quarta-feira, 9 de março de 2011

À Deriva

Estávamos à deriva. Éramos dependentes do mar e do vento. Talvez até mesmo da estação Lunar. Como botes encalhados, esperando boas condições para o resgate. Como velas alçadas, quase hasteadas. Como âncoras sendo liberadas.

Era carvão, aguardando o fogo para combustão. Era como qualquer metáfora que dependesse de ação para reação. E este estado era definitivo, interminável, eterno, irreversível.

Porém não podia ser assim.

Apesar de esperar, algo acontecia até todo o processo ocorrer. Não que houvesse autocombustão ou auto-hasteamento. Mas mesmo botes encalhados mandam seus sinais de socorro. Estávamos à deriva, sim. Mas não totalmente imobilizados. O mar, o vento, a estação Lunar eram variáveis inconstantes. Nossa condição não.

Assim como o carvão a espera da combustão, éramos humanos, a espera da morte.
Mas nem por esse motivo deixamos de viver plenamente. Afinal, definitiva, interminável, eterna e irreversivelmente, estávamos à deriva.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sonhos em Luz e Plástico

As luzes. Cada minúsculo ponto brilhante daquela avenida consumia uma pequena potência de existência.
Havia bonecos em forma de bonecos, bolas em forma de bolas, sonhos em forma de pequenos farelos brilhantes que circundavam todos os glóbulos das lâmpadas que apareceram ao correr aquela semana pela cidade.

Um gracioso e reluzente Boneco de Neve de plástico brilhava por entre vários Pirulitos verdes e vermelhos. Todos possuíam nariz de Cenoura de Plástico, Cartolas de Veludo Negro de plástico, Cachecóis quentes e peludos de plástico e luzes extra-coloridas, dando uma majestade maior do que realmente aparenta ter um Boneco de Neve num país tipicamente tropical. Mas o sorriso daquele pequeno monte de plástico aparentemente inútil fazia com que os rostos de diversas crianças de todas as idades refulgissem a luz daquela noite pouco estrelada de uma época nublada. Panapanás coloridas de plástico voavam em bandos para lugar algum, em círculos eternos sobre uma armação de arames, transformando o ato de voar num singelo tempero alegre noturno e adocicado.

Gigantescos pinheiros concentrando as diversas cores em sua imensa extensão, onde em suas raízes estavam as esperanças e felicidades das crianças que esperavam um brinquedo. Bolas magistrais sempre nas mesmas cores pendiam de seus galhos como se fossem frutos de uma época inexistente, porém que pareciam saborosos aos olhos. Outros frutos também pendiam de outros postes, sempre com cores Rubras ou derivadas, mas nunca trazendo discórdia ou algo do gênero. Pelo contrário, acalmava corações aturdidos com bilhares de questionamentos.

Luzes tipicamente azuladas combinam com o Pseudo-Inverno da Estação veraneia. Luzes absurdamente verdes, fazendo os pinheiros parecerem maior do que realmente são. Vermelho forte, combinando com sentimentos intensos dos variados tipos de pessoas que por ali andavam. Amarelos e dourados chamativos, para que as pessoas acreditassem que era a época de ouro do ano. Prateados e Alvo, lembrando pássaros incrivelmente brancos que simbolizam tranqüilidade. Violetas, trazendo todo o mistério presente na imaginação absurdamente fértil dos humanos.

Uma criança parou na rua, apontou para uma pequena gravata iluminada e chamou sua mãe. Aparentemente, seus olhos refletiam a mesma intensidade, senão superior, a das luzes que eram emitidas pelas gravatas. Seus olhos lacrimejaram de graciosidade e um sorriso surgiu rapidamente no rosto. Outra criança parou e encarou o boneco de neve, com as sobrancelhas levemente arqueadas começou a questionar seu avô sobre a neve e como é feita. Seus ouvidos eram atentos a estória contada pelo feliz ancião. Uma terceira criança olhou para o grandioso pinheiro e o mostrou ao pai. Pai este abriu um gigantesco sorriso e abraçou o filho bem apertado, como se aquele fosse o seu pertence mais precioso. Outra criança olhou brevemente uma das borboletas no arame, lembrou de seus natais antigos, e abriu um sorriso para suas filhas .

E assim, todas as crianças iam olhando para o alto, com os rostos levantados, sempre com os olhos brilhando. Cada uma com uma reação diferente, mas todas com o brilho daquelas diversas luzes, de diversas tonalidades, refletindo todos os sentimentos que esperaram todo um ano para sentir novamente.

domingo, 26 de setembro de 2010

Convite

Não obstante a todo esse universo, devo lhe dizer, Joana, que posso trazer-lhe o Sol, ou levá-la as estrelas. Não é simplesmente mais uma dessas minhas declarações apaixonadas ou algo que o valha, sinto lhe dizer. Mas é que o novo planetário da cidade já está aberto à visitação.

Outro detalhe que gostaria de frisar foi que ontem me encontrei com seu irmão, Miguel. Conversamos um bocado e ele me disse gentilmente a posição dele com relação a minha estadia na sua casa. Fiz questão de lhe contar sobre o dinheiro que ando gastando, o financiamento do meu novo apartamento e o meu pedido de noivado.
Apesar de termos conversado um bocado, foi uma conversa curta, uma vez que meu pai aparecera pedindo para que eu o levasse ao médico. Sabe que a saúde dele não é das melhores... Enfim, ele está bem, era só uma dor de cabeça mais forte.

Com relação aquela carta de atraso do pagamento da conta de telefone que chegou, liguei e resolvi o problema. O sistema estava com algum defeito e por isso não haviam contabilizado o pagamento. Passei um fax com o recibo de pagamento e eles que se resolvam. Hehe, Fax, que coisa antiga.
Sua Tia-Avó Mirele ligou. Ela pedira para que você retornasse a ligação o mais cedo possível. Ela irá convidá-la para passar umas semanas na Noruega junto com ela. Eu sugiro que você ligue o quanto antes, afinal, como você mesma disse, o humor dela é um bocado inconstante.

Como você percebeu Joana, deixei esta carta dentro de um livro, na exata página onde o marcador estava. Sugiro que leia a página 257 novamente, deixei uma frase sublinhada que gosto pacas.

A Cleide também ligou. Deixei esta por último para fazer suspense. E adivinhe... ahã.... Você começa na quarta! Deve ir por entre hoje e amanhã para assinar o contrato e pronto. Não é genial? Fico feliz que você tenha conseguido essa vaga, Joana.

Deixe-me encerrar por aqui. Te amo
    Ao infinito
           E Além.
           Eduardo.

sábado, 28 de agosto de 2010

Auto-Análise

Acredito eu que determinadas coisas sofrem mudanças drásticas. Outras, certamente nunca mudarão. Eu diria que várias das frases que eu disse algum tempo atrás, de hoje nada me valem, assim como por vezes encontro vestígios do passado que não parecem terem pertencido a mim.
Muitos dos ideais que possuo hoje, de fato, são diferentes dos ideais anteriores. Muitas vezes, eu diria até que vergonhoso. Mas, apesar de poder lançar uma espiadela por cima do meu ombro, sei que não ignoraria tudo aquilo que já ocorreu. Tudo aquilo que passou construiu o meu caráter [ou a falta de] de hoje.
Não digo que nunca me arrependi de algo que tenha feito. Sou capaz até de afirmar que grande parte das coisas que fiz, ou que deixei de fazer, são frutos que hoje colho de arrependimentos. Por diversas vezes, olho tudo o que aconteceu e penso ‘Puxa, como fui imbecil’. E que atire um ovo na minha testa quem nunca pensou isso de si mesmo:

Para começar, preciso frisar que durante dois anos infernais eu tive muitos problemas sociais. Eu sei que melhorei bastante, não o suficiente talvez para muitos, mas acredito que se tivessem me conhecido nessa época, sem dúvidas não me aturariam como aturam hoje. Afinal, em todo ambiente que entrava, sentia um grande vazio, em termos mais precisos, como um grande ‘Intruso’. Num texto deplorável, deixei bem clara essa minha opinião.
Lembro que disse uma vez que ‘Por amor, esperaria num deserto’. Seria uma calúnia eu dizer isso, uma vez que naquele tempo eu não tinha a menor noção do que seria amor. Não que hoje eu tenha uma visão ampla sobre este aspecto, mas sei bem aquilo que eu imaginava, não era amor. Acredito que falta muita maturidade pra saber o que, de fato, é amor.
Em outro momento, lembro que estava tão envaidecido que disse ‘Desencontros e dados rolam como foices do destino’. De fato, é uma frase bonita de se ler. Só que o contesto sob a qual fora escrita é tão simplório que se torna até, eu diria, nojento de se ler.
Também já disse que ‘Admiro as estrelas e suas fabulosas personalidades. Personalidades essas que constantemente comparecem em meus sonhos e caminhos paralelos. ’ Até hoje, tenho um respeito enorme pelas estrelas e seus fascinantes brilhos. Penso, até que amargamente por vezes, por que não resolvi trilhar o caminho delas. Talvez tudo que conheço hoje, não existiria. Seria tudo absurdamente diferente a ponto de talvez não reconhecer o meu próprio semblante.
E por fim, nessa auto-análise, lembro-me bem de quando fiquei a devanear sobre portais, idealizações, mundos alternativos e fiquei pensando o que faria eu se encontrasse uma dessas Realidades Alternativas. Tenho por absoluta certeza [Redundância, quem vai falar algo?] Que tenho a mesmíssima opinião daquele tempo: ‘[...] eu ficaria preso no portal’. Acho que sempre fui e sempre serei confuso co relação a escolhas drásticas de rumo.

Provavelmente, daqui a algum tempo, eu venha a ler esta análise barata e venha dizer o quão deplorável está. Porque, descobri eu, que quanto mais tempo passa, menos desprezível eu sou, fazendo assim eu tornar uma pessoa melhor e, talvez, feliz. Porque descobri que isso, na verdade, é bem mais fácil do que eu imaginava.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Felicidade Satisfatória

Meu pai sempre foi daquele tipo de homem que saia de casa logo pela manhã com o jornal embaixo do braço e o terno bem arrumado, sem nenhuma dobrinha e com o cabelo arrumado todo certinho, impecável. Levava eu e minha irmã para o colégio e rumava ao serviço. Ligava ao meio dia em casa pra saber se estava tudo bem e mandava um beijo pra minha mãe. Chegava em casa as sete em ponto da noite, com o terno em cima do ombro, o óculos meio tombado e o cabelo antes todo arrumadinho, meio bagunçado. Dava um beijo na minha mãe, ia tomar banho, colocava sua pantufa e ficava no sofá até a hora de dormir.

Minha mãe sempre foi daquele tipo de esposa dedicada. Acordava meia hora antes de o papai sair pra trabalhar e fazia-lhe o café que cheirava a quarteirões de distância. Buscava o jornal na porta e colocava em cima da mesa, aberto na página favorita do meu pai, as notícias econômicas. Preparava o café da manhã com devoção e uma alegria sem tamanho. Quando chegávamos do colégio, o almoço já estava quentinho na mesa já arrumada. Às vezes, enquanto mamãe estendia a roupa no varal, parava para conversar com nossa vizinha ou para espantar Toby, nosso cachorro, da roupa lavada. Papai chegava e mamãe servia-lhe seu prato preferido, que era o refogado de abobrinha, que eu e minha irmã fazíamos cara feia ao comer. Mas papai dizia que ia nos deixar forte, então comíamos sem reclamar. Mamãe via TV com papai enquanto fazíamos nossos deveres.

Minha maninha sempre foi aquela nerd e insuportável. Ela tinha dezessete anos e era conhecida como a ‘sabidinha’ da sala. Acordava cinco minutos antes que o papai, fazia sua série de alongamentos, tomava banho e colocava o uniforme do colégio. Ficava me aporrinhando para levantar logo. Abria a janela do meu quarto me obrigando a levantar. Arrumava o material que ia precisar para aquele dia e ia para a cozinha, ajudar mamãe a preparar o café. Quando eu chegava, ela estava comendo aquele cereal horrível. Sentava no banco da frente do carro do papai, onde ficava brincando de trocar a estação da rádio ou ficava se vangloriando da sua ultima nota dez no colégio, onde ficava o recreio todo na biblioteca estudando. Ela me esperava na porta do colégio, onde voltavamos a pé para casa, conversando sobre as peculiaridades do dia. Chegava em casa, ela arrumava o quarto e voltava a estudar. E ali ficava até o jantar.

Sempre me chamaram de folgado. Sempre fui o último a levantar, mas nunca viam que eu sempre era o último a ir dormir. Sempre acordava com minha mana abrindo a janela e pulando na minha cama. Eu espreguiçava e ia pro banho. Trocava-me e ia tomar o café com maninha, mamãe e papai. Papai falava sobre algum índice novo da bolsa de valores, mamãe contava sobre os lençóis novos do vizinho e maninha tagarelava sobre o que o professor disse do último trabalho dela. Despedia-me de mamãe e ia com papai pra garagem, onde ele sempre comentava da minha altura. Sentava-me no banco de trás do carro, ligava meu foninho de ouvido pra não ouvir minha mana falar asneira e dormia no carro, até o colégio. Lá sempre me divertia pacas. Meus colegas eram uns palhaços que só sabiam conversar coisas inúteis. Sempre saía mais tarde da sala, conversando com eles, e encontrava minha maninha na porta do colégio, me apressando pra ir embora logo. Chegávamos em casa, almoçávamos a comida fresquinha da mamãe. Eu ia pro meu quarto, ouvir música, ver TV, jogar algum jogo ou ficar a toa. Papai chegava, íamos pra sala de jantar, fazíamos nossa refeição e ajudava mamãe a tirar a mesa, todos bem animados. Fazia um pouco dos deveres, ficava um pouco na sala e ia dormir.
Todo sábado fazíamos alguma coisa em família. Ou íamos à casa da vovó, ou íamos ao parque levar o Toby pra passear, ou íamos a algum restaurante ou alguma coisa do gênero. Domingo acordávamos todos cedo, íamos a Igreja e voltávamos, conversando alegremente sobre as coisas da semana que tinham acontecido.

Felicidade Satisfatória.

Mas eu sei que meu pai nunca quis ser economista. Sei que o sonho dele foi ser professor de música junto com seu colega da primeira faculdade dele, Artes. Sei que ele detesta refogado de abobrinha e que tudo que ele mais gosta de comer é o cachorro quente que vende em frente ao escritório dele. Sei que ele casou jovem demais com a mamãe, mas ela já estava grávida da maninha. Sei que, pra dizer a verdade, ele ainda se encontra com o amigo de faculdade, e que eles sempre saem juntos, sem a mamãe perceber. Também sei que papai só dirige para nos levar ao colégio. Ele detesta assumir a direção do volante.

Eu sei que mamãe tinha outros sonhos quando jovem, antes de ter minha maninha. Ela queria ser jornalista e, para pagar a faculdade, trabalhava como monitora de berçário. Percebo a tristeza nos seus olhos toda vez que chega alguma carta de amigas de faculdade dela. Sei que ela detesta cachorros e, conseqüentemente, nunca aceitou Toby totalmente. Sei que ela detesta o trabalho de dona de casa, faz o faz parecer divertido para não se aborrecer. Aliás, também sei que ela toma vários comprimidos para depressão, tentando se esquecer do acidente que matou o pai dela.

Minha maninha tem taras enormes pelo Rogério, o garoto popular do colégio. Tanto que as garotas de lá vivem tirando o sarro dela por causa de uma declaração que ela fez sem saber que estava sendo gravada. Sei que quando ela diz que vai dormir na casa da amiga dela sexta à noite, na verdade as duas estão indo para alguma balada, pois ouço quando ela chega às seis da manhã nas pontas do pé. Também sei que ela esconde alguns comprimidos embaixo da cama, mas nunca me perguntei o que era.

Sei que nenhum de nós é católico, apesar de irmos à igreja toda semana. Sei que todos nós nos irritamos em levar Toby para passear e ter de recolher as fezes que ele deixa nas calçadas. Sei que ninguém mais tem paciência quando a vovó começa a contar as mesmas histórias, de quando era jovem e namorava o vovô. Sei que nenhum de nós suporta acordar cedo, a não ser talvez minha irmã.

Sei que quando colocava meu fone de ouvido no carro e dormia, na verdade, estava ouvindo minha irmã conversar com papai. E que quando ficava até tarde vendo filme ou ficava no PC, era porque papai e mamãe discutiam até tarde e eu não conseguia dormir.
Sei que é impossível se ter uma família perfeita. Sei que, socialmente, o significado da felicidade pode ser bem relativo. Sei que não somos todos felizes com nossas vidas.
Sei que eu me isolava o máximo que podia da minha família, mas era pra manter pra sempre o que eu tenho por uma família feliz. E assim somos.

domingo, 23 de maio de 2010

Ctônico

Hoje estava com as meias molhadas. Mas não havia o que ser feito a não ser caminhar para casa, como todo final de tarde. Milhares de pensamentos a lá Hipnos e Tânatos, de tão desditosos e enfadonhos. Fazia o que tinha de fazer quase que automaticamente, sem se preocupar em pensar. Uma vez que pensar era tedioso demais, pois quando se pensa em algo, está apenas valorando socialmente o que esse algo é, se preocupava em imaginar como poderiam ser todo o resto. Pensara em fugir para a mesma raiz de árvore, mas devido a Zeus e seu mau humor não-rotineiro do mês de maio, resolvera que o melhor lugar a se encontrar naquele momento era uma confortável cama com cobertas quentes.

Novos horizontes tem se aberto àquele rapaz. Eram bilhares de alternativas, de escolhas, de direções, de qualquer coisa que lhe poderia ser destinados. Era, sem dúvidas, o momento de maior glória, que ele jamais encontraria novamente. Era aquele o momento onde todo o futuro deveria ser planejado. Calmamente e sem antecipação, sem realmente precisar se adiantar, afinal, já estava bem adiantado.
Mas, definitivamente, não era isso que ele via.

Ao invés de ver tudo aquilo como alternativas a serem escolhidas, era visto como Hidras a serem domadas. Ao invés de escolhas, ele acreditava ser a grande escolha de Ulisses, entre Scylla e Caríbdes. Ao invés de direções, era possível distinguir o olhar dele como se visse os Campos Elíseos, o Tártaro e a Planície dos Narcisos. Não era possível ver o que pensava, pois nada era claro para ele, assim como se auto-destinara.
Se via como Prometeu ou Andrômeda. Acorrentado.

Por mais que soubesse que deveria ter de escolher o que seguir, o que acreditar, resolvera simplesmente se colocar nas raízes das árvores e contar o número de formigas que subia em suas mãos. E, por isso, ninguém o julgava muito capaz de fazer qualquer coisa, mesmo acreditando que tinha um Gênio brilhante. Talvez realmente o tivesse, mas não funcionava bem como queriam. Era inóspito a qualquer um que tentasse entender seu interior, mesmo porque saberia que ninguém o poderia fazer. Já desistira de criar esperanças a encontrar qualquer coisa que lhe entenda. Mas era tão simples de se compreender. O problema dos homens é simples: não querem nada simples. E era isso que faltava em alguém para que pudesse compreender tal complexidade: simplicidade.

Tudo que se deveria fazer foi deixado de lado. Necessidades físicas foram abandonadas. Sentidos biológicos foram abalados. Enquanto o calor se estende quando se sente confortável, o frio torna tudo mais descortês e um bocado sem cor. Afinal, cores são tão complexas quanto qualquer outra coisa. Talvez esse fosse o grande motivo das mãos dele serem tão geladas. Que combinavam perfeitamente com seus olhos, que emanavam certa energia dúbia. Aliás, mesmo Jano poderia ter dúvida do que era dito.

Definitivamente, os pensamentos que se tinham exprimido não eram dignos de Atenienses, mas eles soavam tão sonhadores e sem sentido que era como se algum Morfeu ou Ícelo dominasse o ar. Nada se mostrava muito lógico no que era dito, mesmo quando fazia algum sentido. Com isso, qualquer coisa era taxada como vil. Isso o fez parar de dizer tudo o que pensa.

Enquanto pensava no quanto estragara toda a construção e alguma forma não convencional de reparar o grande erro, já dentro do coletivo, passou uma senhora carregando uma pesada sacola, onde era possível ver comida enlatada de gatos. Ela o encarou diretamente nos olhos. Pela frigidez do rapaz, rapidamente desviou o olhar para a janela, onde só era possível ver pesadas cortinas de água descendo torrencialmente. Já tinha até se esquecido da senhora quando novamente virou-se e encontrou a senhora a encarar-lhe fervorosamente. Por instinto, logo imaginou que o cabelo estava bagunçado ou que a gola da camisa estava torta e tratou de se mirar no espelho do vidro para ver se procedia tal pensamento. Nada de anormal. Ele se virou uma terceira vez para a senhora e ela continuava a lhe encarar. E lhe sorriu.

"_ C'est l'Homme aux mille tours, Muse, qu'il faut me  dire, Celui qui tant erra quand, de Troade, il eut pillé la ville santé, Celui qui visita les cités de tant d'hommes et connut leur esprit. Celui qui, sur les mers, passa par tant d'angoisses, en luttant pour survivre et ramener ses gens. Hélas! même à ce prix, tout son désir ne put sauver son équipage: ils ne durent la mort qu'à leur propre sottise, ces fous qui du Soleil, avaient mangé les boeufs; c'est lui, le Fils d'En Haut, qui raya de leur vie la journée du retour.
Viens, ô fille de Zeus, nous dire, à nous aussi, quelqu'un de ces exploits..." (Homero)

O rapaz ergueu uma sobrancelha e começou a olhar através da senhora. Via outra senhora sentada ao seu lado, também o fitando, com um pequeno sorriso desbotado no rosto. A senhora segredou algo com a sua companheira, que passou do sorriso desbotado a um olhar brilhante. E voltou a encarar o rapaz.

Consciente de que estava encharcado, e que não havia outra escolha senão aguardar o final da viagem, o rapaz virou-se pra janela e ali permaneceu por um bom tempo. Não olhava as janelas propriamente ditas, mas sim algo que ninguém mais conseguiria enxergar. O fato de Apolo e Selene dominar o céu ao mesmo tempo enquanto chovia era algo que possivelmente era único. E o mais incrível, Iris deixara dois rastros entre sua passagem entre o Céu e a Terra.

Chegado o fim da viagem, levantara-se para descer e contemplar de perto os rastros de Iris, encontrara novamente as duas senhoras, descendo do coletivo. Ouvira algo como ‘Fim da Viagem, Dona Lá’ ou algo que o valha da senhora com a sacola de ração enlatada enquanto ela saltava do automóvel. Ambas as senhoras se encontraram com uma terceira senhora e ficaram a papear ali na calçada, onde várias pessoas se empurravam com pressa de passar. Enquanto o rapaz descia, as três o olharam com um sorriso e sussurraram algo como ‘Hora’.

Caminhando em direção ao sonhado cobertor, deduzira ele que tinha encontrado as Moiras e que elas já haviam decidido seu destino. Não havia o que se preocupar então, mesmo com relação a escolhas, alternativas, direções e destinos. Bastava existir para não mais existir. E tudo substancialmente sem aviso prévio. Então não há motivos sólidos para preocupações com qualquer coisa, bastava rumar.

Je reconnais, mon hôte, en toutes tes paroles, les pensées d'un ami , d'un pere por son fils: je n'en oublierai rien.