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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Muralhas de um coração I


Ao contrário do que dizem por aí e do que penso, eu tenho um coração de carne como todo mundo. Não é de pedra, de gelo, peludo ou seja lá qual seja a atual definição que dão dessa vez. É um coração como qualquer outro.
A maior prova disso é que, se você me cortar, eu vou sangrar como qualquer outro. Provo: sou um ser humano e tenho minhas limitações como qualquer outro.

Mas nem por isso sou igual. Novamente posso provar.

Sempre senti esse músculo involuntário um tanto quanto patético. Fica se retorcendo por coisas idiotas e por pessoas sem merecimento. Parecia que cada vez que ele se retorcia, um hematoma novo nesse pedaço de carne surgia, como se alguém arremessasse uma pedra ou atirasse uma flecha ou algo que o valha.
Óbvio. Todo mundo é assim. Sofre uma decepção e se machuca, blé.

Para evitar esse tipo de injúrias, resolvi fazer uma coisa que li uma vez num livro. Quer dizer, algo bem semelhante. Num conto, um rapaz arrancou seu coração e o guardou num cofre para evitar qualquer tipo de sofrimento. Obviamente não funcionou muito bem, uma vez que o coração ganhou vida própria por estar fora do corpo do rapaz. Mas e se o cofre estivesse no meu peito? E se não fosse um cofre, e sim paredes impenetráveis? Melhor: muralhas. Estaria imune a esses espólios. Pedras seriam desviadas e flechas seriam quebradas quando arremessadas no cofre ou muralha, seja lá que raios eu colocasse. Ainda estaria em mim meu coração, mas selado a vácuo para impedir detritos externos.

Pensei. Não posso levantar essas muralhas a qualquer um. Devo baixar a guarda a algumas pessoas, claro. E essas devem ser bem escolhidas. Meus métodos, assumo, nunca foram bem esclarecidos, pois apesar de ser bem racional, eu levo meus pensamentos por um lado bem passional. Como uma porta traseira da imparcialidade. Uma divisão quase que perfeita do racional e passional. Deve ser algum efeito colateral de trancafiar meu músculo num cubículo de pedra. Ele deve se manifestar de alguma outra forma, enfim.

O fato é: eu ergui muralhas em torno do meu coração para não permitir que qualquer um possa machucá-lo. Isso me tornou mais frio?  Talvez. Isso impede de demonstrar meus reais sentimentos? Talvez. Mas talvez fosse a maneira mais sadia de não me machucar com tanta facilidade.

Mesmo machucando quem tenta penetrar por entre essa muralha.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Comi carne crua. Babei sangue.



Comi carne crua. Babei sangue. Só não sabia se era o meu ou do animal morto.

Mordia cada pedaço com uma força descomunal. Quase animal. Sentia meus caninos transpassando e chegando a minha língua, sentindo aquele misto de dor e prazer naquele sentimento sufocante. Era o auge, o ápice. Aquela carne exalando um cheiro acre de recém cortada. Mas minha raiva precisava ser descontada, e nenhum animal vivo merecia aquilo.

Eu estava naquela tênue linha entre o deprimido e o deprimente. Não sentia bem nada, só o cheiro da carne, a dor na língua, uma queimação na nuca, o sangue quente escorrendo da boca. Babava feito uma criança. Só que vermelho.

Pela janela conseguia ver aquelas pessoas andando na rua. Nenhuma delas estava de fato na rua, com a cabeça longe metros, talvez quilômetros de sua localização original. Nenhuma dela via o terror que acontecia na janela. Nenhuma delas vira meu jantar sangrento. Nenhuma delas queria ver, mesmo se o visse. 

Nenhuma delas reconheceria o meu jantar. Já estava extremamente mutilado.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Eu tinha um coração

Eu lembro.
Me lembro muito bem, eu tinha coração.
Lembro que pus ele em algum lugar por aqui, em alguma dessas gavetas.
Também lembro que tinha guardado exatamente para o momento em que eu precisasse usá-lo de novo.
Não lembro onde guardei. Sei que guardei bem guardado, protegido com todo o esforço, para que não rachasse como da última vez.

Eu lembro. Mas não acho.
Deve ser porque ainda não preciso dele.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Cristal

Dói.

Durante muito tempo, vim trabalhando para construir um cristal que tivesse a minha imagem. Não minha imagem física, mas sim a imagem de dentro. Logo a imagem de um pequeno cristal redondo, com várias lascas pequenas surgiu. Vim então trabalhando para polir esse cristal e que todas as lascas fossem removidas.

Vim exibindo meu cristal liso a todos que quisessem ver. E todos apreciavam 'Olha que cristal brilhante', 'como reluz essa jóia'. E coisas do gênero. Meu cristal logo se tornou motivo de orgulho para muitos, uma vez que aquela pequena coisa se destacava dentre as outras pedras.

Às vezes, era necessário dar um polimento a mais, pois a pedra se apagava por um tempo e reacendia. Eu me assustava nesses pequenos períodos de escuridão.
Por vez, a pedra chegou a brilhar tanto que foi alvo de discussões serias, onde todos se perguntavam como que um cristal conseguia brilhar, com tão pouco tamanho. Eu sorria me orgulhando o cristal que eu tinha criado, e assim foi por algum tempo.

Dói.
O que por vezes eu esquecia é que uma vez lascado, o polimento serviria apenas para esconder toda a imperfeição da pedra. E por muito tempo eu tinha esquecido o quando tinha por baixo daquela beleza brilhante. Tinha esquecido todos os riscos e lascas que o polimento escondia.

Eu também, por vezes, esquecia que o polimento no cristal seria o mesmo que mascarar a face lascada.
Até que uma pequena lasca surgiu. E virou uma rachadura. Em menos de três horas, o cristal começou a se apagar, e a rachadura aumentar. Jamais pensaria que aquela lasca, lembro-me muito bem dela quando fiz o cristal pela primeira vez, viesse afetar depois de tanto tempo preenchida. Mas erroneamente ao invés de lixar a lasca, resolvi simplesmente a mascará-la como se nunca tivesse lá.

Dói.
O meu cristal se rachou. Quebrou em doze menores pedaços. Alguns brilhantes, alguns apagados. Quase todos frágeis.
Menos a parte onde a maior e menos notável lasca tinha se formado. Aquele era o maior e mais grosso pedaço do meu cristal espatifado.

O meu cristal espatifado criado a minha imagem espatifada.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Giz de Cera

- Luciano, você está bem?
Ele virou o rosto em direção a voz que ouvi. Vinha de Dani, colega de faculdade. Viu que fazia uma careta de desaprovação, pois, ao invés de ouvir o professor, Luciano estava muito além...
A cada dia que passava, Luciano tinha um maior controle sobre seu dom, de maneira mais eficiente e com maior poder, assim por dizer. Conseguia agora ficar por horas sem ouvir uma voz sequer. Às vezes, berros secos surgiam brutalmente, fazendo-o acordar de um sonho um tanto quanto utópico.
- Desculpe, Dani – Sorriu Luciano. Um sorriso forçado e quase que exagerado. – É que me veio umas coisas em mente.
Quanto a isso, ele não mentia.
- Não é porque você é inteligente e tudo o mais que tem que ignorar as aulas. – Disse, seca.
O professor já ignorava a comum falta de atenção do rapaz. Aliás, qualquer um ignorava a presença de Luciano, exceto um restrito grupo de duas pessoas.
Havia um exercício na lousa branca. E esse era o motivo pela qual Dani chamara a atenção de Luciano.
Loura, baixa, absurdamente magra. Olhos claros e profundos, onde finas olheiras envolviam na pele quase prateada. Cabelos na altura da cintura fina, que combinava com a finura do cabelo, fazendo com que se esvoaçassem com extrema facilidade. Era meiga no modo de se vestir, sempre com uma aparência bem animada e repleta de cores fortes, porém sempre combinando bem entre elas. Hoje, usava um tênis branco e meias listradas na altura dos joelhos. Macaquinho jeans por cima de uma alegre camiseta roxa e branca.
Luciano a olhou por alguns momentos. “O que será que acontece com ele. É sempre tão desligado e tão relaxado. É como se... não se importasse com nada.”. De repente, se virou para Luciano e deu um sorriso.
Com a boca levemente aberta, Luciano saiu da sala sem pronunciar uma única palavra. Já tinha ouvido centenas, talvez milhares de pensamentos. Sé de Dani, uma grande parcela.
Mas nunca algo sobre ele. Por incrível que pareça.
Quando chegou ao banheiro, enfiou a cabeça embaixo da torneira, deixando toda a água escorrer para seu pescoço. A água escorria, mas os últimos minutos não saiam da cabeça de Luciano. Fechou a torneira, secou-se com alguns papéis e se olhou no espelho.
Seus cabelos haviam coberto suas orelhas por completo. Seu rosto parecia pálido e seus olhos absurdamente arregalados. Pôs as mãos no rosto e assim viu o famoso retrato de Edvard Münch a sua frente, como se berrasse. Não sabia se corria ou se permanecia estático. Por fim, passado algum tempo, resolveu voltar à sala.
Quando saiu, se deparou com Christopher, que parecia amedrontado. Luciano se assustou.
- Chris?
- Oi Luciano. Você saiu da sala tão... O que aconteceu com seu cabelo?
Chris ficou roxo. Ele era bem branco, mas possuía a pele bem bronzeada, devido ao tempo que ficava exposto ao sol. Seus cabelos, perto do ombro, tinham um tom marrom claro, combinando perfeitamente com seus olhos escuros. Como sempre, a barba por fazer, dava-lhe um ar agressivo, mas que combinava com sua aparência. Jeans rasgado nos joelhos, camiseta escura e tênis comum.
- Enfiei a cabeça embaixo da torneira. Precisava pensar um pouco. Vamos indo que explico no caminho.
Luciano falou que, quando a cabeça doía, ele molhava a nuca. Chris não fez objeções.
Entraram novamente na sala. O professor os olhou e soltou uma risadinha debochada, mas não fez comentários. Os alunos levantaram o rosto por um segundo, mas logo abaixaram pro papel.
- Poderia me responder, Luciano – começou o professor, assim que Luciano se sentou – como devo fazer este exercício?
E olhou desconfiado para Luciano que, não por maldade, simplesmente se levantou, pegou a caneta da mão do professor e rumou para a lousa, sem olhar para trás.
- Não sei explicar. Só fazer.

Quando saíram, Luciano, Dani e Chris sentaram em algum dos bancos que estavam próximos ao prédio onde teriam aula, ao ar livre. Enquanto Chris e Luciano discutiam animadamente sobre a última prova, Dani revirava a bolsa. De repente, quando puxou um embrulho laranja, um giz de cera azul caiu “Ops, como isso veio parar aqui?”.
Luciano pegou o giz, sem realmente tocar ele. “Por que a Dani carrega um giz na bolsa?”, pensou Chris. Quando Luciano devolveu o giz, Dani ficou corada, enfiou o giz na mochila e sorriu.
- Deve ter sido minha irmã – “Detesto parecer idiota na frente do Lu”.
Ainda assustado, mas não o bastante para sair correndo, Luciano sorriu e murmurou um “tudo bem”. Chris deu uma risada, se virando para Dani.
- É agora, Dani?
- Sim!
Os dois ficaram em pé, se colocaram na frente de Luciano e disseram em uníssono.
“Feliz 18 anos, Luciano.” E o embrulho laranja nas quatro mãos, estendidos para Luciano.


O Grito - Edvard Münch

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Leões Dourados e Espelhos Púrpuros

- Vovó, me conta uma história?
- Claro Mariana.Qual você quer dessa vez? A Bela Adormecida?
Mariana fez uma careta.
- Não Vovó. Essas princesas não estão com nada. Ficam esperando príncipes e os cambaus. Quero algo novo.
A velha olhou Jonas e soltou uma sonora gargalhada. Jonas lhe deu uma piscadela e virou-se pra Mariana. A velha se recuperou e voltou a falar.
- Claro que conto, minha pequena. O que acha da história dos Espelhos Púrpuros e os Leões Dourados?
- Leões... Sim, eu quero essa!
A avó lhe sorriu, pigarreou e começou a contar:

“Era uma vez um planeta escuro e afastado.Ao contrário do nosso planeta, ele não possui nenhuma estela muito próxima, o que o torna escuro e gelado.
A pouca claridade que tinha era proveniente de estrelas bem minúsculas e bem afastadas do planeta. Os moradores deste planeta já eram acostumados a enxergar no escuro. Aliás, eles não só enxergavam no escuro como também refletiam essa escuridão.
“Eles eram os Espelhos Púrpuros.
“Eram redondos, como ovos, e tinham uma leve cor arroxeada em suas formas espelhadas. Possuíam pernas e braços finos, e eram desprovidos de pescoços. Tinham a cabeça junto com o globo e tinham olhos pequenos, mas que enxergavam bem longe. Eram desprovidos de sentimentos bons, como compaixão, alegria, amor...
“Havia poucos Espelhos Púrpuros. Como existiam muitas guerras, vandalismos e destruições naquele planeta, eles derretiam com facilidade. Derreter era a forma como deixavam de existir.
“Certo dia, no auge de uma das mais devastadoras batalhas dos Espelhos Púrpuros, surgiu três grandes luzes no céu. Pareciam estrelas cadentes. Conforme essas luzes desciam, rugidos roucos vindos desses brilhos ficavam cada vez mais retumbantes. Em pouco tempo, todos os Espelhos Púrpuros estavam apreciando o show de luzes e rugidos vindos de céu.
“Até que...”

- Vovó?
- Sim, Mariana.
- Eram os Leões Dourados?
A velha gargalhou novamente.
- Sim Mariana. Eram os Leões Dourados.

“Os Espelhos Púrpuros perceberam que os brilhos estavam indo em direção ao centro da guerra. Amigos ou inimigos, estes se afastaram correndo e se acotovelando para sair de perto. Mas não longe o bastante para não verem o que aconteceria a seguir.
“Os brilhos desceram sobre o campo silenciosamente. De tão brilhantes e luminosos que eram, os Espelhos Púrpuros tinham dificuldade para enxergarem e distinguirem as formas.
“Eram gigantescos Leões Dourados. Três enormes. Patas do tamanho de patas de elefante, quase três metros de altura, jubas douradas que mais lembravam coroas. Olhos bem abertos cor de mel, que observavam tudo de maneira bem atenta. Olhavam as manchas púrpuras do chão, que eram os Espelhos Púrpuros mortos em batalha.
“Com um rugido bem alto, os Leões Dourados se agitaram no lugar, bem a vista dos Espelhos Púrpuros escondidos em depressões ao longo do campo de batalha.
“Um dos Espelhos Púrpuros resolveu se aproximar dos Leões Dourados. Ele andava cautelosa e vagarosamente. Conforme se aproximava, o rugido dos Leões fora ficando mais e mais baixo, até que um dos Leões parou de rugir e virou-se para o Espelho. O Leão se aproximava do Espelho, que agia reciprocamente. O Espelho percebeu que o Leão possuía olhos tristes e quase que chorosos. Assim, ele parou a cerca de três metros do Leão e fixou o olhar nos olhos do mesmo. Assim, começou a rachar.
“Começou com uma rachadura fina, mas foi se alargando e se espalhando por toda a extensão do corpo do Espelho Púrpuro. A essa altura, todos os outros habitantes daquele planeta já não estavam mais escondidos, estavam olhando o que acontecia ao Espelho.”

- Ele não sentia dor, Vovó?
- Não Mariana. Pelo contrário.
Jonas pigarreou. Mariana o olhou com uma careta como se dissesse “Não interrompa”.

“O Espelho Púrpuro começou a gargalhar, como se sentisse uma alegria imensa. E, de repente, se rompeu em vários cacos. Onde estava, surgiu uma figura muito semelhante a um humano, mas com braços e pernas finos e compridos, corpo mais comprido e orelhas mais pontudas. Um bocado fino e desajeitado. Pele com um tom azeitonado e com certo brilho próprio. Desta vez, cabelos longos e escuros lhe caía pelos ombros, formando cachos em torno do pescoço comprido e fino.
“Todos os outros Espelhos começaram a rachar. E deles foram surgindo seres semelhantes àquele primeiro. Todos com expressões de alegria e felicidade imensa.
“Os Leões Dourados se ergueram no ar e, com um rugido, voltaram ao céu. Em determinado momento, os três seres brilhantes se encontraram no céu, formando um único foco de luz, capaz de cegar qualquer humano que olhasse diretamente para aquilo, de tão grande e brilhante que era. Desse ponto de encontro, quando foi diminuindo a luz, percebeu-se que surgiu uma estrela, algo como se fosse o Sol para nós.
“Daquele dia em diante, os Espelhos Púrpuros passaram a ser mais atenciosos e cuidadosos com o pequeno planeta, que se encontrava destruído. Em uma das suas lendas, dizem que, se o planeta for novamente dominado pela treva e ódio, os Leões voltarão e lhes tomarão a única fonte de luz.”

- Que diferente, vovó. – Disse a garota, enquanto batia palmas.
- Gostou, Mariana? – Perguntou a velha, sorrindo.
- Muito. Mas tenho uma pergunta.
- Qual seria?
- Os Espelhos Púrpuros... Como se chamam agora?
- Essa é outra história, minha neta, e será contada outro dia.
Jonas olhou a velha e pigarreou. Mariana se levantou e rumou para a cozinha.
- Por que não lhe contou, vovó?
- Acredito que crianças devem ser crianças enquanto puderem ser crianças.
Após um sorriso mutuo, Jonas beijou a avó no rosto e saiu, para acompanhar Mariana.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sobre Destino, Caminho e Escolha.

Eu já fiz minha escolha e já tomei meu caminho. Deveras estar noutro lugar, que não o meu. Nunca escolhi errado. Nunca caminhei aleatoriamente. Nunca deixarei me levar numa constante cachoeira de acontecimentos.

Mas, quase que por uma ironia do destino, a inércia começou a adquirir território anteriormente dominado. E assim sinto-me puxado por toda essas gotas de atos formando essa cachoeira.

Anteriormente, sono e torpor. Hoje, sono e torpor. Meus ossos mudaram, mas meu destino não. Minhas mãos estão maiores, mas nem por isso agüento uma carga maior de emoções. Afinal, posso não ser um poço de sentimentos, mas também não sou um buraco negro sem emoção.

Por incrível que possa parecer, parece que a aparência da escolha se modifica a cada sorrateiro passo que por mim é dado. E mais uma brusca e sutil escolha deve ser feita. Mas como a inércia é mais forte, prefiro o certo ao duvidoso. Como diziam alguns, não tenho o espírito empreendedor, mas que empreendedor arriscaria até sua vontade? Claro que me falta esse espírito, mas nem por isso devo ignorar.

Se, por acaso, eu resolva brutalmente mudar, de alguns fatos irei sempre me lembrar:
Destino é único;
Caminhos são limitados;
Escolhas... Essas sim são infinitas.

sábado, 20 de junho de 2009

Marsala Siciliano Vergine

Nem 450 maços de cigarro, 280 garrafas do velho e bom vinho Marsala Siciliano Vergine que está embaixo do armário de casa, 9.000 barras de chocolate belga conseguiriam me animar desse bendito estupor. Tem sido absurdamente ridículos esses últimos dias pro aqui. Todos os empecilhos e ações que poderiam coexistir simultaneamente estão se interagindo. Tudo é o mesmo de sempre, mas sempre tudo tem sido o mesmo. As coisas poderiam ser diferentes:

Enjoei de me levantar cedo pra trabalhar, ganhar esse inescrupuloso dinheiro, que gasto em cigarros, bebidas, chocolates e mulheres.
Enjoei de ir dormir tarde, na cama já bagunçada da noite anterior. Não queria ter de dormir, mas não queria ter de acordar uma vez que já estivesse dormindo.
Enjoei de me entupir de comida relativamente pobre em nutrientes e vitaminas, unicamente porque o gosto me apetece. São várias coisas cujo gosto me apetece que abandonei meramente por ter se tornado um vício.
Enjoei de sair sábado à noite, para uma festa de algum desconhecido qualquer, dormir com uma garota aparentemente mais nova, prometendo ligar no dia seguinte. Mas simplesmente passar o domingo deitado num sofá, comendo pipoca, assistindo filmes e fumando igual uma Maria-Fumaça.
Enjoei de viver os mesmos meses do ano. Porque dezembro está sempre quente enquanto julho congela. Queria que houvesse mais outubro e mais abril, pois, geralmente, nem conseguimos saber a temperatura que irá fazer no dia seguinte.

Por um lado, o trabalho ajuda na distração, não me faz pensar nas porcarias que ando pensando ultimamente. E quanto ao dinheiro, posso tentar me equilibrar. Comprar mais besteiras e assim aumentar a diversidade de reclamações. Trocar álcool por refrigerantes, cigarros por balas de goma (?)... Ah, deixa pra lá.
Por um lado, dormir me parece ser bem atraente. Um habito absurdamente saudável e muito calmante. E quanto ao acordar... É, acho que já esqueci essa parte.
Por um lado, comer besteiras me parece ser bem atraente. Não consigo me imaginar fatiado um pepino e comendo com iscas de cenoura crua. E quanto a vícios, a própria vida é um vicio. Não darei importância a isso.
Por um lado, eu consigo imaginar a pobre garota sentada do lado do telefone, esperando uma ligação do canalha que sou. Sim, é o que sou canalha. Quanto a isso, prometo ligar para algumas delas de vez em quando.
Por um lado, essa estabilidade de temperaturas ajuda. Imagina sair de casa praticamente seminu e pegar um frio de -12°C. Quanto a isso, poderíamos ter uma temperatura instável, mas que nos avisasse por email algumas horas antes. Seria surpresa, sem surpresas.

Agora, aqui, enquanto fumo mais um cigarro e olho essas stripper se requebrando em cima da minha mesa, não posso reclamar de muita coisa. A fumaça do cigarro nubla minha visão, mas pouco importa quando minha mão está cheia de grana e prestes a enfiá-la dentro da cinta-liga da stripper. Nunca havia feito isso, mas precisava quebrar a rotina. Chega de filosofia inútil: essa noite é pra me divertir. E esquecer meu Marsala Siciliano Vergine. E a moça do lado do telefone, o chocolate belga, as pipocas: esse licor gasoso à minha frente com cheiro de tabaco já me é suficiente.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Acaso

...e no chacoalhar do coração e no balanço do ônibus, Cintia não mais ligava pra sua péssima atuação no teste admissional. Se as dores de cabeça deixassem de existir, talvez Ronaldo nunca tivesse cruzado seu caminho.

Aliás, será que o nome da pessoa que segurava sua bolsa era Ronaldo? De que importava se, na verdade, o sorriso oferecido era sincero? Aliás, será que o nome da dona da bolsa era Cintia?

Se as dores de cabeça deixassem de existir, talvez Cintia nunca tivesse cruzado seu caminho. E no chacoalhar do coração e no balanço do ônibus, Ronaldo não mais ligava pra sua péssima saúde...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

Garota abraçada ao Caderno Espiral

“Lá em cima daquela serra,
Passa boi, passa boiada,
Passa gente ruim e boa,
Passa a minha namorada.”

Guimarães Rosa, Sagarana.

Aliás, tinha centenas de pessoas reunidas num mesmo e pequeno espaço. Era asfaltado, com cobertura cor-de-vinho-velho. E várias pegadas esbranquiçadas, dos mais variados tipos de calçados, das mais variadas cores e dos mais variados tamanhos. E todas rumavam em direção às pequenas salas onde seus donos se silenciavam sob o alarde ensurdecedor.
Estava quente. Provavelmente o dia mais quente do ano. Por mais que algumas árvores cercassem o lugar e a sombra do prédio se expandisse pelas centenas de cabeças reunidas em torno do portão que estava prestes a abrir, a mancha de água rodava todas as pessoas nas camisetas, marcando exatamente em baixo dos braços. Ainda faltava meia-hora para a abertura, mas o comum da biologia humana é o sofrimento por antecipação. É claro, as machas de suor não são de calor. São de pré-ocupações.
Assim como Luciano, essas seriam testadas a fio e sem qualquer piedade. E boa parte desse grupo era jovem, com cerca dos seus dezoito anos. Pré-acontecimentos. Pré-ocupações. Pós-adolescência. E por isso vieram.
Luciano estava até que bem tranqüilo. Taqueava um jogo no celular relaxando enquanto o portão de vidro quebrado não se abria. A princípio, parecia ser o único que tinha condições de sobreviveras quatro horas que se seguiriam.

Ria-se da menina abraçada ao seu caderno espiral, rindo escandalosamente sob aquele sol escaldante e arrebatador. Luciano concentrou-se e riu da piada que tinha ouvido da outra garota, localizada a 10 metros de distância. Seus ouvidos estavam cobertos por música alta, mas não era inevitável que pudesse ouvir mais do que os sons que percorriam os fones. Isso porque Luciano tinha treinado o final da semana inteira para bloquear os sons adversos a sua própria mente.
Seria, até mesmo, injusto da sua parte exercer seu dom num local onde seria testado com as mesmas aptidões dos outros candidatos. Alem disso, era amedrontador ter de ouvir quarenta pensamentos numa sala onde teria que se concentrar arduamente. Telepatia, misturada a apatia. O chiclete, a borracha e a lapiseira azul.
As cinqüenta questões, as quarenta pessoas, as quatro janelas e as duas canetas esferográficas preta. Nada de maior interesse. A não ser que prefira levar em consideração o ventilador rodeando sobre as cabeças ferventes dos vários submetidos a provação.
Luciano não era exceção. Fervia com sua cabeça tentando se concentrar nas suas questões e não nos gritos que subitamente surgia-lhe a mente, fingindo uma possível convicção de controle. Lembrava unicamente do livro sobre a cabeceira. Lá, estava um livro de contos, entre eles, o de um garoto que tinha o mesmo dom que ele.

Mas qual a diferença? Depende da referência.

Por exemplo, Luciano é real. Danny não. Danny adora sorvete de chocolate, Luciano não.
Meras diferenças e brutas semelhanças abasteciam a mente do garoto que precisava de um momento, apenas um momento, para se concentrar na sua provação. E, com absoluta certeza, ele não precisava se lembrar do outro garoto.
Desviando os olhos do ventilador, Luciano retomou sua concentração e sua lapiseira e fitou as doze folhas de papel a sua frente. E sorriu.

Doze horas depois estava jogado na cama, com os pés descalços e as mãos sob a nuca. Refletia instrospectivamente sobre a loucura do pai e a ausência mental da mãe.
Tinha acertado quarenta de cinqüenta questões no vestibular, onde a telepatia se fundia a antipatia. Ou à apatia.


O Iluminado

sábado, 13 de dezembro de 2008

Caixas atrás da porta

De duzentos comentários que poderiam ser feitos nessas frações de segundos, o que melhor se encaixa nessa ocasião é:
A disponibilidade dos tênis mede a freqüência dos passos.

Por mais que possa parecer idiota, é uma possível alusão ao fato de meramente poder espairecer, devanear ou se adoentar. Não mais que isso, Luciano tinha vários calçados enclausurados em pequenas caixas empilhadas atrás da porta do quarto. A segurança dos mesmos eram aquelas caixas coloridas de vermelho-morango, azul-amora, marrom-creme-de-café e preto.
Em nenhum momento, porem, Luciano ficou por mais de duas horas sem um par de seus tênis. Dormia com eles, almoçava com eles. Fisiologicamente falando, claro. Até mesmo porque o mundo é fisiológico demais para que se possa tomar qualquer providência contra.
De qualquer forma, mais uma vez, o telecinésico persistia em andar só, desprovido de companhias que possam lhe acarretar desconforto, pensamentos destruidores sobre possíveis rotinas, lembranças marcadas sobre momentos agonizantes que poderiam derrubar qualquer ser humano ou mamute. Os passos ficariam marcados, uniformes e variados sobre a grama, silvando o estalar das folhas secas de primavera (quase que outono. Existe apenas a diferença de seis meses entre o inicio de um e o inicio de outro, como todos sabemos) que, alias, era a sua maior pré-ocupação daquele momento: estalar as folhas secas.
Os ramos das árvores balançavam sob o sibilo suave do vento, o único ser vivo além de Luciano. Era tudo o que Luciano precisava: algum lugar na qual seus pés não topassem com nenhum outro pé, seja ele feminino, masculino, unhas pintadas ou encravadas. Sua cabeça estava tão lotada de pensamentos alheios que os próprios precisavam se esquivar.
Luciano, mesmo apreciando a leitura do vento sob seus cabelos, merecia um maior descanso. Por isso, se jogou na grama, enfiou a testa na mesma e dormiu.
Acordou em sua cama, sabendo que o sonho nunca se realizaria. Porque era o maior sonho da sua vida. Andar sem topar com nenhum pensamento, seja próprio ou alheio.

E, de duzentos comentários que poderiam ser feitos nessas frações de segundos, o que melhor se encaixa nessa ocasião é:
A disponibilidade dos tênis mede a freqüência dos passos.

domingo, 30 de novembro de 2008

Pedido a Órion

Eu sinto um frio enorme. Meus pêlos se eriçaram e não posso controlar minha velocidade de reação. Os passos ficam mais lentos, gradativamente, e vão se perdendo por entre as calçadas. Tenho uma blusa na bolsa, mas meus braços não alcançam.
Talvez seja porque eles sabem que o frio externo não é o único presente. Mesmo com blusa, ainda estaria com frio.

A noite que se espalhava era bem estrelada. Eu podia pensar em várias coisas naquela hora, mas aquilo que me vinha à mente era sobre uma única coisa: Órion. Ele reluzia com todo o seu esplendor e sua graça mirabolante. Sempre fui de admirar as estrelas e suas fabulosas personalidades. Personalidades essas que constantemente comparecem em meus sonhos e caminhos paralelos.
Órion era um exemplo. Sempre era um guerreiro de atitude admirável. Digo mais pela aparência, pois nunca emitira uma única palavra. Se bem que, não posso ver claramente seu rosto hoje, mas sei que já o tive bem próximo a mim. Ignore o pleonasmo.
Não havia qualquer motivo para sentir frio, mas por um único momento eu sentia que podia sentir qualquer coisa que não tivesse qualquer proximidade a mim. Foi quando eu a vi pela primeira vez.
Aquela folha, quase seca, solitária, no chão.
Ate então, estava misturado ao vento. Ninguém nas ruas me via, apenas sentiam a minha presença. Eu poderia soprar, mas as sementes de dente-de-leão só iriam se soltar se eu realmente me concentrasse e as olhasse fixamente. Eu não tinha velocidade fixa. Eu não tinha som. Eu não pesava nada. Ate aparecer à folha e eu entendi tudo.

Apelei a Órion que me ouvisse e que, ao menos uma vez mais, fosse um humano e pudesse me acompanhar todo o tempo. Durante o apelo, senti que seria impossível, mesmo se quisesse pois, se realmente acontecesse, Órion seria mais um humano ocupando espaço na minha cabeça. Não poderia me dar o luxo de guardar mais alguém. Assim, mudei meu apelo imediatamente insistindo para que apenas me ouvisse e, conseqüentemente, meu mais novo desvario.
Assim como a folha arrancada da árvore, eu flutuava com o vento, não era nada mais que aquilo e, na realidade não importava mesmo. Mas o prazo era excepcionalmente curto e, a seguir, a folha iria secar. Ele tinha cumprido com sua função na arvore, assim como sua vez de ir embora chegara. Despediu-se de suas iguais e voou como uma folha, por pouco tempo até atingir o solo. E então se preparou para a maratona de tempo até secar.

Órion, antes de ver a folha, eu me senti como se não estivesse pisando no chão. Eu me sentia como se estivesse flutuando.
Órion, eu acho que ainda falta uma coisa para eu completar minha estadia. E então já posso murchar.Só lhe faço uma pergunta, Órion.

Era o meu vôo?

sábado, 8 de novembro de 2008

Rena de pelúcia, chaveiro de Alce

Toda vez que Luciano andava por algum lugar sozinho era assim.

A cada passo que ecoava sentia como se houvesse reverberações dentro dos seus pequenos miolos que, por acaso, andavam fervilhando de idéias tolas e incompreendidas. Era como se coletasse varias palavras ao longo do seu caminho, colocasse num liquidificador, pulsasse e bebesse aquela mistura de melancolia, alegria e frustração. Era como se coletasse os pensamentos de cada pessoa que cruzasse seu caminho, enfiasse numa batedeira, pulsasse e colocasse no forno lento, enfiando logo após aquela gororoba goela adentro.
Porém, dessa vez, tudo fora exatamente igual.

Sentou num banco exatamente no centro do corredor de um shopping que cheirava álcool. Aparentemente interessado num joguinho de celular, mas após longos dez minutos de pura modorra, se irritou e fora a procura. De um banheiro.

Cada pessoa, cada objeto, cada caveira em tênis de vitrine ficava guardado na memória e no cérebro oco de Luciano. Que, por acaso, não tinha preocupação nenhuma, a não ser ficar vivo e asseado até as oito da noite.
Era sete e quarenta e nove. Ou seja, era uma missão praticamente impossível, pois, a partir do momento que sua cabeça não agüenta nem mais o peso dos próprios cabelos, é difícil agüentar outro alguém. Mesmo que esse outro alguém sejam sua Rena de pelúcia ou seu chaveiro de Alce.

A vontade de ir embora, tomar um bom remédio e se esvair em sono e torpor era imensa. Mas, se fosse, e apenas se fosse, não poderia reclamar posteriormente que não fizera nada ao fim da tarde.
Apesar de já ter se divertido o bastante, coletado dez pensamentos alheios e variados. De variados tipos de pessoas:

*Eu não acredito que não tinha mais aquela blusa!

*Minha mãe não me comprou sorvete.

*O que aquele cara ta me olhando?

*Nossa, que gostosa!

*Caralho. Eu vou botar pra foder nessa porra.

*♫”Don’t you go to the broken bricks, girl!” ♪

*Quê que eu faço?

*Ligar para a atendente, mandar fazer novos contratos com a empresa Palestina e demitir o Romeu.

*Rosana, mio amoré. Aonde estas?

*Dinheiro? Dinheiro… Dinheiro!


...conseguia se divertir um pouco mais.

Óbvio!

Luciano era telepático e telecinésico. E tinha de agüentar até as oito da noite. E era sete e quarenta e nove.

Toda vez que Luciano andava por ai sozinho era assim.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Primeiro Dia de Sol da Última Semana

-Está um belo dia para se escrever um poema, não acha Mariana?
Foi o que Jonas disse.

Mariana mirou as nuvens. Estavam coloridas de um branco tão profundo que até parecia azedo. Eram poucas, porém grandes e largas.
O céu estava num azul tão profundo que era possível delirar se fixasse os olhos por muito tempo. Chegava a ser sudômico de tão azul.
Uma rajada de vento frio se chocou com Mariana. Era refrescante e contrastante com a temperatura de verão num belo dia de inverno.
Era apenas dez horas da manhã.
Mariana estava num balanço vermelho no parquinho perto de casa. Jonas estava no balanço amarelo. O balanço azul e o balanço rosa estavam quebrados, como sempre. O escorregador estava molhado, por causa da chuva de Quarta. O gira-gira não tinha ninguém. A casinha, melada de barro. A Areia, grossa. Os olhos, mareados. As roupas, imundas.
Então a menina fechou os olhos. sentiu como se voasse naquele balanço instável. seu vestido balançava e seus pés calçados na sapatilha brincavam. Uma única lágrima escorreu, decorrente do sono da manhã.
Enquanto isso, a imaginação ia longe, ao se ver voando com os pássaros e aviões. Senti as borboletas ficarem para trás, enquanto o único impulso era seu tronco preso naquele balanço.
Logo imaginou uma história, envolvendo uma princesa voadora, um príncipe-sabiá e um monstro-furtacor, onde a princesa, com suas asas, percorria toda a extensão do céu azul-sudômico com nuvens branco-azedo.
Tudo isso no embalo do balanço.

-Mariana?
-Sim Jonas, ouve esse:

Príncipe-Sabiá
Contra o Monstro-Furtacor
Princesinha a voar
Na nuvem sem cor

-É mesmo lindo.
-É uma história que acabei de inventar.
-Em casa você me conta. Vamos?

E se foram.

sábado, 5 de abril de 2008

Dead Leaves and the Dirty Ground





Uma Folha não passa de
Uma Folha
Caída de uma árvore cheia
De Folhas.