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quarta-feira, 28 de março de 2012

Calibrando Pneu

- Você só vai tomar isso?!
Eu olhei para ela. Não via necessidade que tomar mais que um copo de leite de manhã. Aliás, nem tempo pra isso eu tinha. Porém, expressar isso em palavras era um tanto quanto complicado, então simplesmente disse:
- Obrigado, mas eu não estou com fome agora.
Sei que ela fez uma careta pelas minhas costas, mas não liguei. Ainda precisava verificar se tinha combustível o suficiente para percorrer os 40 quilômetros diários. E se precisasse, teria que passar no posto para reabastecer.
Peguei as chaves e ela a bolsa. Ainda tinha uma fatia de bolo nas mãos. Não dei importância. Eu estava acostumado a ficar correndo de um lado pro outro tentando resolver as coisas. Pelo que eu percebi, ela não. Deixou várias vezes o casaco cair dos braços enquanto eu tentava colocar as coisas em ordem.

Enfim, o carro não tinha combustível o bastante. Precisei passar no posto, ou seja, duas curvas a mais que o normal, então aproximadamente quinze minutos de atraso, se o trânsito estiver bom, coisa que eu duvidava muito.
- Marcos - ela disse, suavemente - posso descer pra comprar um maço de cigarros enquanto você reabastece?
Eu hesitei. Desde quando Erica fumava? Bom, havia muitas coisas que eu não sabia a respeito dela ainda. Tínhamos pouco mais de um mês de namoro e acredito que esse seja o tipo de coisa que demoramos a perceber.
- Claro, mas acho que nunca te vi fumando...
- Não mesmo, detesto cigarros. Mas é que eu derrubei o maço do meu chefe numa poça de lama e fiquei devendo um para ele.
Fiz cara de desdém. Isso explicava MUITA coisa. Principalmente o porquê tinha lama na bota dela na semana passada.
- Podemos ir jantar fora hoje? Ontem a lua estava tão bonita que eu queria dar uma saída hoje pra vê-la melhor.
- Ela vai continuar do jeito que estava ontem?
- Claro, são três dias que ela vai ficar assim. Hoje é o último. Você não tem de fazer hora extra hoje de novo, tem querido?
Odiava que me chamassem de querido. Parecia até um termo irônico. Claro que vindo da Erica, tudo ficava mais fofo. Ou mais aterrorizante, depende do caso. Então, por isso, apenas concordei e disse que estava livre. E então voltamos a nossas conversas banais de sempre, sobre livros, música, a roupa que a colega de trabalho dela estava usando (essa parte não prestei muita atenção, mas aposto que foi algo extremamente divertido. Ela falou com ânimo e é o que importa.).

Aproveitei para calibrar um pouco o pneu. Sentia que estava um bocado murcho na parte traseira. Nisso veio um rapaz me cumprimentar. De onde surgiu, não sei.
- E aí Marcio, quanto tempo!
- Hum... Meu nome é Marcos. Acho que está me confundindo com alguém.
- Mas é claro que não. Desde que te conheço você tem o mesmo carro. Não lembra de mim?
De fato, ele estava certo. Fazia oito anos que estava com o mesmo carro. Isso significava que o conhecia há menos tempo que isso. E eu simplesmente detesto encontrar alguém que me conhece e eu não lembro. Te faz se sentir como se estivesse se afogando: não tem saída, a não ser mergulhar mais fundo.
- Marcos, vamos?
Erica. Por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa. Agora posso me livrar desse cara chato sem lembrar quem é... mas...
- Juan, você por aqui?!
- Erica! Meu Deus, você conhece o Marcos!?
- Claro, estamos namorando. Nos conhecemos através da Rosana, a irmã do Julio.
- Nossa, que bacana. Agora vou ter que ir. Fico contente que vocês estejam juntos, formam um belo casal.
Não sei por que, as palavras dele não me encorajavam. Parecia até que vinha algum rancor. Mas, o que importa, é que realmente não lembrava dele.
Fomos para o carro para que eu pudesse levar Erica até o trabalho dela. Ficava quase tão longe quanto o meu, mas pelo menos ficava perto um do outro. Isso era bom e ruim ao mesmo tempo.

- Não sabia que conhecia o Juan.
- Nem eu sabia que o conhecia. Não me lembro dele. E ele parece que me conhece tão bem.
Erica levantou a sobrancelha. Deu uma tossida de leve e pôs uma dessas balas de hortelã na boca. Enquanto ajustava o cabelo no espelho do quebra-sol, disse.
- Ele é meu primo. E se não me engano vocês fizeram o mesmo curso na faculdade. Será que vocês não eram da mesma turma?
Putz. Erica, por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

No Café

Eu sabia que tinha um sorriso idiota na cara. Mas também sabia o quão inevitável ele surgira no meu rosto.
Estava sentado em uma das cadeiras mais baixas, encostado a uma mesa pequena, longe do balcão e em frente ao vidro. Olhava para o lado de fora do café com uma freqüência que diria que era até absurda. Revirei meu pulso, acho que pela sétima ou oitava vez, e vi que o horário ainda não tinha mudado. Duas e quinze, ainda estava quinze minutos adiantado.
Olhei para o prato a minha frente. O croissant de queijo estava com uma aparência horrível, como se tivesse sido atropelado pela manada de mamutes gigantes e frio como se tivesse sido colocado no congelador, ao invés do forno. O café estava amargo, mas eu não reclamava. Pedi sem açúcar, pois fazia algumas horas que eu não dormia e precisava me manter acordado por mais algumas. Talvez o açúcar não me fizesse muito bem também. Mas não estava preocupado com nada disso.
Olhei para o celular e vi que meu pulso não mentia. Estava quinze minutos adiantado. Não sei pra quê diabos resolvi chegar mais cedo, afinal, eu sempre chegava atrasado. Mas hoje era uma exceção a qualquer coisa.

A porta do café se abriu. Finalmente. Afinal, ELA estava atrasada. Dez minutos. Naquele dia jurei a mim mesmo que nunca mais ia me atrasar a qualquer compromisso.
A princípio, ela não me encontrou. Lógico, eu estava de óculos escuros. Quando percebi, eu os tirei do rosto e dobrei cuidadosamente em cima da mesa, enquanto ela vinha e se sentada exatamente a minha frente.
Ela logo veio se desculpando do atraso, que tinha acontecido um funeral de mosquito na casa da tia da irmã do vizinho da cunhada dela, ou algo que o valha. Talvez fosse até menos dramático. Fingi não ter ligado, mas estava bufando por dentro. Me senti um pastel mal comido.
De alguma forma, ela estava mais bonita que no dia anterior. Não sei se tinha cortado os cabelos louros, ou se simplesmente tinha os colocado atrás das belas orelhas que ela possuía. Na verdade, ela estava tão bela quanto nos outros dias, mas é que meu humor estava um bocado melhor. Apesar da raiva pelo atraso.
-Fico feliz que tenha vindo – Eu disse, sem ter a plena certeza disso – Eu realmente estava precisando de alguma… companhia.
Frisei a ultima palavra, mas sem nenhuma malícia. Mas pelo jeito ela não havia me entendido. Ela ergueu a sobrancelha e me encarou com os olhos dourados. Olhos estes que eu achava os mais lindos de toda a galáxia. Não que tivesse visitado algum outro planeta.
Ela bebericou um pouco da água que acabara de chegar e pediu um chá gelado com torradas. Quem diabos come torradas às duas e quarenta da tarde? Enfim, preferi não me desviar do foco. Assim que o garçom se fora, ela voltou a me encarar com os brilhos dourados.
-Eu tenho que me desabafar com alguém, e achei que talvez fosse a pessoa ideal para isso. – expliquei rapidamente, vendo que a postura dela ficara mais relaxada com a minha afirmação. Talvez ela estivesse achando tudo um tédio. Mas eu não tinha opção. Eu realmente precisava de companhia. E ela era a única disposta a me ouvir. Bom, se bem que eu gostava mesmo da companhia dela, mesmo quando ela grunhia alguma coisa sem sentido, como ela fez agora.
-Bom, entendo que esteja em condições um tanto precárias. É dinheiro o problema? – soltou ela, num segundo.
Eu olhei pro lado. Estava eu mal vestido ou algo assim? Fingi que sequei o suor no braço, mas estava verificando se estava cheirando mal. Nenhum cheiro. Pense no meu apartamento, mas tinha acabado de reformar.
Ela percebeu o que tinha falado e se desmanchou em risos. Murmurou que era uma piada e pediu pra eu prosseguir. Fiquei mais tranqüilo, mas não o suficiente. Talvez minha camiseta estivesse surrada e eu não tivesse percebido. Meu cabelo, talvez. Mas resolvi prosseguir.
Contei que, na verdade, ando muito tempo dentro de casa, e fazia algum tempo que não via algum amigo ou algo que o valha. Que ultimamente tenho sentido um bocado sonolento e que achava que estava emagrecendo anemicamente. Ela riu novamente conforme eu mudava de assunto com uma rapidez um bocado bruta.
-Fazia tempo que não me divertia tanto. – ela me disse. Acho que estava tentando me animar, pois contei de uma experiência traumática de quando uma barata subiu na mesa da cozinha e eu quebrei o prato, tentando matá-la. E ela fugiu. – E não digo isso tentando animar! –Ela adivinhou meus pensamentos.
Ela me contou como está tendo problemas com a família. Não conseguia arrumar trabalho e os irmãos não a ajudavam a cuidar da casa. Que comiam feitos porcos a aposentadoria do pai. Que o namorado da amiga estava dando em cima dela. E como não conseguia se socializar com ninguém.
Com relação a essa ultima afirmação, achei um tanto precipitada. Ela era uma pessoa muito simpática, mas as pessoas a subjugavam pela beleza. Afinal, mulher bonita não devia ser inteligente. Ou de companhia agradável. Apenas boa de cama. Coisa que nunca concordei duzentos por cento.

Olhei no relógio. Cinco e trinta. Ficamos duas horas e alguns milhares de minutos conversando tolices, sentados e eu nem havia percebido que já tinha começado a ficar escuro. Fora, realmente, uma tarde um bocado agradável.
Ela também sacou um celular azul da bolsa e conferiu as horas. Perguntou se nos veríamos mais vezes e eu afirmei que sim. Lógico, nunca imaginei que me divertiria tanto sentado num café de quinta conversando groselhas com alguém. Convidei-a para ir ao meu apartamento na noite seguinte, para um jantar e ela concordara com um sorriso.
Paguei a conta. Não queria que ela realmente pensasse que eu estava querendo dinheiro. Coisa que eu realmente não precisava, afinal, tinha acabado de receber um abono do meu serviço. Levantamos-nos e eu a levei para casa, a dois quarteirões dali. Conversamos mais groselhas a caminho da casa dela, enquanto riamos feito loucos, contando das vezes em que nos encontramos (assumo, foram poucas). Ficamos ao portão da casa dela conversando, quando realmente chegou a hora que ela precisava entrar. Eu, estabanado como sou, fui cumprimentá-la com um aperto de mão formal. Ela segurou minha mão e me puxou para um beijo no rosto. Não sei se mencionei, meus movimentos são um bocado retardados, então não virei o rosto direito.
Acabamos trocando um pequeno selinho. Coisa que, particularmente, eu não estava esperando. Separamos-nos e ela ficou um pouco corada. Ela abaixou os olhos e vi algo no rosto dela que nunca tinha visto. Resolvi me aproximar de novo e beijá-la pra valer.
Encostei meus lábios nos dela uma vez. Apenas encostei. Me separei pra ver o efeito e vi que ela não fizera nada contra. Pelo contrario, ela sorriu. Encostei meus lábios no nariz dela e ela deu uma risada. Sempre fui de ficar tentando as pessoas quando vou beijá-las. Cria um clima engraçado. Expectativa, talvez. Encostei meu lábios pela terceira vez nos lábios dela, enquanto passei as mãos pela cintura fina dela. Ela jogou os braços por trás do meu pescoço e retribuiu meu beijo.
Ficamos assim por algum tempo, até que decidi que era hora dela entrar. Me afastei carinhosamente, dando um último beijo na ponta de seu nariz e disse um ‘até amanhã’.
Esperei ela entrar, enquanto ela mandava um tchauzinho da porta. Me afastei com a sensação de que várias coisas a partir dali iam mudar na minha vida. Começando pelo fato de que nunca mais ia me atrasar para um compromisso. E perceber que nunca tinha me apaixonado de verdade por alguém até agora me deixou feliz.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sabedoria

Eu não envelheci. Sempre fui velho. Apenas ganhei experiência durante todos os anos que vivi.
O tempo não me dera todas essas rugas. Eu as adquiri passando várias manhãs olhando o sol, enquanto ele batia no meu rosto, junto às pessoas de que gosto.
Minhas pernas doem, sim. Mas eu sei que doem porque eu as usei bastante. E me foram muito úteis até agora.

E por mais que tudo aconteça, não consigo me arrepender de nada que fiz. Sei que não posso corrigir o passado, então não há com o que me preocupar.
E também não perderei tempo adivinhando o futuro. Ele virá, em seu momento certo. E não terei oportunidade sequer de pestanejar.

Quanto à morte, eu já não tenho mais medo. Ela virá, sim, e é a única certeza de que tenho na vida.
Minhas experiências? Bem, elas não são guardadas como as suas, em caixas, livros ou papeis. São guardadas em uma câmara escura, que quase não entro mais, mas que levo comigo aonde for. E eu as levarei sempre comigo, seja lá onde for.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Acaso

...e no chacoalhar do coração e no balanço do ônibus, Cintia não mais ligava pra sua péssima atuação no teste admissional. Se as dores de cabeça deixassem de existir, talvez Ronaldo nunca tivesse cruzado seu caminho.

Aliás, será que o nome da pessoa que segurava sua bolsa era Ronaldo? De que importava se, na verdade, o sorriso oferecido era sincero? Aliás, será que o nome da dona da bolsa era Cintia?

Se as dores de cabeça deixassem de existir, talvez Cintia nunca tivesse cruzado seu caminho. E no chacoalhar do coração e no balanço do ônibus, Ronaldo não mais ligava pra sua péssima saúde...

domingo, 30 de novembro de 2008

Pedido a Órion

Eu sinto um frio enorme. Meus pêlos se eriçaram e não posso controlar minha velocidade de reação. Os passos ficam mais lentos, gradativamente, e vão se perdendo por entre as calçadas. Tenho uma blusa na bolsa, mas meus braços não alcançam.
Talvez seja porque eles sabem que o frio externo não é o único presente. Mesmo com blusa, ainda estaria com frio.

A noite que se espalhava era bem estrelada. Eu podia pensar em várias coisas naquela hora, mas aquilo que me vinha à mente era sobre uma única coisa: Órion. Ele reluzia com todo o seu esplendor e sua graça mirabolante. Sempre fui de admirar as estrelas e suas fabulosas personalidades. Personalidades essas que constantemente comparecem em meus sonhos e caminhos paralelos.
Órion era um exemplo. Sempre era um guerreiro de atitude admirável. Digo mais pela aparência, pois nunca emitira uma única palavra. Se bem que, não posso ver claramente seu rosto hoje, mas sei que já o tive bem próximo a mim. Ignore o pleonasmo.
Não havia qualquer motivo para sentir frio, mas por um único momento eu sentia que podia sentir qualquer coisa que não tivesse qualquer proximidade a mim. Foi quando eu a vi pela primeira vez.
Aquela folha, quase seca, solitária, no chão.
Ate então, estava misturado ao vento. Ninguém nas ruas me via, apenas sentiam a minha presença. Eu poderia soprar, mas as sementes de dente-de-leão só iriam se soltar se eu realmente me concentrasse e as olhasse fixamente. Eu não tinha velocidade fixa. Eu não tinha som. Eu não pesava nada. Ate aparecer à folha e eu entendi tudo.

Apelei a Órion que me ouvisse e que, ao menos uma vez mais, fosse um humano e pudesse me acompanhar todo o tempo. Durante o apelo, senti que seria impossível, mesmo se quisesse pois, se realmente acontecesse, Órion seria mais um humano ocupando espaço na minha cabeça. Não poderia me dar o luxo de guardar mais alguém. Assim, mudei meu apelo imediatamente insistindo para que apenas me ouvisse e, conseqüentemente, meu mais novo desvario.
Assim como a folha arrancada da árvore, eu flutuava com o vento, não era nada mais que aquilo e, na realidade não importava mesmo. Mas o prazo era excepcionalmente curto e, a seguir, a folha iria secar. Ele tinha cumprido com sua função na arvore, assim como sua vez de ir embora chegara. Despediu-se de suas iguais e voou como uma folha, por pouco tempo até atingir o solo. E então se preparou para a maratona de tempo até secar.

Órion, antes de ver a folha, eu me senti como se não estivesse pisando no chão. Eu me sentia como se estivesse flutuando.
Órion, eu acho que ainda falta uma coisa para eu completar minha estadia. E então já posso murchar.Só lhe faço uma pergunta, Órion.

Era o meu vôo?

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Túnel do Tempo

Samuel

Provavelmente, quando você ler esta carta, eu já não estarei por perto. Mas apesar disso saiba que vou estar sempre com você.
Por favor, não se sinta assustado por receber esta carta agora. Você sabe que eu a escrevi e até lembra que eu a escrevi. Apenas não sabe o que foi que resolvi dizer sobre mim.
Enfim, deixe-me dizer algumas coisas.
Se tudo aconteceu como esperado, agora você deve estar num conflito enorme. Deve ter lido aquele livro que tinha me dito que ia ler. O seu conflito deve estar a tal ponto que não sabe nem mais diferenciar o que é ou não é real. A única coisa que posso lhe prometer é que esta carta é o mais real que eu já escrevi na vida. Porem, apesar de todas as dificuldades que deve ter passado psicologicamente, o livro deve ter te aberto uma série de novas visões sobre essa sua idealização infantil que você insiste em ter de tudo.

Digo-lhe que, essa sua ingenuidade vai lhe trazer imensos prejuízos, querido.

Se sua vida fosse um teatro, a sua cena estaria bem curta e com várias falas esquecidas. Não leve isso a mal, pois geralmente nessas horas é que surge a grande emoção e você faz algo melhor que o premeditado. Talvez. Às vezes você se embroma e leva uma bela tomatada na cara, se o publico não aprovar sua cena. E você esta a um passo de levar uma tomatada.

Se sua vida fosse uma musica, por exemplo, ela seria bem comprida, daquelas de 9 minutos de duração, que altera constantemente o fluxo de minuto a minuto. Mas, apesar dessa mudança continua, torna-se macilenta e facilmente pulável, quando se quer ouvir na verdade musica boa. Você pode até querer usar uma frase dela pra representar certa fase, mas você certamente não a ouvira com freqüência. E você esta a um passo de trocar o CD.

Se sua vida fosse um esporte, seria algum bem divertido, como frescobol. O nome já diz o que você é, mas não é por isso que eu digo. É aquele tipo de esporte que é uma delicia de observar (tirando um ronco, é claro), mas quando vai jogar, descobre-se ser o ser mais desajeitado do mundo pra isso. É! Aquela beleza de coisa. Certamente dizemos “Isso qualquer um faz!”, mas na sua vez diz apenas “qualquer um menos eu, não entende?” sabe, sua ironia faria muitos darem risada do seu desenvolvimento, mas provavelmente, você mesmo não agüentaria mais.

Se sua vida fosse um livro, teria quatro páginas. Na verdade, acho que não teria texto algum, seria um livro de gravuras. Você é muito evasivo pra ter qualquer linha que possa descrevê-lo de alguma forma. Por que DE ALGUMA FORMA (como eu adoro dizer isto, espero que você goste), você é tão sem graça que na verdade não merece uma descrição. Claro, não é isso que as pessoas ao redor dizem (dizem pior, pode acreditar! Basta você olhar nos meus amigos, que não sei se são os mesmos que os seus.). Enfim, essas gravuras seriam poucas. Seria uma foto do seu olho, do seu tênis, da sua unha roída, do pote de balas, do seu livro amarrotado em cima de uma estrutura qualquer e alguma coisa que você mesmo pode deduzir que seja, pois eu estou sem a mínima criatividade pra deduzir agora.

Sabe, eu me canso às vezes de falar. Como você deve saber, pois acho que me conhece ao menos um mínimo pra saber disso, tenho muitas coisas a falar, tanto que as palavras me transbordam da boca. Mas é tal a secura da minha garganta que elas se perdem e vão parar em algum outro buraco do meu corpo (nariz, por exemplo). Às vezes, minhas mais profundas declarações são feitas pelo nariz, com um belo espirro. É bem mais fácil eu dizer que amo alguém espirrando que gritando pra meia dúzia de pessoas, se é que você me entende. Mas sabe, sinceramente, você não se importa com esse tipo de emoção, porque eu não me importo e se eu não me importo você provavelmente não se importara também.

Claro, há muitas semelhanças entre nós, Samuel. Talvez o cabelo. Brincadeira! Mas se há alguma semelhança, foi tentando fazer uma diferença. E se há alguma diferença, foi tentando gerar uma semelhança. Olha, eu posso dizer todas essas baboseiras que você provavelmente não vai sequer se preocupar em ler até o fim. Eu posso escrever: “eu comi purê de batatas de chinelo” que você nem vai saber que eu escrevi. Quando estiver lendo esse parágrafo sua cabeça vai estar tão longe pensando que eu falei sobre o bendito conflito da quinta ou sexta linha dessa carta, que sequer quer saber do que estou falando. Te conheço. E, alias, se eu disser que se alguém lhe perguntar por essa carta você vai fazer aquela enrolação super maravilhosa que só você consegue fazer, plantando todos os chumbos na horta da vizinha.

Enfim, digo muitos disparates sem me dar conta disso. Eu, na verdade, Samuel, só quero que você não seja tão tolo quanto eu sou. Só quero que saiba que, sendo quem você for, eu estarei sempre contigo, mesmo você não sabendo que eu existo.
Porque eu faço parte de você, como você faz parte de mim sem eu sequer ter te visto.

Espero que tenha entendido o que quis dizer em pelo menos 4 dessas várias linhas de papel amolecido.

Obrigado por me aturar.
Com carinho.
Samuel.