Meu pai sempre foi daquele tipo de homem que saia de casa logo pela manhã com o jornal embaixo do braço e o terno bem arrumado, sem nenhuma dobrinha e com o cabelo arrumado todo certinho, impecável. Levava eu e minha irmã para o colégio e rumava ao serviço. Ligava ao meio dia em casa pra saber se estava tudo bem e mandava um beijo pra minha mãe. Chegava em casa as sete em ponto da noite, com o terno em cima do ombro, o óculos meio tombado e o cabelo antes todo arrumadinho, meio bagunçado. Dava um beijo na minha mãe, ia tomar banho, colocava sua pantufa e ficava no sofá até a hora de dormir.
Minha mãe sempre foi daquele tipo de esposa dedicada. Acordava meia hora antes de o papai sair pra trabalhar e fazia-lhe o café que cheirava a quarteirões de distância. Buscava o jornal na porta e colocava em cima da mesa, aberto na página favorita do meu pai, as notícias econômicas. Preparava o café da manhã com devoção e uma alegria sem tamanho. Quando chegávamos do colégio, o almoço já estava quentinho na mesa já arrumada. Às vezes, enquanto mamãe estendia a roupa no varal, parava para conversar com nossa vizinha ou para espantar Toby, nosso cachorro, da roupa lavada. Papai chegava e mamãe servia-lhe seu prato preferido, que era o refogado de abobrinha, que eu e minha irmã fazíamos cara feia ao comer. Mas papai dizia que ia nos deixar forte, então comíamos sem reclamar. Mamãe via TV com papai enquanto fazíamos nossos deveres.
Minha maninha sempre foi aquela nerd e insuportável. Ela tinha dezessete anos e era conhecida como a ‘sabidinha’ da sala. Acordava cinco minutos antes que o papai, fazia sua série de alongamentos, tomava banho e colocava o uniforme do colégio. Ficava me aporrinhando para levantar logo. Abria a janela do meu quarto me obrigando a levantar. Arrumava o material que ia precisar para aquele dia e ia para a cozinha, ajudar mamãe a preparar o café. Quando eu chegava, ela estava comendo aquele cereal horrível. Sentava no banco da frente do carro do papai, onde ficava brincando de trocar a estação da rádio ou ficava se vangloriando da sua ultima nota dez no colégio, onde ficava o recreio todo na biblioteca estudando. Ela me esperava na porta do colégio, onde voltavamos a pé para casa, conversando sobre as peculiaridades do dia. Chegava em casa, ela arrumava o quarto e voltava a estudar. E ali ficava até o jantar.
Sempre me chamaram de folgado. Sempre fui o último a levantar, mas nunca viam que eu sempre era o último a ir dormir. Sempre acordava com minha mana abrindo a janela e pulando na minha cama. Eu espreguiçava e ia pro banho. Trocava-me e ia tomar o café com maninha, mamãe e papai. Papai falava sobre algum índice novo da bolsa de valores, mamãe contava sobre os lençóis novos do vizinho e maninha tagarelava sobre o que o professor disse do último trabalho dela. Despedia-me de mamãe e ia com papai pra garagem, onde ele sempre comentava da minha altura. Sentava-me no banco de trás do carro, ligava meu foninho de ouvido pra não ouvir minha mana falar asneira e dormia no carro, até o colégio. Lá sempre me divertia pacas. Meus colegas eram uns palhaços que só sabiam conversar coisas inúteis. Sempre saía mais tarde da sala, conversando com eles, e encontrava minha maninha na porta do colégio, me apressando pra ir embora logo. Chegávamos em casa, almoçávamos a comida fresquinha da mamãe. Eu ia pro meu quarto, ouvir música, ver TV, jogar algum jogo ou ficar a toa. Papai chegava, íamos pra sala de jantar, fazíamos nossa refeição e ajudava mamãe a tirar a mesa, todos bem animados. Fazia um pouco dos deveres, ficava um pouco na sala e ia dormir.
Todo sábado fazíamos alguma coisa em família. Ou íamos à casa da vovó, ou íamos ao parque levar o Toby pra passear, ou íamos a algum restaurante ou alguma coisa do gênero. Domingo acordávamos todos cedo, íamos a Igreja e voltávamos, conversando alegremente sobre as coisas da semana que tinham acontecido.
Felicidade Satisfatória.
Mas eu sei que meu pai nunca quis ser economista. Sei que o sonho dele foi ser professor de música junto com seu colega da primeira faculdade dele, Artes. Sei que ele detesta refogado de abobrinha e que tudo que ele mais gosta de comer é o cachorro quente que vende em frente ao escritório dele. Sei que ele casou jovem demais com a mamãe, mas ela já estava grávida da maninha. Sei que, pra dizer a verdade, ele ainda se encontra com o amigo de faculdade, e que eles sempre saem juntos, sem a mamãe perceber. Também sei que papai só dirige para nos levar ao colégio. Ele detesta assumir a direção do volante.
Eu sei que mamãe tinha outros sonhos quando jovem, antes de ter minha maninha. Ela queria ser jornalista e, para pagar a faculdade, trabalhava como monitora de berçário. Percebo a tristeza nos seus olhos toda vez que chega alguma carta de amigas de faculdade dela. Sei que ela detesta cachorros e, conseqüentemente, nunca aceitou Toby totalmente. Sei que ela detesta o trabalho de dona de casa, faz o faz parecer divertido para não se aborrecer. Aliás, também sei que ela toma vários comprimidos para depressão, tentando se esquecer do acidente que matou o pai dela.
Minha maninha tem taras enormes pelo Rogério, o garoto popular do colégio. Tanto que as garotas de lá vivem tirando o sarro dela por causa de uma declaração que ela fez sem saber que estava sendo gravada. Sei que quando ela diz que vai dormir na casa da amiga dela sexta à noite, na verdade as duas estão indo para alguma balada, pois ouço quando ela chega às seis da manhã nas pontas do pé. Também sei que ela esconde alguns comprimidos embaixo da cama, mas nunca me perguntei o que era.
Sei que nenhum de nós é católico, apesar de irmos à igreja toda semana. Sei que todos nós nos irritamos em levar Toby para passear e ter de recolher as fezes que ele deixa nas calçadas. Sei que ninguém mais tem paciência quando a vovó começa a contar as mesmas histórias, de quando era jovem e namorava o vovô. Sei que nenhum de nós suporta acordar cedo, a não ser talvez minha irmã.
Sei que quando colocava meu fone de ouvido no carro e dormia, na verdade, estava ouvindo minha irmã conversar com papai. E que quando ficava até tarde vendo filme ou ficava no PC, era porque papai e mamãe discutiam até tarde e eu não conseguia dormir.
Sei que é impossível se ter uma família perfeita. Sei que, socialmente, o significado da felicidade pode ser bem relativo. Sei que não somos todos felizes com nossas vidas.
Sei que eu me isolava o máximo que podia da minha família, mas era pra manter pra sempre o que eu tenho por uma família feliz. E assim somos.
terça-feira, 13 de julho de 2010
domingo, 23 de maio de 2010
Ctônico
Hoje estava com as meias molhadas. Mas não havia o que ser feito a não ser caminhar para casa, como todo final de tarde. Milhares de pensamentos a lá Hipnos e Tânatos, de tão desditosos e enfadonhos. Fazia o que tinha de fazer quase que automaticamente, sem se preocupar em pensar. Uma vez que pensar era tedioso demais, pois quando se pensa em algo, está apenas valorando socialmente o que esse algo é, se preocupava em imaginar como poderiam ser todo o resto. Pensara em fugir para a mesma raiz de árvore, mas devido a Zeus e seu mau humor não-rotineiro do mês de maio, resolvera que o melhor lugar a se encontrar naquele momento era uma confortável cama com cobertas quentes.
Novos horizontes tem se aberto àquele rapaz. Eram bilhares de alternativas, de escolhas, de direções, de qualquer coisa que lhe poderia ser destinados. Era, sem dúvidas, o momento de maior glória, que ele jamais encontraria novamente. Era aquele o momento onde todo o futuro deveria ser planejado. Calmamente e sem antecipação, sem realmente precisar se adiantar, afinal, já estava bem adiantado.
Mas, definitivamente, não era isso que ele via.
Ao invés de ver tudo aquilo como alternativas a serem escolhidas, era visto como Hidras a serem domadas. Ao invés de escolhas, ele acreditava ser a grande escolha de Ulisses, entre Scylla e Caríbdes. Ao invés de direções, era possível distinguir o olhar dele como se visse os Campos Elíseos, o Tártaro e a Planície dos Narcisos. Não era possível ver o que pensava, pois nada era claro para ele, assim como se auto-destinara.
Se via como Prometeu ou Andrômeda. Acorrentado.
Por mais que soubesse que deveria ter de escolher o que seguir, o que acreditar, resolvera simplesmente se colocar nas raízes das árvores e contar o número de formigas que subia em suas mãos. E, por isso, ninguém o julgava muito capaz de fazer qualquer coisa, mesmo acreditando que tinha um Gênio brilhante. Talvez realmente o tivesse, mas não funcionava bem como queriam. Era inóspito a qualquer um que tentasse entender seu interior, mesmo porque saberia que ninguém o poderia fazer. Já desistira de criar esperanças a encontrar qualquer coisa que lhe entenda. Mas era tão simples de se compreender. O problema dos homens é simples: não querem nada simples. E era isso que faltava em alguém para que pudesse compreender tal complexidade: simplicidade.
Tudo que se deveria fazer foi deixado de lado. Necessidades físicas foram abandonadas. Sentidos biológicos foram abalados. Enquanto o calor se estende quando se sente confortável, o frio torna tudo mais descortês e um bocado sem cor. Afinal, cores são tão complexas quanto qualquer outra coisa. Talvez esse fosse o grande motivo das mãos dele serem tão geladas. Que combinavam perfeitamente com seus olhos, que emanavam certa energia dúbia. Aliás, mesmo Jano poderia ter dúvida do que era dito.
Definitivamente, os pensamentos que se tinham exprimido não eram dignos de Atenienses, mas eles soavam tão sonhadores e sem sentido que era como se algum Morfeu ou Ícelo dominasse o ar. Nada se mostrava muito lógico no que era dito, mesmo quando fazia algum sentido. Com isso, qualquer coisa era taxada como vil. Isso o fez parar de dizer tudo o que pensa.
Enquanto pensava no quanto estragara toda a construção e alguma forma não convencional de reparar o grande erro, já dentro do coletivo, passou uma senhora carregando uma pesada sacola, onde era possível ver comida enlatada de gatos. Ela o encarou diretamente nos olhos. Pela frigidez do rapaz, rapidamente desviou o olhar para a janela, onde só era possível ver pesadas cortinas de água descendo torrencialmente. Já tinha até se esquecido da senhora quando novamente virou-se e encontrou a senhora a encarar-lhe fervorosamente. Por instinto, logo imaginou que o cabelo estava bagunçado ou que a gola da camisa estava torta e tratou de se mirar no espelho do vidro para ver se procedia tal pensamento. Nada de anormal. Ele se virou uma terceira vez para a senhora e ela continuava a lhe encarar. E lhe sorriu.
O rapaz ergueu uma sobrancelha e começou a olhar através da senhora. Via outra senhora sentada ao seu lado, também o fitando, com um pequeno sorriso desbotado no rosto. A senhora segredou algo com a sua companheira, que passou do sorriso desbotado a um olhar brilhante. E voltou a encarar o rapaz.
Consciente de que estava encharcado, e que não havia outra escolha senão aguardar o final da viagem, o rapaz virou-se pra janela e ali permaneceu por um bom tempo. Não olhava as janelas propriamente ditas, mas sim algo que ninguém mais conseguiria enxergar. O fato de Apolo e Selene dominar o céu ao mesmo tempo enquanto chovia era algo que possivelmente era único. E o mais incrível, Iris deixara dois rastros entre sua passagem entre o Céu e a Terra.
Chegado o fim da viagem, levantara-se para descer e contemplar de perto os rastros de Iris, encontrara novamente as duas senhoras, descendo do coletivo. Ouvira algo como ‘Fim da Viagem, Dona Lá’ ou algo que o valha da senhora com a sacola de ração enlatada enquanto ela saltava do automóvel. Ambas as senhoras se encontraram com uma terceira senhora e ficaram a papear ali na calçada, onde várias pessoas se empurravam com pressa de passar. Enquanto o rapaz descia, as três o olharam com um sorriso e sussurraram algo como ‘Hora’.
Caminhando em direção ao sonhado cobertor, deduzira ele que tinha encontrado as Moiras e que elas já haviam decidido seu destino. Não havia o que se preocupar então, mesmo com relação a escolhas, alternativas, direções e destinos. Bastava existir para não mais existir. E tudo substancialmente sem aviso prévio. Então não há motivos sólidos para preocupações com qualquer coisa, bastava rumar.
Je reconnais, mon hôte, en toutes tes paroles, les pensées d'un ami , d'un pere por son fils: je n'en oublierai rien.
Novos horizontes tem se aberto àquele rapaz. Eram bilhares de alternativas, de escolhas, de direções, de qualquer coisa que lhe poderia ser destinados. Era, sem dúvidas, o momento de maior glória, que ele jamais encontraria novamente. Era aquele o momento onde todo o futuro deveria ser planejado. Calmamente e sem antecipação, sem realmente precisar se adiantar, afinal, já estava bem adiantado.
Mas, definitivamente, não era isso que ele via.
Ao invés de ver tudo aquilo como alternativas a serem escolhidas, era visto como Hidras a serem domadas. Ao invés de escolhas, ele acreditava ser a grande escolha de Ulisses, entre Scylla e Caríbdes. Ao invés de direções, era possível distinguir o olhar dele como se visse os Campos Elíseos, o Tártaro e a Planície dos Narcisos. Não era possível ver o que pensava, pois nada era claro para ele, assim como se auto-destinara.
Se via como Prometeu ou Andrômeda. Acorrentado.
Por mais que soubesse que deveria ter de escolher o que seguir, o que acreditar, resolvera simplesmente se colocar nas raízes das árvores e contar o número de formigas que subia em suas mãos. E, por isso, ninguém o julgava muito capaz de fazer qualquer coisa, mesmo acreditando que tinha um Gênio brilhante. Talvez realmente o tivesse, mas não funcionava bem como queriam. Era inóspito a qualquer um que tentasse entender seu interior, mesmo porque saberia que ninguém o poderia fazer. Já desistira de criar esperanças a encontrar qualquer coisa que lhe entenda. Mas era tão simples de se compreender. O problema dos homens é simples: não querem nada simples. E era isso que faltava em alguém para que pudesse compreender tal complexidade: simplicidade.
Tudo que se deveria fazer foi deixado de lado. Necessidades físicas foram abandonadas. Sentidos biológicos foram abalados. Enquanto o calor se estende quando se sente confortável, o frio torna tudo mais descortês e um bocado sem cor. Afinal, cores são tão complexas quanto qualquer outra coisa. Talvez esse fosse o grande motivo das mãos dele serem tão geladas. Que combinavam perfeitamente com seus olhos, que emanavam certa energia dúbia. Aliás, mesmo Jano poderia ter dúvida do que era dito.
Definitivamente, os pensamentos que se tinham exprimido não eram dignos de Atenienses, mas eles soavam tão sonhadores e sem sentido que era como se algum Morfeu ou Ícelo dominasse o ar. Nada se mostrava muito lógico no que era dito, mesmo quando fazia algum sentido. Com isso, qualquer coisa era taxada como vil. Isso o fez parar de dizer tudo o que pensa.
Enquanto pensava no quanto estragara toda a construção e alguma forma não convencional de reparar o grande erro, já dentro do coletivo, passou uma senhora carregando uma pesada sacola, onde era possível ver comida enlatada de gatos. Ela o encarou diretamente nos olhos. Pela frigidez do rapaz, rapidamente desviou o olhar para a janela, onde só era possível ver pesadas cortinas de água descendo torrencialmente. Já tinha até se esquecido da senhora quando novamente virou-se e encontrou a senhora a encarar-lhe fervorosamente. Por instinto, logo imaginou que o cabelo estava bagunçado ou que a gola da camisa estava torta e tratou de se mirar no espelho do vidro para ver se procedia tal pensamento. Nada de anormal. Ele se virou uma terceira vez para a senhora e ela continuava a lhe encarar. E lhe sorriu.
"_ C'est l'Homme aux mille tours, Muse, qu'il faut me dire, Celui qui tant erra quand, de Troade, il eut pillé la ville santé, Celui qui visita les cités de tant d'hommes et connut leur esprit. Celui qui, sur les mers, passa par tant d'angoisses, en luttant pour survivre et ramener ses gens. Hélas! même à ce prix, tout son désir ne put sauver son équipage: ils ne durent la mort qu'à leur propre sottise, ces fous qui du Soleil, avaient mangé les boeufs; c'est lui, le Fils d'En Haut, qui raya de leur vie la journée du retour.
Viens, ô fille de Zeus, nous dire, à nous aussi, quelqu'un de ces exploits..." (Homero)O rapaz ergueu uma sobrancelha e começou a olhar através da senhora. Via outra senhora sentada ao seu lado, também o fitando, com um pequeno sorriso desbotado no rosto. A senhora segredou algo com a sua companheira, que passou do sorriso desbotado a um olhar brilhante. E voltou a encarar o rapaz.
Consciente de que estava encharcado, e que não havia outra escolha senão aguardar o final da viagem, o rapaz virou-se pra janela e ali permaneceu por um bom tempo. Não olhava as janelas propriamente ditas, mas sim algo que ninguém mais conseguiria enxergar. O fato de Apolo e Selene dominar o céu ao mesmo tempo enquanto chovia era algo que possivelmente era único. E o mais incrível, Iris deixara dois rastros entre sua passagem entre o Céu e a Terra.
Chegado o fim da viagem, levantara-se para descer e contemplar de perto os rastros de Iris, encontrara novamente as duas senhoras, descendo do coletivo. Ouvira algo como ‘Fim da Viagem, Dona Lá’ ou algo que o valha da senhora com a sacola de ração enlatada enquanto ela saltava do automóvel. Ambas as senhoras se encontraram com uma terceira senhora e ficaram a papear ali na calçada, onde várias pessoas se empurravam com pressa de passar. Enquanto o rapaz descia, as três o olharam com um sorriso e sussurraram algo como ‘Hora’.
Caminhando em direção ao sonhado cobertor, deduzira ele que tinha encontrado as Moiras e que elas já haviam decidido seu destino. Não havia o que se preocupar então, mesmo com relação a escolhas, alternativas, direções e destinos. Bastava existir para não mais existir. E tudo substancialmente sem aviso prévio. Então não há motivos sólidos para preocupações com qualquer coisa, bastava rumar.
Je reconnais, mon hôte, en toutes tes paroles, les pensées d'un ami , d'un pere por son fils: je n'en oublierai rien.
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01:19
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
No Café
Eu sabia que tinha um sorriso idiota na cara. Mas também sabia o quão inevitável ele surgira no meu rosto.
Estava sentado em uma das cadeiras mais baixas, encostado a uma mesa pequena, longe do balcão e em frente ao vidro. Olhava para o lado de fora do café com uma freqüência que diria que era até absurda. Revirei meu pulso, acho que pela sétima ou oitava vez, e vi que o horário ainda não tinha mudado. Duas e quinze, ainda estava quinze minutos adiantado.
Olhei para o prato a minha frente. O croissant de queijo estava com uma aparência horrível, como se tivesse sido atropelado pela manada de mamutes gigantes e frio como se tivesse sido colocado no congelador, ao invés do forno. O café estava amargo, mas eu não reclamava. Pedi sem açúcar, pois fazia algumas horas que eu não dormia e precisava me manter acordado por mais algumas. Talvez o açúcar não me fizesse muito bem também. Mas não estava preocupado com nada disso.
Olhei para o celular e vi que meu pulso não mentia. Estava quinze minutos adiantado. Não sei pra quê diabos resolvi chegar mais cedo, afinal, eu sempre chegava atrasado. Mas hoje era uma exceção a qualquer coisa.
A porta do café se abriu. Finalmente. Afinal, ELA estava atrasada. Dez minutos. Naquele dia jurei a mim mesmo que nunca mais ia me atrasar a qualquer compromisso.
A princípio, ela não me encontrou. Lógico, eu estava de óculos escuros. Quando percebi, eu os tirei do rosto e dobrei cuidadosamente em cima da mesa, enquanto ela vinha e se sentada exatamente a minha frente.
Ela logo veio se desculpando do atraso, que tinha acontecido um funeral de mosquito na casa da tia da irmã do vizinho da cunhada dela, ou algo que o valha. Talvez fosse até menos dramático. Fingi não ter ligado, mas estava bufando por dentro. Me senti um pastel mal comido.
De alguma forma, ela estava mais bonita que no dia anterior. Não sei se tinha cortado os cabelos louros, ou se simplesmente tinha os colocado atrás das belas orelhas que ela possuía. Na verdade, ela estava tão bela quanto nos outros dias, mas é que meu humor estava um bocado melhor. Apesar da raiva pelo atraso.
-Fico feliz que tenha vindo – Eu disse, sem ter a plena certeza disso – Eu realmente estava precisando de alguma… companhia.
Frisei a ultima palavra, mas sem nenhuma malícia. Mas pelo jeito ela não havia me entendido. Ela ergueu a sobrancelha e me encarou com os olhos dourados. Olhos estes que eu achava os mais lindos de toda a galáxia. Não que tivesse visitado algum outro planeta.
Ela bebericou um pouco da água que acabara de chegar e pediu um chá gelado com torradas. Quem diabos come torradas às duas e quarenta da tarde? Enfim, preferi não me desviar do foco. Assim que o garçom se fora, ela voltou a me encarar com os brilhos dourados.
-Eu tenho que me desabafar com alguém, e achei que talvez fosse a pessoa ideal para isso. – expliquei rapidamente, vendo que a postura dela ficara mais relaxada com a minha afirmação. Talvez ela estivesse achando tudo um tédio. Mas eu não tinha opção. Eu realmente precisava de companhia. E ela era a única disposta a me ouvir. Bom, se bem que eu gostava mesmo da companhia dela, mesmo quando ela grunhia alguma coisa sem sentido, como ela fez agora.
-Bom, entendo que esteja em condições um tanto precárias. É dinheiro o problema? – soltou ela, num segundo.
Eu olhei pro lado. Estava eu mal vestido ou algo assim? Fingi que sequei o suor no braço, mas estava verificando se estava cheirando mal. Nenhum cheiro. Pense no meu apartamento, mas tinha acabado de reformar.
Ela percebeu o que tinha falado e se desmanchou em risos. Murmurou que era uma piada e pediu pra eu prosseguir. Fiquei mais tranqüilo, mas não o suficiente. Talvez minha camiseta estivesse surrada e eu não tivesse percebido. Meu cabelo, talvez. Mas resolvi prosseguir.
Contei que, na verdade, ando muito tempo dentro de casa, e fazia algum tempo que não via algum amigo ou algo que o valha. Que ultimamente tenho sentido um bocado sonolento e que achava que estava emagrecendo anemicamente. Ela riu novamente conforme eu mudava de assunto com uma rapidez um bocado bruta.
-Fazia tempo que não me divertia tanto. – ela me disse. Acho que estava tentando me animar, pois contei de uma experiência traumática de quando uma barata subiu na mesa da cozinha e eu quebrei o prato, tentando matá-la. E ela fugiu. – E não digo isso tentando animar! –Ela adivinhou meus pensamentos.
Ela me contou como está tendo problemas com a família. Não conseguia arrumar trabalho e os irmãos não a ajudavam a cuidar da casa. Que comiam feitos porcos a aposentadoria do pai. Que o namorado da amiga estava dando em cima dela. E como não conseguia se socializar com ninguém.
Com relação a essa ultima afirmação, achei um tanto precipitada. Ela era uma pessoa muito simpática, mas as pessoas a subjugavam pela beleza. Afinal, mulher bonita não devia ser inteligente. Ou de companhia agradável. Apenas boa de cama. Coisa que nunca concordei duzentos por cento.
Olhei no relógio. Cinco e trinta. Ficamos duas horas e alguns milhares de minutos conversando tolices, sentados e eu nem havia percebido que já tinha começado a ficar escuro. Fora, realmente, uma tarde um bocado agradável.
Ela também sacou um celular azul da bolsa e conferiu as horas. Perguntou se nos veríamos mais vezes e eu afirmei que sim. Lógico, nunca imaginei que me divertiria tanto sentado num café de quinta conversando groselhas com alguém. Convidei-a para ir ao meu apartamento na noite seguinte, para um jantar e ela concordara com um sorriso.
Paguei a conta. Não queria que ela realmente pensasse que eu estava querendo dinheiro. Coisa que eu realmente não precisava, afinal, tinha acabado de receber um abono do meu serviço. Levantamos-nos e eu a levei para casa, a dois quarteirões dali. Conversamos mais groselhas a caminho da casa dela, enquanto riamos feito loucos, contando das vezes em que nos encontramos (assumo, foram poucas). Ficamos ao portão da casa dela conversando, quando realmente chegou a hora que ela precisava entrar. Eu, estabanado como sou, fui cumprimentá-la com um aperto de mão formal. Ela segurou minha mão e me puxou para um beijo no rosto. Não sei se mencionei, meus movimentos são um bocado retardados, então não virei o rosto direito.
Acabamos trocando um pequeno selinho. Coisa que, particularmente, eu não estava esperando. Separamos-nos e ela ficou um pouco corada. Ela abaixou os olhos e vi algo no rosto dela que nunca tinha visto. Resolvi me aproximar de novo e beijá-la pra valer.
Encostei meus lábios nos dela uma vez. Apenas encostei. Me separei pra ver o efeito e vi que ela não fizera nada contra. Pelo contrario, ela sorriu. Encostei meus lábios no nariz dela e ela deu uma risada. Sempre fui de ficar tentando as pessoas quando vou beijá-las. Cria um clima engraçado. Expectativa, talvez. Encostei meu lábios pela terceira vez nos lábios dela, enquanto passei as mãos pela cintura fina dela. Ela jogou os braços por trás do meu pescoço e retribuiu meu beijo.
Ficamos assim por algum tempo, até que decidi que era hora dela entrar. Me afastei carinhosamente, dando um último beijo na ponta de seu nariz e disse um ‘até amanhã’.
Esperei ela entrar, enquanto ela mandava um tchauzinho da porta. Me afastei com a sensação de que várias coisas a partir dali iam mudar na minha vida. Começando pelo fato de que nunca mais ia me atrasar para um compromisso. E perceber que nunca tinha me apaixonado de verdade por alguém até agora me deixou feliz.
Estava sentado em uma das cadeiras mais baixas, encostado a uma mesa pequena, longe do balcão e em frente ao vidro. Olhava para o lado de fora do café com uma freqüência que diria que era até absurda. Revirei meu pulso, acho que pela sétima ou oitava vez, e vi que o horário ainda não tinha mudado. Duas e quinze, ainda estava quinze minutos adiantado.
Olhei para o prato a minha frente. O croissant de queijo estava com uma aparência horrível, como se tivesse sido atropelado pela manada de mamutes gigantes e frio como se tivesse sido colocado no congelador, ao invés do forno. O café estava amargo, mas eu não reclamava. Pedi sem açúcar, pois fazia algumas horas que eu não dormia e precisava me manter acordado por mais algumas. Talvez o açúcar não me fizesse muito bem também. Mas não estava preocupado com nada disso.
Olhei para o celular e vi que meu pulso não mentia. Estava quinze minutos adiantado. Não sei pra quê diabos resolvi chegar mais cedo, afinal, eu sempre chegava atrasado. Mas hoje era uma exceção a qualquer coisa.
A porta do café se abriu. Finalmente. Afinal, ELA estava atrasada. Dez minutos. Naquele dia jurei a mim mesmo que nunca mais ia me atrasar a qualquer compromisso.
A princípio, ela não me encontrou. Lógico, eu estava de óculos escuros. Quando percebi, eu os tirei do rosto e dobrei cuidadosamente em cima da mesa, enquanto ela vinha e se sentada exatamente a minha frente.
Ela logo veio se desculpando do atraso, que tinha acontecido um funeral de mosquito na casa da tia da irmã do vizinho da cunhada dela, ou algo que o valha. Talvez fosse até menos dramático. Fingi não ter ligado, mas estava bufando por dentro. Me senti um pastel mal comido.
De alguma forma, ela estava mais bonita que no dia anterior. Não sei se tinha cortado os cabelos louros, ou se simplesmente tinha os colocado atrás das belas orelhas que ela possuía. Na verdade, ela estava tão bela quanto nos outros dias, mas é que meu humor estava um bocado melhor. Apesar da raiva pelo atraso.
-Fico feliz que tenha vindo – Eu disse, sem ter a plena certeza disso – Eu realmente estava precisando de alguma… companhia.
Frisei a ultima palavra, mas sem nenhuma malícia. Mas pelo jeito ela não havia me entendido. Ela ergueu a sobrancelha e me encarou com os olhos dourados. Olhos estes que eu achava os mais lindos de toda a galáxia. Não que tivesse visitado algum outro planeta.
Ela bebericou um pouco da água que acabara de chegar e pediu um chá gelado com torradas. Quem diabos come torradas às duas e quarenta da tarde? Enfim, preferi não me desviar do foco. Assim que o garçom se fora, ela voltou a me encarar com os brilhos dourados.
-Eu tenho que me desabafar com alguém, e achei que talvez fosse a pessoa ideal para isso. – expliquei rapidamente, vendo que a postura dela ficara mais relaxada com a minha afirmação. Talvez ela estivesse achando tudo um tédio. Mas eu não tinha opção. Eu realmente precisava de companhia. E ela era a única disposta a me ouvir. Bom, se bem que eu gostava mesmo da companhia dela, mesmo quando ela grunhia alguma coisa sem sentido, como ela fez agora.
-Bom, entendo que esteja em condições um tanto precárias. É dinheiro o problema? – soltou ela, num segundo.
Eu olhei pro lado. Estava eu mal vestido ou algo assim? Fingi que sequei o suor no braço, mas estava verificando se estava cheirando mal. Nenhum cheiro. Pense no meu apartamento, mas tinha acabado de reformar.
Ela percebeu o que tinha falado e se desmanchou em risos. Murmurou que era uma piada e pediu pra eu prosseguir. Fiquei mais tranqüilo, mas não o suficiente. Talvez minha camiseta estivesse surrada e eu não tivesse percebido. Meu cabelo, talvez. Mas resolvi prosseguir.
Contei que, na verdade, ando muito tempo dentro de casa, e fazia algum tempo que não via algum amigo ou algo que o valha. Que ultimamente tenho sentido um bocado sonolento e que achava que estava emagrecendo anemicamente. Ela riu novamente conforme eu mudava de assunto com uma rapidez um bocado bruta.
-Fazia tempo que não me divertia tanto. – ela me disse. Acho que estava tentando me animar, pois contei de uma experiência traumática de quando uma barata subiu na mesa da cozinha e eu quebrei o prato, tentando matá-la. E ela fugiu. – E não digo isso tentando animar! –Ela adivinhou meus pensamentos.
Ela me contou como está tendo problemas com a família. Não conseguia arrumar trabalho e os irmãos não a ajudavam a cuidar da casa. Que comiam feitos porcos a aposentadoria do pai. Que o namorado da amiga estava dando em cima dela. E como não conseguia se socializar com ninguém.
Com relação a essa ultima afirmação, achei um tanto precipitada. Ela era uma pessoa muito simpática, mas as pessoas a subjugavam pela beleza. Afinal, mulher bonita não devia ser inteligente. Ou de companhia agradável. Apenas boa de cama. Coisa que nunca concordei duzentos por cento.
Olhei no relógio. Cinco e trinta. Ficamos duas horas e alguns milhares de minutos conversando tolices, sentados e eu nem havia percebido que já tinha começado a ficar escuro. Fora, realmente, uma tarde um bocado agradável.
Ela também sacou um celular azul da bolsa e conferiu as horas. Perguntou se nos veríamos mais vezes e eu afirmei que sim. Lógico, nunca imaginei que me divertiria tanto sentado num café de quinta conversando groselhas com alguém. Convidei-a para ir ao meu apartamento na noite seguinte, para um jantar e ela concordara com um sorriso.
Paguei a conta. Não queria que ela realmente pensasse que eu estava querendo dinheiro. Coisa que eu realmente não precisava, afinal, tinha acabado de receber um abono do meu serviço. Levantamos-nos e eu a levei para casa, a dois quarteirões dali. Conversamos mais groselhas a caminho da casa dela, enquanto riamos feito loucos, contando das vezes em que nos encontramos (assumo, foram poucas). Ficamos ao portão da casa dela conversando, quando realmente chegou a hora que ela precisava entrar. Eu, estabanado como sou, fui cumprimentá-la com um aperto de mão formal. Ela segurou minha mão e me puxou para um beijo no rosto. Não sei se mencionei, meus movimentos são um bocado retardados, então não virei o rosto direito.
Acabamos trocando um pequeno selinho. Coisa que, particularmente, eu não estava esperando. Separamos-nos e ela ficou um pouco corada. Ela abaixou os olhos e vi algo no rosto dela que nunca tinha visto. Resolvi me aproximar de novo e beijá-la pra valer.
Encostei meus lábios nos dela uma vez. Apenas encostei. Me separei pra ver o efeito e vi que ela não fizera nada contra. Pelo contrario, ela sorriu. Encostei meus lábios no nariz dela e ela deu uma risada. Sempre fui de ficar tentando as pessoas quando vou beijá-las. Cria um clima engraçado. Expectativa, talvez. Encostei meu lábios pela terceira vez nos lábios dela, enquanto passei as mãos pela cintura fina dela. Ela jogou os braços por trás do meu pescoço e retribuiu meu beijo.
Ficamos assim por algum tempo, até que decidi que era hora dela entrar. Me afastei carinhosamente, dando um último beijo na ponta de seu nariz e disse um ‘até amanhã’.
Esperei ela entrar, enquanto ela mandava um tchauzinho da porta. Me afastei com a sensação de que várias coisas a partir dali iam mudar na minha vida. Começando pelo fato de que nunca mais ia me atrasar para um compromisso. E perceber que nunca tinha me apaixonado de verdade por alguém até agora me deixou feliz.
sábado, 2 de janeiro de 2010
Giz de Cera
- Luciano, você está bem?
Ele virou o rosto em direção a voz que ouvi. Vinha de Dani, colega de faculdade. Viu que fazia uma careta de desaprovação, pois, ao invés de ouvir o professor, Luciano estava muito além...
A cada dia que passava, Luciano tinha um maior controle sobre seu dom, de maneira mais eficiente e com maior poder, assim por dizer. Conseguia agora ficar por horas sem ouvir uma voz sequer. Às vezes, berros secos surgiam brutalmente, fazendo-o acordar de um sonho um tanto quanto utópico.
- Desculpe, Dani – Sorriu Luciano. Um sorriso forçado e quase que exagerado. – É que me veio umas coisas em mente.
Quanto a isso, ele não mentia.
- Não é porque você é inteligente e tudo o mais que tem que ignorar as aulas. – Disse, seca.
O professor já ignorava a comum falta de atenção do rapaz. Aliás, qualquer um ignorava a presença de Luciano, exceto um restrito grupo de duas pessoas.
Havia um exercício na lousa branca. E esse era o motivo pela qual Dani chamara a atenção de Luciano.
Loura, baixa, absurdamente magra. Olhos claros e profundos, onde finas olheiras envolviam na pele quase prateada. Cabelos na altura da cintura fina, que combinava com a finura do cabelo, fazendo com que se esvoaçassem com extrema facilidade. Era meiga no modo de se vestir, sempre com uma aparência bem animada e repleta de cores fortes, porém sempre combinando bem entre elas. Hoje, usava um tênis branco e meias listradas na altura dos joelhos. Macaquinho jeans por cima de uma alegre camiseta roxa e branca.
Luciano a olhou por alguns momentos. “O que será que acontece com ele. É sempre tão desligado e tão relaxado. É como se... não se importasse com nada.”. De repente, se virou para Luciano e deu um sorriso.
Com a boca levemente aberta, Luciano saiu da sala sem pronunciar uma única palavra. Já tinha ouvido centenas, talvez milhares de pensamentos. Sé de Dani, uma grande parcela.
Mas nunca algo sobre ele. Por incrível que pareça.
Quando chegou ao banheiro, enfiou a cabeça embaixo da torneira, deixando toda a água escorrer para seu pescoço. A água escorria, mas os últimos minutos não saiam da cabeça de Luciano. Fechou a torneira, secou-se com alguns papéis e se olhou no espelho.
Seus cabelos haviam coberto suas orelhas por completo. Seu rosto parecia pálido e seus olhos absurdamente arregalados. Pôs as mãos no rosto e assim viu o famoso retrato de Edvard Münch a sua frente, como se berrasse. Não sabia se corria ou se permanecia estático. Por fim, passado algum tempo, resolveu voltar à sala.
Quando saiu, se deparou com Christopher, que parecia amedrontado. Luciano se assustou.
- Chris?
- Oi Luciano. Você saiu da sala tão... O que aconteceu com seu cabelo?
Chris ficou roxo. Ele era bem branco, mas possuía a pele bem bronzeada, devido ao tempo que ficava exposto ao sol. Seus cabelos, perto do ombro, tinham um tom marrom claro, combinando perfeitamente com seus olhos escuros. Como sempre, a barba por fazer, dava-lhe um ar agressivo, mas que combinava com sua aparência. Jeans rasgado nos joelhos, camiseta escura e tênis comum.
- Enfiei a cabeça embaixo da torneira. Precisava pensar um pouco. Vamos indo que explico no caminho.
Luciano falou que, quando a cabeça doía, ele molhava a nuca. Chris não fez objeções.
Entraram novamente na sala. O professor os olhou e soltou uma risadinha debochada, mas não fez comentários. Os alunos levantaram o rosto por um segundo, mas logo abaixaram pro papel.
- Poderia me responder, Luciano – começou o professor, assim que Luciano se sentou – como devo fazer este exercício?
E olhou desconfiado para Luciano que, não por maldade, simplesmente se levantou, pegou a caneta da mão do professor e rumou para a lousa, sem olhar para trás.
- Não sei explicar. Só fazer.
Quando saíram, Luciano, Dani e Chris sentaram em algum dos bancos que estavam próximos ao prédio onde teriam aula, ao ar livre. Enquanto Chris e Luciano discutiam animadamente sobre a última prova, Dani revirava a bolsa. De repente, quando puxou um embrulho laranja, um giz de cera azul caiu “Ops, como isso veio parar aqui?”.
Luciano pegou o giz, sem realmente tocar ele. “Por que a Dani carrega um giz na bolsa?”, pensou Chris. Quando Luciano devolveu o giz, Dani ficou corada, enfiou o giz na mochila e sorriu.
- Deve ter sido minha irmã – “Detesto parecer idiota na frente do Lu”.
Ainda assustado, mas não o bastante para sair correndo, Luciano sorriu e murmurou um “tudo bem”. Chris deu uma risada, se virando para Dani.
- É agora, Dani?
- Sim!
Os dois ficaram em pé, se colocaram na frente de Luciano e disseram em uníssono.
“Feliz 18 anos, Luciano.” E o embrulho laranja nas quatro mãos, estendidos para Luciano.
Ele virou o rosto em direção a voz que ouvi. Vinha de Dani, colega de faculdade. Viu que fazia uma careta de desaprovação, pois, ao invés de ouvir o professor, Luciano estava muito além...
A cada dia que passava, Luciano tinha um maior controle sobre seu dom, de maneira mais eficiente e com maior poder, assim por dizer. Conseguia agora ficar por horas sem ouvir uma voz sequer. Às vezes, berros secos surgiam brutalmente, fazendo-o acordar de um sonho um tanto quanto utópico.
- Desculpe, Dani – Sorriu Luciano. Um sorriso forçado e quase que exagerado. – É que me veio umas coisas em mente.
Quanto a isso, ele não mentia.
- Não é porque você é inteligente e tudo o mais que tem que ignorar as aulas. – Disse, seca.
O professor já ignorava a comum falta de atenção do rapaz. Aliás, qualquer um ignorava a presença de Luciano, exceto um restrito grupo de duas pessoas.
Havia um exercício na lousa branca. E esse era o motivo pela qual Dani chamara a atenção de Luciano.
Loura, baixa, absurdamente magra. Olhos claros e profundos, onde finas olheiras envolviam na pele quase prateada. Cabelos na altura da cintura fina, que combinava com a finura do cabelo, fazendo com que se esvoaçassem com extrema facilidade. Era meiga no modo de se vestir, sempre com uma aparência bem animada e repleta de cores fortes, porém sempre combinando bem entre elas. Hoje, usava um tênis branco e meias listradas na altura dos joelhos. Macaquinho jeans por cima de uma alegre camiseta roxa e branca.
Luciano a olhou por alguns momentos. “O que será que acontece com ele. É sempre tão desligado e tão relaxado. É como se... não se importasse com nada.”. De repente, se virou para Luciano e deu um sorriso.
Com a boca levemente aberta, Luciano saiu da sala sem pronunciar uma única palavra. Já tinha ouvido centenas, talvez milhares de pensamentos. Sé de Dani, uma grande parcela.
Mas nunca algo sobre ele. Por incrível que pareça.
Quando chegou ao banheiro, enfiou a cabeça embaixo da torneira, deixando toda a água escorrer para seu pescoço. A água escorria, mas os últimos minutos não saiam da cabeça de Luciano. Fechou a torneira, secou-se com alguns papéis e se olhou no espelho.
Seus cabelos haviam coberto suas orelhas por completo. Seu rosto parecia pálido e seus olhos absurdamente arregalados. Pôs as mãos no rosto e assim viu o famoso retrato de Edvard Münch a sua frente, como se berrasse. Não sabia se corria ou se permanecia estático. Por fim, passado algum tempo, resolveu voltar à sala.
Quando saiu, se deparou com Christopher, que parecia amedrontado. Luciano se assustou.
- Chris?
- Oi Luciano. Você saiu da sala tão... O que aconteceu com seu cabelo?
Chris ficou roxo. Ele era bem branco, mas possuía a pele bem bronzeada, devido ao tempo que ficava exposto ao sol. Seus cabelos, perto do ombro, tinham um tom marrom claro, combinando perfeitamente com seus olhos escuros. Como sempre, a barba por fazer, dava-lhe um ar agressivo, mas que combinava com sua aparência. Jeans rasgado nos joelhos, camiseta escura e tênis comum.
- Enfiei a cabeça embaixo da torneira. Precisava pensar um pouco. Vamos indo que explico no caminho.
Luciano falou que, quando a cabeça doía, ele molhava a nuca. Chris não fez objeções.
Entraram novamente na sala. O professor os olhou e soltou uma risadinha debochada, mas não fez comentários. Os alunos levantaram o rosto por um segundo, mas logo abaixaram pro papel.
- Poderia me responder, Luciano – começou o professor, assim que Luciano se sentou – como devo fazer este exercício?
E olhou desconfiado para Luciano que, não por maldade, simplesmente se levantou, pegou a caneta da mão do professor e rumou para a lousa, sem olhar para trás.
- Não sei explicar. Só fazer.
Quando saíram, Luciano, Dani e Chris sentaram em algum dos bancos que estavam próximos ao prédio onde teriam aula, ao ar livre. Enquanto Chris e Luciano discutiam animadamente sobre a última prova, Dani revirava a bolsa. De repente, quando puxou um embrulho laranja, um giz de cera azul caiu “Ops, como isso veio parar aqui?”.
Luciano pegou o giz, sem realmente tocar ele. “Por que a Dani carrega um giz na bolsa?”, pensou Chris. Quando Luciano devolveu o giz, Dani ficou corada, enfiou o giz na mochila e sorriu.
- Deve ter sido minha irmã – “Detesto parecer idiota na frente do Lu”.
Ainda assustado, mas não o bastante para sair correndo, Luciano sorriu e murmurou um “tudo bem”. Chris deu uma risada, se virando para Dani.
- É agora, Dani?
- Sim!
Os dois ficaram em pé, se colocaram na frente de Luciano e disseram em uníssono.
“Feliz 18 anos, Luciano.” E o embrulho laranja nas quatro mãos, estendidos para Luciano.
O Grito - Edvard Münch
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Leões Dourados e Espelhos Púrpuros
- Vovó, me conta uma história?
- Claro Mariana.Qual você quer dessa vez? A Bela Adormecida?
Mariana fez uma careta.
- Não Vovó. Essas princesas não estão com nada. Ficam esperando príncipes e os cambaus. Quero algo novo.
A velha olhou Jonas e soltou uma sonora gargalhada. Jonas lhe deu uma piscadela e virou-se pra Mariana. A velha se recuperou e voltou a falar.
- Claro que conto, minha pequena. O que acha da história dos Espelhos Púrpuros e os Leões Dourados?
- Leões... Sim, eu quero essa!
A avó lhe sorriu, pigarreou e começou a contar:
“Era uma vez um planeta escuro e afastado.Ao contrário do nosso planeta, ele não possui nenhuma estela muito próxima, o que o torna escuro e gelado.
A pouca claridade que tinha era proveniente de estrelas bem minúsculas e bem afastadas do planeta. Os moradores deste planeta já eram acostumados a enxergar no escuro. Aliás, eles não só enxergavam no escuro como também refletiam essa escuridão.
“Eles eram os Espelhos Púrpuros.
“Eram redondos, como ovos, e tinham uma leve cor arroxeada em suas formas espelhadas. Possuíam pernas e braços finos, e eram desprovidos de pescoços. Tinham a cabeça junto com o globo e tinham olhos pequenos, mas que enxergavam bem longe. Eram desprovidos de sentimentos bons, como compaixão, alegria, amor...
“Havia poucos Espelhos Púrpuros. Como existiam muitas guerras, vandalismos e destruições naquele planeta, eles derretiam com facilidade. Derreter era a forma como deixavam de existir.
“Certo dia, no auge de uma das mais devastadoras batalhas dos Espelhos Púrpuros, surgiu três grandes luzes no céu. Pareciam estrelas cadentes. Conforme essas luzes desciam, rugidos roucos vindos desses brilhos ficavam cada vez mais retumbantes. Em pouco tempo, todos os Espelhos Púrpuros estavam apreciando o show de luzes e rugidos vindos de céu.
“Até que...”
- Vovó?
- Sim, Mariana.
- Eram os Leões Dourados?
A velha gargalhou novamente.
- Sim Mariana. Eram os Leões Dourados.
“Os Espelhos Púrpuros perceberam que os brilhos estavam indo em direção ao centro da guerra. Amigos ou inimigos, estes se afastaram correndo e se acotovelando para sair de perto. Mas não longe o bastante para não verem o que aconteceria a seguir.
“Os brilhos desceram sobre o campo silenciosamente. De tão brilhantes e luminosos que eram, os Espelhos Púrpuros tinham dificuldade para enxergarem e distinguirem as formas.
“Eram gigantescos Leões Dourados. Três enormes. Patas do tamanho de patas de elefante, quase três metros de altura, jubas douradas que mais lembravam coroas. Olhos bem abertos cor de mel, que observavam tudo de maneira bem atenta. Olhavam as manchas púrpuras do chão, que eram os Espelhos Púrpuros mortos em batalha.
“Com um rugido bem alto, os Leões Dourados se agitaram no lugar, bem a vista dos Espelhos Púrpuros escondidos em depressões ao longo do campo de batalha.
“Um dos Espelhos Púrpuros resolveu se aproximar dos Leões Dourados. Ele andava cautelosa e vagarosamente. Conforme se aproximava, o rugido dos Leões fora ficando mais e mais baixo, até que um dos Leões parou de rugir e virou-se para o Espelho. O Leão se aproximava do Espelho, que agia reciprocamente. O Espelho percebeu que o Leão possuía olhos tristes e quase que chorosos. Assim, ele parou a cerca de três metros do Leão e fixou o olhar nos olhos do mesmo. Assim, começou a rachar.
“Começou com uma rachadura fina, mas foi se alargando e se espalhando por toda a extensão do corpo do Espelho Púrpuro. A essa altura, todos os outros habitantes daquele planeta já não estavam mais escondidos, estavam olhando o que acontecia ao Espelho.”
- Ele não sentia dor, Vovó?
- Não Mariana. Pelo contrário.
Jonas pigarreou. Mariana o olhou com uma careta como se dissesse “Não interrompa”.
“O Espelho Púrpuro começou a gargalhar, como se sentisse uma alegria imensa. E, de repente, se rompeu em vários cacos. Onde estava, surgiu uma figura muito semelhante a um humano, mas com braços e pernas finos e compridos, corpo mais comprido e orelhas mais pontudas. Um bocado fino e desajeitado. Pele com um tom azeitonado e com certo brilho próprio. Desta vez, cabelos longos e escuros lhe caía pelos ombros, formando cachos em torno do pescoço comprido e fino.
“Todos os outros Espelhos começaram a rachar. E deles foram surgindo seres semelhantes àquele primeiro. Todos com expressões de alegria e felicidade imensa.
“Os Leões Dourados se ergueram no ar e, com um rugido, voltaram ao céu. Em determinado momento, os três seres brilhantes se encontraram no céu, formando um único foco de luz, capaz de cegar qualquer humano que olhasse diretamente para aquilo, de tão grande e brilhante que era. Desse ponto de encontro, quando foi diminuindo a luz, percebeu-se que surgiu uma estrela, algo como se fosse o Sol para nós.
“Daquele dia em diante, os Espelhos Púrpuros passaram a ser mais atenciosos e cuidadosos com o pequeno planeta, que se encontrava destruído. Em uma das suas lendas, dizem que, se o planeta for novamente dominado pela treva e ódio, os Leões voltarão e lhes tomarão a única fonte de luz.”
- Que diferente, vovó. – Disse a garota, enquanto batia palmas.
- Gostou, Mariana? – Perguntou a velha, sorrindo.
- Muito. Mas tenho uma pergunta.
- Qual seria?
- Os Espelhos Púrpuros... Como se chamam agora?
- Essa é outra história, minha neta, e será contada outro dia.
Jonas olhou a velha e pigarreou. Mariana se levantou e rumou para a cozinha.
- Por que não lhe contou, vovó?
- Acredito que crianças devem ser crianças enquanto puderem ser crianças.
Após um sorriso mutuo, Jonas beijou a avó no rosto e saiu, para acompanhar Mariana.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Sobre Destino, Caminho e Escolha.
Eu já fiz minha escolha e já tomei meu caminho. Deveras estar noutro lugar, que não o meu. Nunca escolhi errado. Nunca caminhei aleatoriamente. Nunca deixarei me levar numa constante cachoeira de acontecimentos.
Mas, quase que por uma ironia do destino, a inércia começou a adquirir território anteriormente dominado. E assim sinto-me puxado por toda essas gotas de atos formando essa cachoeira.
Anteriormente, sono e torpor. Hoje, sono e torpor. Meus ossos mudaram, mas meu destino não. Minhas mãos estão maiores, mas nem por isso agüento uma carga maior de emoções. Afinal, posso não ser um poço de sentimentos, mas também não sou um buraco negro sem emoção.
Por incrível que possa parecer, parece que a aparência da escolha se modifica a cada sorrateiro passo que por mim é dado. E mais uma brusca e sutil escolha deve ser feita. Mas como a inércia é mais forte, prefiro o certo ao duvidoso. Como diziam alguns, não tenho o espírito empreendedor, mas que empreendedor arriscaria até sua vontade? Claro que me falta esse espírito, mas nem por isso devo ignorar.
Se, por acaso, eu resolva brutalmente mudar, de alguns fatos irei sempre me lembrar:
Destino é único;
Caminhos são limitados;
Escolhas... Essas sim são infinitas.
Mas, quase que por uma ironia do destino, a inércia começou a adquirir território anteriormente dominado. E assim sinto-me puxado por toda essas gotas de atos formando essa cachoeira.
Anteriormente, sono e torpor. Hoje, sono e torpor. Meus ossos mudaram, mas meu destino não. Minhas mãos estão maiores, mas nem por isso agüento uma carga maior de emoções. Afinal, posso não ser um poço de sentimentos, mas também não sou um buraco negro sem emoção.
Por incrível que possa parecer, parece que a aparência da escolha se modifica a cada sorrateiro passo que por mim é dado. E mais uma brusca e sutil escolha deve ser feita. Mas como a inércia é mais forte, prefiro o certo ao duvidoso. Como diziam alguns, não tenho o espírito empreendedor, mas que empreendedor arriscaria até sua vontade? Claro que me falta esse espírito, mas nem por isso devo ignorar.
Se, por acaso, eu resolva brutalmente mudar, de alguns fatos irei sempre me lembrar:
Destino é único;
Caminhos são limitados;
Escolhas... Essas sim são infinitas.
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