial? Fico feliz que você tenha conseguido essa vaga, Joana.

Deixe-me encerrar por aqui. Te amo
    Ao infinito
           E Além.
           Eduardo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Carta da Madrugada

Joana

Quando ler esta carta, deverá ser a manhã de um belo dia de sol. Eu a escrevi durante a noite, enquanto você dormia abraçada ao travesseiro roxo. Preparei esta mesa de café da manhã para que possa desfrutar assim que acordar, olhando pela janela em frente a este papel, vendo que naquela pequena árvore contem bilhares de borboletas imaginárias, que você pode ainda não as enxergar, mas ao final da carta, as verá.
Camisolas. Ora, que idéia mais fabulosa. Uma gaveta só para camisolas. Sabia que adorava guardar suas coisas bem esparramadas, mas uma gaveta só para camisolas me parece algo genial. Sempre vejo gavetas com papéis, roupas íntimas juntas, camisetas ou camisas juntas, calças juntas. Mas unicamente camisolas é a primeira vez que vejo.
A minha noite de chegada a São Paulo fora esplêndida, Joana. Sinceramente, havia muito tempo que não me divertia tanto. Sua sensibilidade em me buscar no aeroporto junto com meu pai doente fora espetacular, não esperava isso. E esperava menos ainda que fosse usando seus tênis roxos. Não havia me dito que os tinha perdido? Enfim, esqueci de lhe perguntar isso ontem.
A propósito, por volta desta hora, devo estar a caminho do centro da cidade. Precisei encontrar meu pai por lá para ver alguns problemas com meus documentos. Perdi boa parte deles com o contrato falso. Não quis lhe acordar porque parecia tão jovial deitada naquela cama. Resolvi então lhe preparar essa mesa de café.
Joana, queria lhe dizer que adorei a forma como manipulou a noite para que ela durasse mais tempo que nenhuma outra noite durou. Sentia uma imensa saudade da sua voz, da sua boca, dos seus cabelos rubros. Do modo como me abraça e consegue sentir meu coração bater entre suas mãos. De tocar meu peito e sentir além de uma carne como qualquer outra. E por fazer de mim algo pensante e com sentimentos, sinto-me alguém absurdamente mais humano depois dessa noite.
Por essas e outras que, durante algum tempo, ficarei longe de ti. Amo-te e, enquanto estive fora, pensei em você o tempo todo. Mas acredito que toda nossa conversa de ontem seja compreendida. Eu realmente a amo e não posso ficar na sua vida como um peso morto, igual ao meu irmão. Preciso de um emprego e preciso de uma vida social. Quero pedir-lhe em namoro, noivado, casamento ou que diabos de nome tenha esses compromissos, garotinha. Quero cuidar de ti pra sempre, e sempre ter-te comigo.
Te amo, Joana.


E sempre irei.
Edgar.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Uma observação:

Não seja rude como eu. Não questione meu amor. Não espere bajulação. Não viva minha vida. Tenha autenticidade. Não deixe eu te usar. Não mime. Não ouse. Não estoure. Não me engane. Não engane ninguém.

Eu não questiono seu amor e, sinceramente, já não me importo mais com ele. Não criei as regras do jogo, mas era melhor que fossem discutidas desde o principio. Assim, os desencontros e os dados não teriam rolado assim como a foice do destino. Não acabou o jogo, ainda não jogamos o valete ou o coringa, mas é como se a rainha já estivesse em campo, atuando como blefe. Não que tudo seja um jogo que tenha ganhadores ou perdedores, apenas devemos nos levar como se tudo dependesse da ação do próximo.

O próximo não é oponente. É apenas o próximo. Você me conhece e sabe que eu faria algo assim uma hora. Tenho direito de viver a vida por mim, não por ti. Ok, nunca cobrara nada, porém o seu jeito me estressa. Somos opostos, somos diferentes e não somos os mesmos de antes. Isso é o que mais me estressa. O tanto que você mudara. Falta-lhe o antigo dom da comunicação que tinha, Anne. Falta-lhe muito agora. Mais do que pode imaginar. Se não consegue recordar do seu passado, me perdoe, mas não serve.

Fui rude? Então não me questione.
Se me questionou, não espere que eu volte com bajulações.
Perguntei de você? Então não diga que não sabe e jogue a moeda novamente a mim.
Quem sabe assim usa sua autenticidade e deixa-me parar de te usar?
Não bajulei, portanto, não bajule.
Não ousei, portanto não ouse.
Fui calmo, não estoure.
Não minta como fez. Nem pra mim, nem pra ninguém.
Seja feliz. Não espere que alguém a faça.

Boa noite, Anne.

domingo, 10 de maio de 2009

Carta de Influência

Joana:

Vejamos, se está bem não sei, mas acredito que há uma solução. Se há um problema não sei, mas acredito que há um remédio. Se há alguém que pode me ajudar não sei, mas acredito que não há alguém anda me ajudando
De qualquer forma, sempre me disseram que era melhor prevenir que remediar. Bom, o remédio que esta na dispensa está se acabando rapidamente. Mas eu não vou ficar incomodado, simplesmente vou me manter estável nesse sofá, sem pensar em nada, até o dia acabar.
Consegui reconquistar minha dignidade. Arrumei um emprego (sem extorsão agora, e me dão moradia a dinheiro pra terminar de pagar a faculdade).

Joana, sei que os últimos dois meses foram absurdamente melhores do que os últimos três antecedentes a eles. Meu irmão começou a esvanecer de nossas mentes, e assim podemos desfrutar melhor de nossas vidas. Não que eu não gostasse dele, mas acredito que a vida fora feita pros vivos, e não para ficar relembrando mortos. Sei que fora traumático pra você, mas aposto como sua recuperação está sendo absurdamente rápida, não?
Por que você não respondeu minhas últimas três cartas? Realmente, fico me perguntando se a minha presença através desta te incomoda. Eu realmente só lhe escrevo, pois acredito que talvez isso a anime, mas se sentir de alguma forma incomodada, me avise que eu paro.
Continuo firme em minha decisão. Voltarei pro Brasil na semana que vem. Esse vírus de Influenza deixa-me muito preocupado. Estou tendo um pouco de problemas com o consulado, mas quanto a isso posso muito bem dar meu jeitinho. Consegui dar um pra sair do México quando roubaram meu dinheiro.
Avise a meu pai, não consigo contatá-lo, que voltarei em no máximo três semanas. Estou preocupado com a saúde dele.

Continuo te amando Joana, mas se ler isso te chateia, por favor, avise. Eu não consigo parar de ler suas cartas rugadas, aquelas pequenas manchas de lágrimas, mas não posso me conter. Espero que, assim que chegar ao Brasil, eu seja recompensado pelo que sofri com um belo abraço seu. Já me será suficiente.

Do seu
E unicamente seu.
Edgar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O Casamento


A noiva foi a primeira a chegar. Sem dúvidas. E também fora a última a deixar o altar e a a Igreja.
Leve e exageradamente decorada com flores laranja e alegres, que exalavam um cheiro quase que alvo, a aparência alegre e estival da Igreja contrastava com o Inverno frio e melancólico que repulsava nos corações presentes. Falsamente desanimados, os familiares sussurravam os nomes do noivo e da noiva numa mesma oração, com espaço de tempo inferior a um suspiro.
Eu acreditava que, geralmente, em casamentos se usasse roupas claras e alegres. Mas parece que todos não gostavam muito da noiva e, por isso, usavam seus belos trajes negros, longos e improvisados. A propósito, da família da noiva, eu não via ninguém.
A não ser o canivete brilhante que eu rodava entre as mãos. O mesmo que unira meu primo à noiva, a Morte.
Ainda assim, consegui sorrir na minha macia e confortável roupa branca.

Eu consigo segurar o riso, fato.

domingo, 30 de novembro de 2008

Pedido a Órion

Eu sinto um frio enorme. Meus pêlos se eriçaram e não posso controlar minha velocidade de reação. Os passos ficam mais lentos, gradativamente, e vão se perdendo por entre as calçadas. Tenho uma blusa na bolsa, mas meus braços não alcançam.
Talvez seja porque eles sabem que o frio externo não é o único presente. Mesmo com blusa, ainda estaria com frio.

A noite que se espalhava era bem estrelada. Eu podia pensar em várias coisas naquela hora, mas aquilo que me vinha à mente era sobre uma única coisa: Órion. Ele reluzia com todo o seu esplendor e sua graça mirabolante. Sempre fui de admirar as estrelas e suas fabulosas personalidades. Personalidades essas que constantemente comparecem em meus sonhos e caminhos paralelos.
Órion era um exemplo. Sempre era um guerreiro de atitude admirável. Digo mais pela aparência, pois nunca emitira uma única palavra. Se bem que, não posso ver claramente seu rosto hoje, mas sei que já o tive bem próximo a mim. Ignore o pleonasmo.
Não havia qualquer motivo para sentir frio, mas por um único momento eu sentia que podia sentir qualquer coisa que não tivesse qualquer proximidade a mim. Foi quando eu a vi pela primeira vez.
Aquela folha, quase seca, solitária, no chão.
Ate então, estava misturado ao vento. Ninguém nas ruas me via, apenas sentiam a minha presença. Eu poderia soprar, mas as sementes de dente-de-leão só iriam se soltar se eu realmente me concentrasse e as olhasse fixamente. Eu não tinha velocidade fixa. Eu não tinha som. Eu não pesava nada. Ate aparecer à folha e eu entendi tudo.

Apelei a Órion que me ouvisse e que, ao menos uma vez mais, fosse um humano e pudesse me acompanhar todo o tempo. Durante o apelo, senti que seria impossível, mesmo se quisesse pois, se realmente acontecesse, Órion seria mais um humano ocupando espaço na minha cabeça. Não poderia me dar o luxo de guardar mais alguém. Assim, mudei meu apelo imediatamente insistindo para que apenas me ouvisse e, conseqüentemente, meu mais novo desvario.
Assim como a folha arrancada da árvore, eu flutuava com o vento, não era nada mais que aquilo e, na realidade não importava mesmo. Mas o prazo era excepcionalmente curto e, a seguir, a folha iria secar. Ele tinha cumprido com sua função na arvore, assim como sua vez de ir embora chegara. Despediu-se de suas iguais e voou como uma folha, por pouco tempo até atingir o solo. E então se preparou para a maratona de tempo até secar.

Órion, antes de ver a folha, eu me senti como se não estivesse pisando no chão. Eu me sentia como se estivesse flutuando.
Órion, eu acho que ainda falta uma coisa para eu completar minha estadia. E então já posso murchar.Só lhe faço uma pergunta, Órion.

Era o meu vôo?

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Drama em Carolina



Eu não estou certo se existe um final nessa historia
Mas eu vou contá-la de novo
Então muitas outras pessoas poderão contar a lenda
Que nem um de nós conhece o fim.

Era um lixão na Carolina do Sul
Tinha um garoto de dez anos
Entre seu irmão mais velho Billy
E uma mãe e o seu namorado
Que era um triplo perdedor com algumas tatuagens azuis
Que lhe foram feitas quando ele era jovem
E um temperamento de bêbado que foi fácil de perder
E agradecia a Deus que ele não tinha mais um revolver.

Enfim, Billy acordou na capota do caminhão
Demorou alguns segundos pra abrir os olhos
Deu uma olhada em volta da sua casa
E ele encontrou uma grande surpresa
Ele não viu seu irmão, mas sua mãe estava la
Com sua cabeça ruiva em suas mãos
Enquanto o namorado mantinha suas luvas em volta de um velho padre
Tentando sufocar o homem.

Billy olhou da janela do caminhão
Atirou-se, e então tinha de lutar para ficar
Ele viu que o camponês bastardo com um martelo
Tinha se tornado o padre, um homem fechado
O padre levantava para lutar pela sua vida
Mas ele era velho e era certo que ia perder
O namorado o acertava como podia
E o padre caiu bem aos seus pés.

Enfim, agora Billy sabia, mas nunca realmente atuou
O Homem santo mentindo naquele quarto
Ele ouviu dizer, “Esse deve ser Papai”
Então ele sabia o que deveria fazer
Billy guardou coragem o suficiente, a juntou
E se segurou na primeira coisa que ele pode encontrar
Estava fria, era uma garrafa de leite
Que fora entregada como todas as manhãs, ou seja, as nove.

Billy entrou e viu o sangue no chão e
Ele se virou e trancou a porta
Ele olhou ferozmente no olho do namorado
Sua mãe era um fantasma, muito nervosa pra chorar
Então ele rumou em direção ao homem caído
E da sua boca se soltou um pequeno som audível
Ele ouviu o namorado berrar: ‘Caí fora!’
E Billy disse ‘Não enquanto eu não souber o que isso significa’
‘Ta bem, esse padre estava atacando sua mãe’
Mas Billy simplesmente sabia quem estava fazendo drama
Então Billy fitou fatalmente o rosto dele
E acertou a garrafa no homem que deixou seu pai em desgraça e
O leite branco se esparramou pelo chão junto com o sangue, e o
Namorado caiu morto ao chão
Bem ao lado do padre que estava clamando por ar
Então Billy exclamou ‘Papai, por que teve de voltar pra cá?’
Sua mãe o puxou o pote de açúcar e empurrou o pote de mel, e
Puxou um envelope lotado de dinheiro
‘Seu pai nos deu isso’, e se desfez em lágrimas
‘Ele estava pagando nossas contas por anos’
‘Mamãe, vamos colocar seu corpo por entre as árvores
E por papai no caminhão com destino a Tennessee’
Quando disse isso, seu irmão entrou
Segurando o chapéu do homem do leite e uma garrafa de gim, cantarolando.

La la la la, la la la la, yeah
La la la la, la la la la, yeah
La la la la, la la la la, yeah
La la la, la la la...
La la la la, la la la la, yeah
La la la la, la la la la, yeah
La la la la, la la la la, yeah
La la la, la la la...
La la la la, la la la la, yeah
La la la la, la la la la, yeah
La la la la, la la la la, yeah
La la la la, la la la la, yeah

Bem, você agora ouviu um outro lado da historia
Mas quer saber realmente como termina?
E você quiser saber, a verdade sobre a lenda
Vá e pergunte ao leiteiro.

[O texto em português perde um pouco o seu afã, porém preferi fazer uma pequena tradução para uma melhor compreensão.]

sábado, 13 de setembro de 2008

Uma carta Mexicana

Joana
Dois anos se passaram desde minha ultima carta. Dois anos de muita dor e saudades da minha daminha de cabelos rubros e tênis roxos. Dois anos de modorra, fadiga, espreguiçadeiras de plástico com um pé quebrado e sorvetes de baunilha. Dois anos da mais macabra vida que qualquer ser humano poderá passar. Estou sendo irônico quanto ao sorvete de baunilha, claro, você entendera mais a frente. De qualquer forma, devo lhe pedir uma coisa. Peço-lhe desculpas por não ter respondido sua ultima tão breve.
Enfim, tenho de contar-lhe o que me ocorreu.
Eu era imaturo. Eu não sabia mesmo o que estava fazendo quando aceitei aquele emprego ridículo no México. Mas quão fascinante era a comida Mexicana, a dança mexicana, a cultura mexicana. O mundo mexicano em si. Era, como disse. Tudo uma pura ilusão.
Comecei trabalhando como promotor de eventos. Eu fazia o curso de publicidade na faculdade da cidade do México tranquilamente, quando arrumei um segundo emprego infernal. Era dos diabos mesmo. Eu ia fazer o marketing para uma empresa local muito grande. Eu mesmo não podia acreditar no que estava acontecendo. Realmente, não devia acreditar.
Eu fui enganado.
Na verdade, eu estava assinando um sub-contrato falso, onde o papel carbono marcava na realidade um contrato forjado. Perdi todo o meu dinheiro naquele contrato. Perdi tudo, menos meu apartamento. E como tinha pedido demissão do antigo emprego, não tinha dinheiro nem pra comer.
Minha moça.
Não fale ao meu pai o que aconteceu comigo. Enviei cartas a ele dizendo que estava bem e até mandei uma quantia em dinheiro, só pra parecer que eu estava bem. Isso há umas duas semanas atrás.
Mas não era só isso que tinha pra te falar.
Quero saber como esta seu irmão. A ultima vez que me escreveu disse que ele tinha quebrado o braço. Espero que não tenha sido nada de muito grave. Sei que um tombo do segundo andar de um apartamento parece muito, mas não me preocupei. Sei que o Marquinhos esta muito bem.
E quanto ao Eduardo, bem, não sei te falar muito bem o que eu acho da situação. Acredito que o suicídio seja para poucos e ele não era um dos que merecia. Não que se deva merecer pra morrer, mas é que ele tinha muito que fazer por você ainda. Recebi a carta de suicídio que ele lhe escreveu. Não respondi, mas eu a recebi e a li com muita atenção. Ele não me pareceu muito convincente, ele com certeza tinha outros motivos. E o baú? O que tinha dentro daquele baú? Você não quis me dizer. De qualquer forma, eu vou descobrir, pois estarei chegando à cidade dentro de breve.
Sim, eu consegui sair do México sem sofrer nenhum dano muito grave. Cheguei clandestino aos Estados Unidos e consegui arrumar passagens de volta a São Paulo com o dinheiro do apartamento que eu vendi.

Peguei sua última carta de novo. Nela tinha pequenas rugas no papel. Varias rugas pequenas, redondinhas e belas. Diga-me, por que chorava enquanto escrevia? Eu não sei o porquê daquele trecho. Se fosse onde se referia ao Eduardo, eu até entenderia, mas se trata na parte do “Eu perdi meus tênis roxos.” Lá havia uma ruga bem marcada, e quase o papel se rasgou ao escrever.
Joana, Joana...
Achou que eu só lia suas cartas sem interpretar os sinais do seu corpo. Eu posso saber até a posição na qual você escrevia nessa ultima carta. Mas pela variação de caligrafia sou capaz de afirmar que você a escreveu em cerca de doze fragmentos de tempo, com leves pausas de três minutos cada. E assim afirmo que você ficou nervosa ao me escrever.
Joana.
Você ainda me ama, assim como disse quando eu parti? Eu nunca retirei o que eu disse sobre você. Eu sempre pensei em você e nunca dormi com outra garota sem ter você na mente. Eu já havia te dito isso mais de uma vez, mas você não acreditou em mim. Eu sei que pareço ridículo, mas eu criava uma Joana a cada esquina que eu cruzava, tentando desesperadamente encontrara você em algum corpo. Em alguma voz. Em algum desejo. Em algum ensejo ou vontade de me amar. Eu nunca fui tão amado quanto por você Joana. Acredite, seu amor foi o que fez agüentar firme a minha existência.
Provavelmente outros homens já tenham lhe dito isso antes. O Eduardo, talvez. Mas é que você, Joana, é a pessoa mais incrível que conheci. Desde aquele dia, em que você entra no restaurante com um belo casaco rosa. Eu sempre odiei aquele casaco rosa. Mas se você gostava dele.
Enfim, peço-lhe mais uma vez desculpa pela demora, pelo meu irmão ter feito aquela burrice e te deixado assim, pela minha falta de bom senso ao te deixar.
Beijo Joana, eu sempre te amarei.
Do seu e exclusivamente seu.
Edgar.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Radiografia Panorâmica [Medicina de Alice]

O mesmo ambiente da semana passada. Alice queria explodir de tanta dor de cabeça. Aquele cheiro de pasta, os latidos, a luz que pisca, as revistas mofadas, os quadros de auto-estima dental. A única diferença era a consulta: Radiografia Panorâmica.
Mordida cruzada. Era isso que a doutora havia dito. Provável uso de aparelho dentaria.
Agora era uma mãe e seu filho. Devia ter cerca de cinco anos no máximo. Mas já falava como alguém que tenha duzentos anos. Todo o tempo. A pergunta que era mais frequentemente repetida era: ‘Aquilo é azul ou verde, mamãe?’.
Alice revirava a bolsa furiosamente, procurando o pedido. Estava extremamente irritada com tudo aquilo. O maço de cigarros reluzia no bolso, preso a um papel dobrado. Não era o pedido, era uma carta de Lúcio.

‘Querida Alice
Fomos todos à praia já. Eu, Júlio e Ronaldo Esperaremos vocês as dez no quiosque de sempre, certo?
Leve seu protetor solar.
Beijo, te adoro.
Lúcio. ’


Lembrou-se que o papel estava na geladeira parda de sujeira. Por sinal, vazia. A única utilidade era colar recados.
Alice, Sandra e Rosana encontraram os garotos no quiosque. Às onze e meia. Os seis se sentaram sorridentes, sendo frequentemente observados. Mas nenhum deles realmente se importava com isso.
Alice e Lúcio trocavam olhares frívolos. O único atento a esse fato era Ronaldo, o garoto da sunga azul. Com a veia pulsando na testa, os olhos eclodindo das órbitas e os pés se contraindo de medo, o moreno tossia, evidentemente, querendo chamar atenção geral.
Alice tirou o pedido do bolso à direita. Entregou a moça do caixa, junto com o cartão de débito automático. A moça, rudemente, aceitou o pedido e passou o cartão na maquina.
Quando Alice terminou de pagar, se dirigiu a sala de espera e rapidamente foi chamada.
-Ponha sua cabeça ali e morda o plástico branco.

Senhor Odonto Malvado! Foi o que pensou Alice ao ver o aparelho. Assimilava-se a um capacete rotativo com uma cúpula para fixar a cabeça. Apesar do título, Alice o fez. Pôs a cabeça no capacete e mordeu o plástico.
-Tente não se mexer. Se possível, não respire.

Ele quer me matar! E começou
A máquina começou a rodar lentamente em volta da cabeça de Alice. Sentia que queria vomitar. Seu cérebro começou a vincular imagens de Lúcio. As pálpebras se fecharam. A máquina rodava velozmente. Ferozmente.

Não apague o Lúcio da minha mente! Por Favor!

Parou. Ela se sentia exausta. O mordedor de plástico quase se partira com a força que mordera.
-Pode aguardar na recepção, sim?
Pegou a bolsa e voltou pra sala azul. Os quadros de alta-estima dental sorriam diabolicamente, como se zombassem da pobre moça.

Exame entregue. Fones no ouvido. Batom retocado. Sol no rosto.

Lúcio na mente.

sábado, 26 de julho de 2008

Carta de Suicídio

Joana:
Eu fui para um lugar melhor, pode apostar.
Sei que nunca fui bom o bastante para ter os seus sentimentos. Eu estive durante muitos anos ao seu lado, sentindo isso. Sei que te aflige toda a situação que fiz você passar, desempregado, morando no mesmo apê que você, comendo da comida que você comprava e bebendo compulsivamente. Mas entenda que precisei disso.
Desde que minha mãe faleceu, eu precisei de muito carinho de uma garota atenciosa como você. Mas sei que tudo não passava de uma grande farsa que nós entramos, minha garota. Seus lençóis ficavam quentes, mas seu corpo permanecia gelado como uma pedra, naquela ultima noite. Eu sei, parece um tanto de loucura, mas eu sei quando você se sente animada ou não. Seus pés não conseguem mentir como você.
Joana, Joana...
Desde que te vi, com aquela música do The Cure tocando naquele barzinho, que senti que era você. Parece que foram dois segundos atrás. Seu casaco peludo que eu odiava. Como conseguia usar aquela coisa alérgica e rosa? Eu espirrava só de chegar perto quando usava aquilo. Mas não vem ao caso.
Você é a garota com quem eu quis passar o resto da minha existência. Não me importa o que ache de você, pra mim, você é tudo. Não digo que é perfeita, mas até seu modo de errar me impressiona. É incrível como você fica vermelha, abaixa o rosto de pede desculpas naquele tom de criança chorona que só você mesmo sabe fazer. Sua unha do pé, pequena e arredondada, seus olhos escuros como um véu, sua voz doce como um pêssego. Joana, Joana...
Seu tênis vermelho está bem ali, à esquerda. Consegue vê-lo? Eu estava admirando, lembrando-me daquela noite que andamos no parque. Como você consegue fazer essas coisas? Chutou a pobre árvore sem ver! Eu sei que a arvore não se importou, mas o pobre tênis e seus lindos dedos se importaram. Ahh, que saudades daquela noite, daquela estrela, daquele banco quente.
Enfim, eu creio que você esteja chorando agora, tenho de lhe reconfortar ao invés de mencionar esses fatos.
Eu fiz porque te amava demais. E eu escutei quando você disse a Lucia o que queria fazer. Eu não ia suportar a idéia de ficar sem você, Joana! Você sabe o quanto eu te amei. Mas não se sinta culpada, eu lhe juro, você será recompensada por isso. Posso parecer mesquinho por querer fazer monopólio de você, mas é que você sempre foi tudo o que precisei! E não estou falando de dinheiro, moradia ou lençóis limpos e quentes.
Você me deu tudo àquilo que nunca tive de nenhuma garota. Não sei explicar.
Mas enfim, fiz isso apenas porque queria te libertar desse meu assédio moral. Não ia conseguir dizer tudo isso e meramente sair da sua vida. Ia querer sempre voltar pra te ter em meus braços novamente, ou querer saber se já teve filhos, ou se já se mudou. Eu não ia poder fazer isso, mas ia fazer.
Joana, por favor, só lhe peço um ultimo favor, me perdoe por isso, ta bem? Alias, tem outra coisa: deixei um baú perto dos seus tênis. Lá tem varias fotos e textos que quis lhe enviar, mas nunca tive coragem. Sempre fui um covarde de carteirinha, sabe disso.
Alias, nunca tive qualidade alguma pra ser exato. Tem uma música do White Stripes que diz isso: Se há algo de bom em mim, eu sou o único que deve saber. Não me recordo o nome, mas é isso que diz. Ao contrario daquela musica do The Cure que eu detesto: como assim garotos não choram? É o que fiz até os últimos dez minutos.
Estou quase conseguindo o que quero. To escrevendo essa carta enquanto arrumo a cena desse quarto vazio. E também tomo coragem. Alias, consegui finalmente.
Beijo Joana. Eu sempre te amarei.
Do seu e eternamente seu
Eduardo.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Sim, Caroline!

.. This Boy .. diz:
por amor eu esperaria no deserto


Summer diz:
mtooo bonito
e estranho

.. This Boy .. diz:
eu sei

Summer diz:
G_G

.. This Boy .. diz:
alias, nao sei de mais nada
acabo de receber um email
mil pensamentos passam pela minha mente
sei quem esta la
e adivinhe!
é o submarino.

Summer diz:
sasuhuhuhua

.. This Boy .. diz:
sempre me animando ao mandar a oferta da escada que tanto paquerei no site
eu não passaria mais que tres noites no dserto
la fica menos de 0 grau

Summer diz:
shuashuahus
q coisa vc...

.. This Boy .. diz:
eu pareço dramatico? eu pareço fanatico?
olhe a musica: Caroline Yes [põe música do Kaiser Chiefs a tocar]

Summer diz:
parece fanatico

.. This Boy .. diz:
eu nao conheço caroline que se de valor algum

Summer diz:
sauhauhuhsuhauahsuhas

.. This Boy .. diz:
por isso crio uma caroline a cada esquina que vejo
por essas e outras meu destino agora é alemanha

Summer diz:
uhushuashuhauha
mano, vc tah com sono

.. This Boy .. diz:
onde as louras de olhos claros não são excessoes nem aritificiais

Summer diz:
e tah brisando

.. This Boy .. diz:
não!
não ha brisas no 14º andar!
apenas a ventania gelada daqueles labios frios soprando o ar ao ver minha imagem

Summer diz:
suhuashauhuashaushaushuhushusahuashuashuashuashuahuhuhusahas
velho, tah mto engraçado

.. This Boy .. diz:
alias, o que ser minha imagem?
um conjunto de bits tranformados em pixels...

Summer diz:
uhsuahuhsuahusahas

.. This Boy .. diz:
e tudo o que ele quer é apenas ouvir Green Day


Isso explica o porque não posso comer nada doce depois das 12 da noite. Entendeu Tamy?

sábado, 19 de julho de 2008

Raspagem [Medicina de Alice]

Alice precisava de um cigarro. Aquele ambiente fechado já lhe causava dor de cabeça. Se tinha algo que detestava era ter de esperar alguém, sendo que ela estava na hora.e quem se importava que ela nunca chegava na hora?

Era uma sala pequena. Dois sofás de dois lugares, uma mesa cerejeira branca lotada de revistas, plantas e um cesto de lixo. Paredes meio azuis, meio brancas, com quatro quadros de auto-estima dental. Um ventilador no teto, uma luz que pisca quase queimando. O cheiro de pasta de dentista.
Já tinha folheado três daquelas revistas medíocres sobre beleza. Os latidos dos cães na avenida a irritava profundamente. As duas senhoras conversadeiras, com quase 80 anos, rindo, se misturavam aos ruídos da furadeira da sala ao lado.

Quando se mexeu, a bolsa de Alice caiu do banco ao lado, virada para baixo. Ela olhou para cima, não acreditando, e pôs-se a recolher seus pertences. Foi quando ela viu a foto.
Era ela, Alice, há quatro meses atrás. Mais gordinha, cabelo mais curto, espinhas a mais, abraçada com Lúcio, aquele amigo dos tempos de colégio.

Um devaneio. Alice na praia com Lúcio, jogando bola num círculo de amigos. Cheios de riso, cheios de calor, cheios de bebida. Cheios de olhares pretensiosos.
Lúcio era raquítico. Moreno de pele muito clara, cheio de sardas nas costas, olhos bem escuros e cabelo baixo e curto. Tinha as espáduas muito largas. Usava uma bermuda vermelha com riscas pretas. Alice ainda era gordinha. Branca, loura, olhos castanhos e joelhos ossudos. Baixinha. Usava um biquíni vermelho com desenhos absurdamente brancos.
Ele, ria muito com seus dentes absurdamente claros e brilhantes. Ela, sorria com sua boca pequena, hipnotizada pelo garoto de espáduas largas. Pelo riso. Pelas sardas.

-Seu nome não é Alice Xavier? Perguntou uma das velhas.
Alice guardou a foto e entrou no consultório. Mexe e mexe. Cutuca daqui, aponta dali.
-Raspagem, três sessões, 150 reais em três vezes de 50 reais. Qual sua disponibilidade?
Sorriu.
-Quartas, as duas.
-As três então? Marcado. Dê-me seu nome completo e telefone.

Saiu do consultório. Sacou um cigarro da bolsa.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

1 -2 +3 -4 +5

Em matemática a expressão, 1 − 2 + 3 − 4 + … é uma série infinita cujos termos são números inteiros, que vão alternando seus sinais. Utilizando a notação matemática para adição, a soma dos m primeiros termos da série se expressa como:


A série infinita diverge, no sentido que a seqüência de suas somas parciais (1, −1, 2, −2, …) não tende a nenhum limite finito. De forma equivalente, poder-se-ia dizer que 1 − 2 + 3 − 4 + … não possui soma no sentido usual do termo.
Contudo, em meados do século XVIII, Leonhard Euler descobriu a seguinte relação qualificando-a de paradoxal:


Foi somente muito tempo depois, que se chegou a uma explicação rigorosa desta relação. Até o começo da década de 1890, Ernesto Cesàro e Émile Borel, entre outros, pesquisaram métodos bem definidos para atribuir somas generalizadas às séries divergentes – incluindo novas interpretações dos intentos realizados por Euler. Muitos destes métodos denominados da soma atribuem a (1 − 2 + 3 − 4 + …) uma "soma" de 1⁄4. O método da soma de Cesàro é um dos poucos métodos que não soma a série 1 − 2 + 3 − 4 + …, por isso, esta série é um exemplo de um caso onde deve utilizar-se um método mais robusto como, por exemplo, o método da soma de Abel.
A série 1 − 2 + 3 − 4 + … encontra-se relacionada com a série de Grandi 1 − 1 + 1 − 1 + …. Euler analisou estas duas séries como casos especiais de (1 − 2n + 3n − 4n + …) para valores de n aleatórios, uma linha de investigação que estende sua contribuição ao problema da Basiléia e conduz às equações funcionais do que conhecemos hoje como a função eta de Dirichlet e a função zeta de Riemann.
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Relações heurísticas da soma

As explicações mais simples que relacionam 1 − 2 + 3 − 4 + … com o valor 1⁄4 são extensões de resultados relacionados com a série 1 − 1 + 1 − 1 + ….

Estabilidade e linearidade
Dado que os termos (1, −2, 3, −4, 5, −6 …) seguem um padrão simples, pode-se expressar a série 1 − 2 + 3 − 4 + … como uma versão transformada de si mesma e resolver a equação resultante para obter um valor numérico. Supondo que fosse correto expressar s = 1 − 2 + 3 − 4 + … para algum número s, as seguintes relações levam a mostrar que s = 1⁄4:


Somando 4 cópias de 1 − 2 + 3 − 4 + …, utilizando unicamente deslocamentos e somando termo a termo obtém-se 1.

s = 1 − 2 + 3 − 4 + …
s= (1 − 1 + 1 − 1 + … ) + (0 − 1 + 2 − 3 + … )
s= h − s,

onde h é a "soma" da série:
h = 1 − 1 + 1 − 1 + …
h= 1 − (1 − 1 + 1 − … )
h= 1 − h.

Resolvendo as equações h = 1 − h e s = h − s obtém-se que h = 1⁄2 e s = (1⁄2) // h = 1⁄4.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Cachorro Quente MUITO Macabro



Sexta feira de muito sol. Obvio, era mês de abril, no outono. Claro que tinha muito sol!

Enfim, eu resolvi comer um cachorro quente. Nunca gostei muito de cachorro quente por causa da praga que alguns insistem em chamar de maionese. Por isso, fiz uma grande revolução no modo de comer cachorro quente: pedi sem maionese!

Mas a historia em si não começa ai:

O travecão do cabelão:

P - Acho que vou almoçar um cachorro quente. Vou lá fora e volto em alguns minutos, ok?
F - Espere um segundo, irei também.

Enfim, foram.
E saíram pra comprar o cachorro quente.
Chegam ao tio do cachorro quente.

P - Por favor, um cachorro quente SEM maionese.

Alguns minutos depois...
T - Tenho que fazer de novo, eu pus maionese.

Suspiro. Gritos do Jack White no meu ouvido.

Alguns minutos depois, uma substancia não identificada é adicionada ao cachorro quente.
P – O que é aquilo que ele pos no cachorro quente?
F – Não faço idéia.
P – Prefiro acreditar que seja apenas vinagrete.

Mais alguns minutos, o cachorro quente enfim é finalizado.
E passado as minhas mãos.
Assim, surge a macabridade do momento:
T – (?) Ta parecendo um travecão com esse cabelão.
Novos berros de Jack White na minha orelha. E a bateria da Meg. E o meu dinheiro na mão do Tio.
P-Obrigado.... Tem troco?
T - Não, é dois reais mesmo.

Enfim saímos. Flávia e eu.
Quando do outro lado da rua caiu a ficha.
P - Ele disse que estava parecendo um travecão de cabelão?
Risos.
F – Eu acho que era a mulher do outro lado da rua.

Alias, até hoje não sabemos.




sábado, 12 de abril de 2008

O Ultimo Intruso

O Ultimo Intruso continuava no canto do campo. Os Refugiados se abrigavam no centro. O Ultimo Intruso não precisava de abrigo, tinha sua mente.


O Ultimo Intruso tinha os lábios grudados um ao outro. Os Refugiados não conseguiam fechar suas bocas. O único som que o Ultimo Intruso emitia era sua respiração.

O Ultimo Intruso tinha uma lapiseira azul entre os dedos. Os Refugiados nem lembravam que sabiam escrever. O Ultimo Intruso percebia isso.

O Ultimo Intruso tinha sono e uma mente cansada. Os Refugiados não paravam de tentar quebrar objetos e arremessa-los. O Ultimo Intruso cochilava sobre seu papel.

O Ultimo Intruso sempre olhava pela janela. Os Refugiados nem perceberam a existência da mesma. O Ultimo Intruso procurava algo.

O Ultimo Intruso estava só. Os Refugiados estavam separados em raças. O Ultimo Intruso era apenas o ultimo intruso.

Apenas o Ultimo Intruso.