domingo, 11 de fevereiro de 2018

Chuvas

Uma vez me disseram que depois da chuva viria o arco-íris. A única coisa que posso dizer que vi até agora são nuvens, porque tudo anda tão nublado depois dessa tempestade, que meus olhos só sabem marear.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A Lista (Ou Os Monstros de Amara)

Amara escrevia uma lista de compras. Fazia um bom tempo que ela não o fazia. Estava sentada toda curva sobre um pedaço de papel, remoendo o tubo da caneta preta, enquanto pensava nos itens de sua lista. Já tinha revirado os armários vinte e sete vezes, quase o número de vezes de invernos vividos. Suas listas, quando mais nova, eram recheadas de itens como biscoitos, doces, balas e filmes. Hoje, se tinha um chocolate era muito.

Deu um longo suspiro. Coçou a cabeça, levantando a cabeça em direção ao armário e viu a porta semiaberta, presa por algum pedaço de roupa mal dobrado ou algo que o valha. Ficou encarando a porta por longos segundos decidindo se deveria verificar a origem do problema ou se ignoraria até a próxima ida ao guarda roupas. Optou por voltar a sua lista. Ela se lembrou que, quando criança, tinha medo do armário, pois acreditava que os monstros lá moravam. Inclusive, uma vez foi tentar caça-los com uma espada de brinquedo, e ali ficou por longo minutos presa, até que alguém a encontrou e resgatou. Parecia que sua pequena jornada tinha acabado mais cedo e de forma mais frustrante que imaginava.
Aparentemente, o monstro do armário não tinha ido embora, mas ela não mais o encarava, então ficaram quites.

Prendeu os cabelos no alto em um coque apenas para solta-los de novo. Tomou uma xícara de algo que estava na pia que tinha cor de café, mas gosto de sapólio. Foi até o mercado com sua lista, percorrendo de prateleira a prateleira, procurando os itens. Era um processo automático, não a fazia pensar. Amara estava com outros 162 problemas na cabeça, quase que sua altura em centímetros. No caixa, ela teve um vislumbre de um senhor barrigudo, carregando uma sacola de compras nas costas com um olhar mareado, como se não estivesse de fato ali. Lembrou de quando lhe contavam a história do Homem do Saco, que raptava crianças que não se comportavam direito. O senhor barrigudo poderia muito bem estar carregando uma criança, pensou, mas o saco estava imóvel. E nunca fez muito sentido para ela alguém que raptava crianças mal comportadas. Amara sempre foi bagunceira, mas o tal homem nunca apareceu.
Ela ficava olhando na janela de sua casa para ver se ele iria aparecer depois de alguma traquinagem. Via alguns homens maltrapilhos passando, mas eles nunca entraram. Então estavam quites por ora.

Enquanto ordenava os itens no armário, já a noite, percebeu que tinha esquecido de comprar sabão. Ela pensou em voltar ao mercado, mas como já havia escurecido, não seria uma boa opção. Ela resolveu então simplesmente colocar sua camisola e deitar. Ao pressionar o interruptor, a lâmpada deu um estalo e se apagou. Amara ficou tateando no escuro até pegar o celular e iluminar as gavetas atrás de uma lâmpada. Obviamente, sem sucesso, uma vez que não estava na lista. Resolveu simplesmente deitar e ficar encarando o escuro. Ela lembrou das várias histórias que lhe contavam antes de dormir, por causa do medo do escuro. Algumas tinham uma menina perdida num país maluco, outras um rapaz que podia voar, nunca envelhecia e tinha sua própria turma.
Ela sentia um medo abismal do escuro e seus monstros. Mas imaginando todas as histórias, ela adormecia rápido e não tinha de lidar com ele por muito tempo. Então estavam quites por ora.

Mas bem.
Os monstros de Amara nunca foram embora. O monstro continuava no armário. O Homem do Saco permanecia vagando. Os monstros do escuro continuavam a fazer barulho quando a luz apagava. Mas todos eles perceberam que Amara tinha tanto medo deles quanto da realidade. E que, quanto mais ela cresceu, maiores ficaram os monstros dela. Todos eles se apiedaram e resolveram deixar Amara em paz.

Então estavam quites. Por ora. E Amara continua assustada. Apenas com monstros maiores.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sr. Oliveira



Conforme as lendas antigas, os gregos construíram uma grandiosa cidade e quiseram que ela tivesse um Deus padroeiro. Decidiram então instituir uma competição entre os favoritos, que no caso eram Poseidon, rei dos mares e Athena, dona da sabedoria. Aquele que desse o melhor presente a cidade, seria padrinho e a cidade seria batizada em seu nome. Então Poseidon, com seus bondosos olhos azuis, num bater do seu tridente, fez a água dos oceanos emergir para a terra e assim criou o cavalo, que serviria com meio transporte para a população. Mas o fato é que o cavalo era meio arrojado e muito feroz, e os habitantes tinham certa dificuldade em domá-lo. Palas Athena, com seu sensato olhar cinza, domou rapidamente o cavalo, e ainda criou a Oliveira, que é uma árvore que fornecia frutos para a população, óleo para suas lanternas, lenha para suas fogueiras, essências para seus incensos, azeites e óleos medicinais entre outras funções.
Assim surgiu a cidade de Atenas. E assim surgiu a Oliveira, a árvore da sabedoria. E assim eu começo a história.

Eu não vim para refletir sobre antigos mitos gregos. Apesar de acreditar que por vezes, os deuses podem sim se transformar temporariamente em humanos, para nos testar, nos dar conselhos e ensinar-nos lições, não sei se creio duzentos por cento em tudo isso. Eu vim hoje para falar do Sr. Oliveira.

O Sr. Oliveira era um rapaz antes de qualquer coisa. Jovem. De natureza simples. Seus olhos eram azuis como o mar, mas com pequenos traços de cinza e amarelo. Era esperto e gentil. Particularmente não me recordo de nenhum momento que tenha sido rude, até mesmo quando o vi nervoso com alguma coisa. Sentia a necessidade, por mais que negasse pelo que percebi, de se ligar ao mundo, apesar de já ter boas conexões pelo que percebi.

Era um rapaz extremamente peculiar. Esbanjava felicidade nos momentos que o vi. Adorava sua cidade natal, sua terra, e falava dela com um fervor que causava uma vontade absurda de conhecer. Era incrível como ele tinha esse dom, o de convencer usando essa paixão natural que tinha. Falando em paixão, era um apaixonado por urbanidades e arquitetura. Café e filmes de terror. O que muito diferia da minha personalidade, pois sou o maior medroso do universo. Tem até alguns filmes que ele me recomendou que eu nunca assisti, e agora tenho até certa curiosidade em vê-los. E os que eu vi ele simplesmente me solta um 'Mas esse filme de terror é muito fraco!' ou 'Stephen King escrevia livros de terror de histórias que eu imaginava quando era adolescente. Aquilo não assusta ninguém' ou algo que o valha. Convém dizer que eu discordava um pouco, o que gerava bons debates. Éramos absurdamente diferentes, em quase que todos os aspectos.

Ele era extremamente realista. Ele sabia diferenciar bem o que era ficção do que não era e, por isso, acabava se tornando meio cético com coisas mais.... infantis eu diria. Não estou dizendo que isso é uma coisa ruim, pelo contrário, é só um aspecto que achei curioso. E esse realismo dele o fazia ser muito sensato, o que o, aparentemente, deixava com os pés no chão. Mas é incrível como cada vez que eu começo a divagar sobre ele, lembro de mais coisas. Apesar de tudo isso, ele era um baita dum sonhador. Ele tinha seu plano de vida, carreira, sabia o que queria muito cedo. Isso pode parecer para alguns uma coisa normal, mas eu achava fantástico alguém tão jovem com sonhos tão altos. E pensava alto mesmo, e pelo que percebi não tinha medo de mostrar isso. Aliás, nunca o vi ter medo de nada.

Lembro dele e começo de novo a recordar o carinho que ele tinha pelos amigos. Muitas vezes ele simplesmente se irritava ou cansava, mas ele preferia simplesmente guardar para ele, pelo simples 'não vale a pena'. Ou outros motivos nunca esclarecidos. Ele era um bom ouvinte, sempre estava de prontidão para ouvir quem precisasse dele pelo que percebi, mas ele às vezes sentia necessidade de falar, mas sempre guardava. Dificilmente o vi reclamar ou falar que o estivesse de fato incomodando, algo que não seja físico, lógico. Claro, ele adorava criticar. Mas é bem diferente. Paulistas e Paulistanos era um assunto à parte. Aliás, convém dizer que o Sr. Oliveira apenas morava em São Paulo, mas era na verdade do Espírito Santo. Viera apenas estudar e estava havia oito ou nove meses, não me recordo com certeza.

Eu tenho certo receio em voltar a olhar algumas conversas que tive com ele. Minha memória ainda está bagunçada e cheia de lembranças e citações aleatórias e coisas bagunçadas. Lembro que fui exemplificar uma metáfora para ele e simplesmente o balancei. Sim, eu o peguei pelo braço e o chacoalhei. Lembro da cara de assustado dele e ainda me arranca um sorriso. Mas também lembro que mais tarde ele me disse que tinha entendido de primeira, que não precisava daquilo. Então rio de novo. E de certa forma fico triste com tudo isso.

De qualquer forma, eu poderia passar horas ou até dias contando fatos sobre o Sr. Oliveira. Mas eu não consigo passar mais que alguns minutos falando dele sem de fato me comover. Porque, mesmo que nos conhecemos por pouquíssimo, sinto uma ligação muito forte com o Sr. Oliveira. Não sei até que ponto isso era verdade para ele também, mas para mim foi. Tanto que resolvi escrever todo esse texto só para poder, assim, eternizar o não eterno Sr. Oliveira, que nos deixou dia vinte e três de abril de dois mil e quatorze, antes de completar vinte anos.


Deixo, por fim, uma homenagem sonora, de uma música que o Sr. Oliveira gostava. E que muito convém a ocasião. Daydreamer - Adele.

sábado, 5 de abril de 2014

Eloquência número quatorze



Sou ferro.
Sou feno.
Sou ferrenho em tudo
Que quero.
E espero
Sinceridade,
Cumplicidade,
Quem sabe amizade.
E não peço,
Despeço
Juras de falso amor.
Horror
Que um dia
Sentia.
Por muito me entregar.
Enganar
A quem me fazia falta.
Pausa. Para um concerto de piano.
E mais um engano.
E me sinto um impostor
Um encantador de ofídios.
Por que ser sincero
Nunca me trouxe nada além de meros
Sonhos, ilusões, pensamentos.
É como se no meu truque barato
O enganado
Fosse eu.

sábado, 15 de março de 2014

Da chuva

Que se inicia repentina
Ou anunciada.
Que se permite.
Que molha e inunda
Que é admirada
E muito odiada.
Molha o pé
E a alma.
Inspira o músico sonolento
E o amante apaixonado.
Que escurece o dia
E clareia num Arco-íris.
Mesmo quem vê da janela
Ou ao vivo de uma poça de lama
Se afetam.

Se permite ser inesperada
Ou ter aviso de chegada.
Que deixa permitir.
Que molha e encharca
Que se reluz
E relampeja.
Que deixa molhado o pé
E deixa encharcada a alma.
E o músico sonolento canta
Inspira o amante apaixonado que ama.
Que mesmo com Nimbus
Ou gotículas de óleo refletidas pelo sol.
Mesmo de longe
Ou de perto
É afeto.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Monitoração de Consciência



Ano passado coisas terríveis eram ditas sobre mim. De fato, eu não fiquei sabendo na hora, só depois, bem depois. E é horrível isso.

Quando fiquei doente, mais comentários terríveis. O mais terrível foi quando eu estava numa cama de hospital, sem saber quando ia sair de lá e sendo tratado como se nada tivesse acontecido. Um colega me disse depois o quanto de arrependido foi consumido pelas besteiras covardes que foram ditas naquele período. O quanto de choro que foi derramado porque não sabia o que dizer, então disse demais. Os julgamentos precipitados feitos fora daquele quartinho 3X3 de hospital, onde tomei sei lá quantos mil comprimidos e quantas centenas de injeções.

Quando saí de lá, tomei nota desses comentários maldosos, que fique bem claro. Muito claro.

Agora que faz nove meses que saí de lá, ainda não me considero plenamente recuperado. Muito estrago físico e psicológico foi feito, e não só pela minha saúde, mas pelas pequenas coisinhas que descobri nesse período. E descobri que aqueles pequenos comentários maldosos começaram a surgir à tona de novo.

Gostaria de dar um conselho. Não espere eu estar numa cama de hospital de novo para se arrepender do que fala. Pode ser que, da próxima vez, eu não saia dela. Ou saia apenas para um lugar pior, mais escuro e mais gelado.

Obrigado.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Sobre Almofadas



Uma vez conheci um rapaz diferente.
Na verdade, ele era mais diferente fisicamente que em qualquer outro aspecto, mas acho que o físico magrelo dele não entra nessa questão.
Conversamos por pouco tempo. Acredito que um mês apenas, umas duas vezes na semana. Foi pouco, assumo, mas o bastante pra me fazer refletir em algumas coisas um bocado interessantes. Devo adiantar-me e dizer que não sei mais do paradeiro deste rapaz, e na verdade nem me interessa saber isso hoje. Acredito que a época de nos falarmos já foi o suficiente e que somos tipos incompatíveis para qualquer tipo de conversa hoje em dia.
Mesmo que um dia nos encontremos em qualquer lugar confortável, como um sofá, e sentemos por uma hora, talvez não houvesse mais o que falar. Pelo menos não da minha parte. Seria extremamente desconfortável, por mais almofadas que existam entre nós.

Devo dizer que ele gostava muito, muito mesmo, de falar. Na verdade não me lembro da voz dele, mas lembro que ele gostava de falar. Ele falava sobre tudo, e parecia às vezes que não havia filtro entre o cérebro e a boca. Falava sem pensar, mas não que isso fosse ruim ou ingenuidade. Prefiro definir isso como transparência. Soa mais agradável pelo menos.
De qualquer forma, Ele falava sobre ele, as ruas, lugares que foi, coisas que gostava e mais ainda das que não gostava. Essas ele falava um bocado, era incrível. Lembro o quanto disse que detestava fotos de pessoas em frente a monumentos, e que suas fotos são sempre em frente a um fundo branco. Nunca entendi bem o motivo desse gosto, mas nunca questionei. Essa parte dele não me interessava.
Na verdade, eu me interessava quando ele começava a falar sobre ele mesmo. Isso sim era bem divertido. Explicarei mais para frente.

Lembro que me disse que um dia, viu um casal no ônibus. Mas a menina não ficava beijando o menino ou dando aquelas risadas esgarçada como as meninas faziam geralmente com seus namorados, ela brincava com ele, conversando com um sorriso, enquanto ele dava uns petelecos na cabeça dela e a chamava de 'feiosa'. Nada semelhante aquelas propagandas de pasta de dente, sabe? O casal sorridente que conversa com sorrisão de boca aberta, diferente daqueles dos comerciais que com o hálito fresco não desgrudavam os lábios um do outro. Mas tinha alguma coisa ali. Eles não se tratavam por 'lindo', 'bebê' ou algum desses apelidos carinhosos e pegajosos que casais fazem. Era mais 'cabeção', 'feiosa' e 'chulézento'.
Lembro que me disse isso com os olhos brilhando e, no fim, soltou um risinho dizendo: "Será que algum dia vou achar alguém pra me chamar de 'cabeção' ou algo assim?". Sorri mas não respondi. Na verdade, a gente nunca sabe o que responder para essas pessoas quando elas perguntam sobre o futuro delas.

Uma coisa que muito me intrigou, na verdade, foi quando comecei a analisar, de certa forma, criticamente o comportamento dele. Uma das coisas que me fazia refletir sobre ele era que ele dizia ser muito sentimental. Que se machucava fácil com as pessoas, que se decepcionava facilmente com elas. E que as deixava entrar na sua vida muito fácil, coisa que sempre acontecia pelo que percebi. Ele dizia não ter companhias, amigos e outras coisas do gênero, mas com um quê de exagero ele até que é cercado por bastante gente. Talvez eu entre no mérito 'quem é mais anti-social, ele ou eu?' mas vou me abster a falar dele. Onde eu estava mesmo?

Ah, então, ele dizia que as pessoas entravam muito fácil na vida dele, faziam uma baderna qualquer e saiam. Mas pelo pouquíssimo tempo que conversei com ele percebi um padrão que talvez mesmo ele não percebesse.
De fato, ele deixava as pessoas se aproximarem com muita facilidade. E elas o faziam, pois ele é alguém muito simpático, e diferente fisicamente, como disse. Mas ao contrário do que ele dizia, que as pessoas entravam e faziam bagunça na vida dele, e por isso se machucava fácil, percebi que o que acontecia era exatamente o oposto: ele afastava as pessoas discretamente. Elas tentavam se aproximar, penetrar de alguma forma naquela couraça atraente que era seu ego, e este ego de certa forma era convidativo. Mas, sem sinal, sem nada, ele acaba removendo a pessoa da couraça, e não sabe se explicar. E, por isso tanta gente ao redor dele, todos querem penetrar sua couraça, mas quando conseguem, ele expulsa. E por isso ele diz ter poucos ao seu redor. Ele não deixa tempo para que os outros procurem um lugar ao redor dele, peguem uma almofada e se sentem. Ele pega sua almofada antes, se levanta e deixa os desconhecidos a paisana.

Sabe, este era um rapaz muito bacana e simpático. Lamento muito que, de certa forma, tenhamos perdido o contato. Simplesmente aconteceu que, quando fui buscar minha almofada para me sentar perto e ouvir mais estórias, ele já tinha ido embora com a almofada dele.

sábado, 9 de março de 2013

Com Amor e Sordidez

Eu tinha escrito uma coisa enorme, chata e enfadonha, porém altamente pessoal sobre a minha atual situação. Porém resolvi passar uma borracha em tudo isso para manter apenas um trecho de um livro  amarelado que muito me acolheu agora a noite.

"Imagine um homem realmente sonolento, Esmé, e você verá que êle tem sempre alguma chance de se tornar outra vez um homem com tôdas as fac... com tôdas as F-A-C-U-L-D-A-D-E-S intactas."

J. D. Salinger - Para Esmé, com Amor e Sordidez.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Reptilianos



Os Reptilianos. Eles estão por toda a parte.

Esse não é mais um destes relatos paranóicos que você vai encontrar pela internet. Nem mais uma teoria demente de conspiração. É apenas a opinião de mais uma pessoa que anda, se alimenta, vive e sofre como qualquer ser humano normal.

Por qualquer lugar que você olhe, você encontra relatos falando dos Reptilianos. Alguns dizem que são alienígenas, outros dizem que são descendentes de uma linhagem, outros dizem que foi uma civilização antiga ao maior estilo Atlântida, mas eu sempre tive pra mim uma teoria diferente.

Baseadas em algumas lendas que li quando era mais jovem, tirei pra mim que os Reptilianos eram uma raça híbrida de répteis com humanos que vivia sobre a face do nosso planeta, em alguma época antes da escrita. Sempre vejo essa raça ser retratada como vil, má ou qualquer adjetivo negativo que consiga imaginar. Foram de certa forma extinta por algum tipo de civilização pré-histórica ou por algum ancestral do Homo Erectus ou Australopitecus. Ou pior. A causa da sua ruína foram seus próprios adjetivos. Não é o foco disso.

Várias literaturas, desde a antiga série 'O Elo Perdido', 'Os estranho Curioso',  um recente desenho da Liga da Justiça, ou mesmo livros de conspiração que falam sobre os Illuminati , mostram que esses Reptilianos deixaram um legado. Uma missão, onde diziam que iam voltar para poder tomar a terra que lhes foi tomada, ou algo assim. E que se escondiam onde ninguém lhes encontraria: No âmago dos seres humanos.

Recentes frustrações têm me feito enxergar o mundo de uma forma melhor. Tenho vistos sombras onde não existem. Vejo coisas que não estão onde estão. E o principal: estou com uma percepção extra-sensorial com relação às pessoas. Vejo seus comportamentos egoístas e mesquinhos todo o tempo, vejo sua ingratidão e falta de zelo. Vejo suas falsas preocupações com o próximo e sua preocupação absurda com aparências. Ignorância, intolerância e quaisquer outros adjetivos negativos que podem levar uma civilização a ruína.
Vejo suas semelhanças com os Reptilianos em todos os lugares. Entre pessoas nas ruas, pessoas próximas, e por incrível que pareça, pessoas que compartilho sangue.

Aliás, se esses não são iguais aos Reptilianos que teorizo, digo uma coisa muito pior que isso.
 Ou somos todos Reptilianos, ou somos piores que eles.

Esse é um relato que espero que você deduza se é real ou ficção.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A gota

A gota.
Aquela gota que transborda.
Sabe... Aquela gota que transborda e cai do copo?
Ela é feita do mesmo líquido que já encheu o copo.

E meu copo está cheio e acaba de transbordar.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Porta-Guarda-Chuva e a Cimitarra



Eu sempre odiei aquele porta-guarda-chuva.
Mas minha amada tinha ganhado de sua tia. Ou avó, não me lembro. E ela também detestava minha cimitarra persa, que comprei com minha economia de um ano de mesadas aos quinze anos. Lembro que quase me mataram quando cheguei em casa com ela. Expliquei que tinha lido num livro que meu herói favorito usava uma cimitarra para se defender de seus oponentes numa guerra contra seres mitológicos, e que eu estava namorando na loja fazia um tempão. Também expliquei que ela teria efeitos apenas decorativos.

Anos depois tinha de fazer duras negociações com minha noiva: ela deixava aquele porta-guarda-chuva medonho ao lado da porta da sala e eu podia pendurar minha cimitarra na parede acima. Quase que formando um Yin-Yang. Já disse que conheci minha noiva na loja onde comprei minha cimitarra nove anos atrás?

Mas aquele porta-guarda-chuva sempre teve algo de estranho. Ele me instigava uma raiva absurda, não sabia bem explicar. Acho que foi a ocasião em como chegou em casa. Foi como se uma neblina densa de mau-humor tivesse penetrado por todo canto logo em que ela chegou carregando o tal artefato. Pensando melhor, acabo de me lembrar que esse treco foi da tia-avó dela. Porque a energia bizarra que aquilo transmitia era exatamente igual a que sentia perto da maligna da tia-avó dela, que me olhava de canto de olho e cochichava tenebrosidades a meu respeito aos conhecidos.

Em contrapartida, minha cimitarra me transmitia uma calma profunda. Era como se eu soubesse que ela estaria sempre lá, para me defender de qualquer guerra, em qualquer momento que eu precisasse. E eu tinha guardado tanto dinheiro nove anos atrás para comprá-la. Sempre que percebia, pegava-a na mão e ficava admirando o punho cravejado com pequeninas pedras esverdeadas onde está escrito 'Verdade' em alguma língua que não faço a menor idéia. Talvez Persa, ou Árabe, já me esqueci de novo. "حقیقت" Era bonito e pronto.
Mas toda vez que tirava da parede, Ela gritava comigo. 'Por que você tirou esse negócio medonho da parede de novo?'. Ou então 'Sabe que a parede mancha toda vez que mexe nesse seu bagulho inútil?'.

Até que um dia, enquanto eu estava com minha cimitarra nas mãos de novo, ela ralhou comigo. Eu me assustei e, sem querer, tropecei no porta-guarda-chuva e a cimitarra voou da minha mão e a acertou em cheio. O punho pesado bateu em sua cabeça. E uma concussão a levou de mim.

Eu sempre odiei aquele porta-guarda-chuva.

A partir daquele dia, ainda mais.

"A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou. Cada um que recolhe um pedaço diz que toda a verdade está naquele caco."
Provérbio Persa

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Muralhas de um coração I


Ao contrário do que dizem por aí e do que penso, eu tenho um coração de carne como todo mundo. Não é de pedra, de gelo, peludo ou seja lá qual seja a atual definição que dão dessa vez. É um coração como qualquer outro.
A maior prova disso é que, se você me cortar, eu vou sangrar como qualquer outro. Provo: sou um ser humano e tenho minhas limitações como qualquer outro.

Mas nem por isso sou igual. Novamente posso provar.

Sempre senti esse músculo involuntário um tanto quanto patético. Fica se retorcendo por coisas idiotas e por pessoas sem merecimento. Parecia que cada vez que ele se retorcia, um hematoma novo nesse pedaço de carne surgia, como se alguém arremessasse uma pedra ou atirasse uma flecha ou algo que o valha.
Óbvio. Todo mundo é assim. Sofre uma decepção e se machuca, blé.

Para evitar esse tipo de injúrias, resolvi fazer uma coisa que li uma vez num livro. Quer dizer, algo bem semelhante. Num conto, um rapaz arrancou seu coração e o guardou num cofre para evitar qualquer tipo de sofrimento. Obviamente não funcionou muito bem, uma vez que o coração ganhou vida própria por estar fora do corpo do rapaz. Mas e se o cofre estivesse no meu peito? E se não fosse um cofre, e sim paredes impenetráveis? Melhor: muralhas. Estaria imune a esses espólios. Pedras seriam desviadas e flechas seriam quebradas quando arremessadas no cofre ou muralha, seja lá que raios eu colocasse. Ainda estaria em mim meu coração, mas selado a vácuo para impedir detritos externos.

Pensei. Não posso levantar essas muralhas a qualquer um. Devo baixar a guarda a algumas pessoas, claro. E essas devem ser bem escolhidas. Meus métodos, assumo, nunca foram bem esclarecidos, pois apesar de ser bem racional, eu levo meus pensamentos por um lado bem passional. Como uma porta traseira da imparcialidade. Uma divisão quase que perfeita do racional e passional. Deve ser algum efeito colateral de trancafiar meu músculo num cubículo de pedra. Ele deve se manifestar de alguma outra forma, enfim.

O fato é: eu ergui muralhas em torno do meu coração para não permitir que qualquer um possa machucá-lo. Isso me tornou mais frio?  Talvez. Isso impede de demonstrar meus reais sentimentos? Talvez. Mas talvez fosse a maneira mais sadia de não me machucar com tanta facilidade.

Mesmo machucando quem tenta penetrar por entre essa muralha.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Comi carne crua. Babei sangue.



Comi carne crua. Babei sangue. Só não sabia se era o meu ou do animal morto.

Mordia cada pedaço com uma força descomunal. Quase animal. Sentia meus caninos transpassando e chegando a minha língua, sentindo aquele misto de dor e prazer naquele sentimento sufocante. Era o auge, o ápice. Aquela carne exalando um cheiro acre de recém cortada. Mas minha raiva precisava ser descontada, e nenhum animal vivo merecia aquilo.

Eu estava naquela tênue linha entre o deprimido e o deprimente. Não sentia bem nada, só o cheiro da carne, a dor na língua, uma queimação na nuca, o sangue quente escorrendo da boca. Babava feito uma criança. Só que vermelho.

Pela janela conseguia ver aquelas pessoas andando na rua. Nenhuma delas estava de fato na rua, com a cabeça longe metros, talvez quilômetros de sua localização original. Nenhuma dela via o terror que acontecia na janela. Nenhuma delas vira meu jantar sangrento. Nenhuma delas queria ver, mesmo se o visse. 

Nenhuma delas reconheceria o meu jantar. Já estava extremamente mutilado.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Sou eu que estou chorando? São minhas lágrimas?"



Essas foram algumas das últimas frases de Rei Ayanami antes de morrer em Neon Genesis Evangelion. Bom, se você ia ler ou assistir, problema seu. O que de fato importa é que nunca entendi essa demora dela para perceber que estava chorando. Rei sempre foi uma garota que não era apegada aos sentimentos, entendo, e os foi desenvolvendo ao longo da série. O auge é quando ela percebe que se preocupa com seus colegas, e por isso começa a chorar, o que leva a tal cena. Não que Rei seja fria ou qualquer coisa, ela apenas não conhecia os sentimentos.


Nunca entendi isso. Nunca. Como pode desconhecer os próprios sentimentos e não saber ao certo o que sente? Como pode não perceber dos gostos ou desgostos ou qualquer coisa? Nunca consegui entender Rei. Mas por incrível que possa parecer, sempre a considerei uma garota forte, não por omitir isso, mas por assumir que não sabia da existência desses.

Ao contrário de mim. Sempre me senti forte por saber muito bem esconder meus reais sentimentos. Talvez alguns aspectos como desprezo ou algo do gênero falhassem um pouco, assumo. Eu, ao contrário de Rei, os conheço muito bem. Só que quero guardá-los e me tornar tão forte quanto Rei foi. Ou quanto considerava Rei forte.

Sempre me orgulhei de, por exemplo, ter chorado na frente de pouquíssimas pessoas. Não por coisas tipos filmes meigos ou músicas estupendas. Digo por causa dos meus sentimentos. E digo que isso é uma das piores coisas que pode ter me acontecido. Juro que não entendo essa onde recente de distúrbios que acontecem, e venho tentando me fazer de forte na frente de todos. Mas quando já estava tudo no controle que eu realmente me desesperei. Aqueles pensamentozinhos ruins começaram agora a invadir. E me peguei vergonhosamente numa viagem de ônibus chorando igual uma garotinha. E pela primeira vez em quase cinco anos e me vi igual a Rei e entendi o porque ela demorou tanto pra saber o porque aquelas lágrimas eram dela.
“Sou eu que estou chorando? São minhas lágrimas?”

Minha maior fraqueza é querer me mostrar forte.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

No centro de mim mesmo



Acho que nunca postei algo tão pessoal quanto isso.

Eu tive que apanhar um bocado pra entender. Ralei e mesmo assim não conseguia entender o porquê das coisas estavam acontecendo daquela forma.
Sabe, foi difícil pacas, Não conseguia entender que eu me esforçava, pensando num futuro melhor, sem me dar conta do que estava acontecendo na hora. Sempre me preocupei ao máximo no que deveria ser feito, no que era esperado de mim, no que era o certo a se fazer, no que aconteceria no futuro, criar um planejamento absurdo para os próximos anos e no que eu poderia fazer para conseguir. Talvez essa última parte eu tenha deixado um pouco de lado, pois fazia até mesmo o que não era possível.
Enfim, eu não me considero ambicioso, nem idealista, nem qualquer coisa do gênero. Só gosto de organização nas coisas que faço. Mas também não me preocupei com planos de última hora e mudanças no planejamento. Claro, isso poderia acontecer a qualquer momento, mas não premeditado.
Foi necessário muita dor de cabeça (literalmente) e ficar uma semana numa cama de hospital pra me fazer refletir.
Como posso executar qualquer plano sem o principal? Que no caso, sou eu.
Nunca me considerei melhor em nada, Sempre fui um pouco pessimista apesar de tudo. Mas nunca me dei conta que, pra mudar qualquer coisa, eu teria que cuidar de mim. E o 'Eu' nunca ficou em primeiro plano. Nunca. Nem nunca me dei o valor que merecia. E por isso, decidi que vou ter que fazer drásticas mudanças no meu jeito de viver.
E a primeira já começou me deixando um tanto quanto deprimido. Eu preciso me colocar em primeiro plano a partir de agora.
Ontem eu fiz minha desistência da pós-graduação.
E assim vou ter que seguir. Aprender a me colocar no centro de mim mesmo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Eu tinha um coração

Eu lembro.
Me lembro muito bem, eu tinha coração.
Lembro que pus ele em algum lugar por aqui, em alguma dessas gavetas.
Também lembro que tinha guardado exatamente para o momento em que eu precisasse usá-lo de novo.
Não lembro onde guardei. Sei que guardei bem guardado, protegido com todo o esforço, para que não rachasse como da última vez.

Eu lembro. Mas não acho.
Deve ser porque ainda não preciso dele.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Calibrando Pneu

- Você só vai tomar isso?!
Eu olhei para ela. Não via necessidade que tomar mais que um copo de leite de manhã. Aliás, nem tempo pra isso eu tinha. Porém, expressar isso em palavras era um tanto quanto complicado, então simplesmente disse:
- Obrigado, mas eu não estou com fome agora.
Sei que ela fez uma careta pelas minhas costas, mas não liguei. Ainda precisava verificar se tinha combustível o suficiente para percorrer os 40 quilômetros diários. E se precisasse, teria que passar no posto para reabastecer.
Peguei as chaves e ela a bolsa. Ainda tinha uma fatia de bolo nas mãos. Não dei importância. Eu estava acostumado a ficar correndo de um lado pro outro tentando resolver as coisas. Pelo que eu percebi, ela não. Deixou várias vezes o casaco cair dos braços enquanto eu tentava colocar as coisas em ordem.

Enfim, o carro não tinha combustível o bastante. Precisei passar no posto, ou seja, duas curvas a mais que o normal, então aproximadamente quinze minutos de atraso, se o trânsito estiver bom, coisa que eu duvidava muito.
- Marcos - ela disse, suavemente - posso descer pra comprar um maço de cigarros enquanto você reabastece?
Eu hesitei. Desde quando Erica fumava? Bom, havia muitas coisas que eu não sabia a respeito dela ainda. Tínhamos pouco mais de um mês de namoro e acredito que esse seja o tipo de coisa que demoramos a perceber.
- Claro, mas acho que nunca te vi fumando...
- Não mesmo, detesto cigarros. Mas é que eu derrubei o maço do meu chefe numa poça de lama e fiquei devendo um para ele.
Fiz cara de desdém. Isso explicava MUITA coisa. Principalmente o porquê tinha lama na bota dela na semana passada.
- Podemos ir jantar fora hoje? Ontem a lua estava tão bonita que eu queria dar uma saída hoje pra vê-la melhor.
- Ela vai continuar do jeito que estava ontem?
- Claro, são três dias que ela vai ficar assim. Hoje é o último. Você não tem de fazer hora extra hoje de novo, tem querido?
Odiava que me chamassem de querido. Parecia até um termo irônico. Claro que vindo da Erica, tudo ficava mais fofo. Ou mais aterrorizante, depende do caso. Então, por isso, apenas concordei e disse que estava livre. E então voltamos a nossas conversas banais de sempre, sobre livros, música, a roupa que a colega de trabalho dela estava usando (essa parte não prestei muita atenção, mas aposto que foi algo extremamente divertido. Ela falou com ânimo e é o que importa.).

Aproveitei para calibrar um pouco o pneu. Sentia que estava um bocado murcho na parte traseira. Nisso veio um rapaz me cumprimentar. De onde surgiu, não sei.
- E aí Marcio, quanto tempo!
- Hum... Meu nome é Marcos. Acho que está me confundindo com alguém.
- Mas é claro que não. Desde que te conheço você tem o mesmo carro. Não lembra de mim?
De fato, ele estava certo. Fazia oito anos que estava com o mesmo carro. Isso significava que o conhecia há menos tempo que isso. E eu simplesmente detesto encontrar alguém que me conhece e eu não lembro. Te faz se sentir como se estivesse se afogando: não tem saída, a não ser mergulhar mais fundo.
- Marcos, vamos?
Erica. Por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa. Agora posso me livrar desse cara chato sem lembrar quem é... mas...
- Juan, você por aqui?!
- Erica! Meu Deus, você conhece o Marcos!?
- Claro, estamos namorando. Nos conhecemos através da Rosana, a irmã do Julio.
- Nossa, que bacana. Agora vou ter que ir. Fico contente que vocês estejam juntos, formam um belo casal.
Não sei por que, as palavras dele não me encorajavam. Parecia até que vinha algum rancor. Mas, o que importa, é que realmente não lembrava dele.
Fomos para o carro para que eu pudesse levar Erica até o trabalho dela. Ficava quase tão longe quanto o meu, mas pelo menos ficava perto um do outro. Isso era bom e ruim ao mesmo tempo.

- Não sabia que conhecia o Juan.
- Nem eu sabia que o conhecia. Não me lembro dele. E ele parece que me conhece tão bem.
Erica levantou a sobrancelha. Deu uma tossida de leve e pôs uma dessas balas de hortelã na boca. Enquanto ajustava o cabelo no espelho do quebra-sol, disse.
- Ele é meu primo. E se não me engano vocês fizeram o mesmo curso na faculdade. Será que vocês não eram da mesma turma?
Putz. Erica, por isso eu amo essa garota, sempre na hora certa.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Cristal

Dói.

Durante muito tempo, vim trabalhando para construir um cristal que tivesse a minha imagem. Não minha imagem física, mas sim a imagem de dentro. Logo a imagem de um pequeno cristal redondo, com várias lascas pequenas surgiu. Vim então trabalhando para polir esse cristal e que todas as lascas fossem removidas.

Vim exibindo meu cristal liso a todos que quisessem ver. E todos apreciavam 'Olha que cristal brilhante', 'como reluz essa jóia'. E coisas do gênero. Meu cristal logo se tornou motivo de orgulho para muitos, uma vez que aquela pequena coisa se destacava dentre as outras pedras.

Às vezes, era necessário dar um polimento a mais, pois a pedra se apagava por um tempo e reacendia. Eu me assustava nesses pequenos períodos de escuridão.
Por vez, a pedra chegou a brilhar tanto que foi alvo de discussões serias, onde todos se perguntavam como que um cristal conseguia brilhar, com tão pouco tamanho. Eu sorria me orgulhando o cristal que eu tinha criado, e assim foi por algum tempo.

Dói.
O que por vezes eu esquecia é que uma vez lascado, o polimento serviria apenas para esconder toda a imperfeição da pedra. E por muito tempo eu tinha esquecido o quando tinha por baixo daquela beleza brilhante. Tinha esquecido todos os riscos e lascas que o polimento escondia.

Eu também, por vezes, esquecia que o polimento no cristal seria o mesmo que mascarar a face lascada.
Até que uma pequena lasca surgiu. E virou uma rachadura. Em menos de três horas, o cristal começou a se apagar, e a rachadura aumentar. Jamais pensaria que aquela lasca, lembro-me muito bem dela quando fiz o cristal pela primeira vez, viesse afetar depois de tanto tempo preenchida. Mas erroneamente ao invés de lixar a lasca, resolvi simplesmente a mascará-la como se nunca tivesse lá.

Dói.
O meu cristal se rachou. Quebrou em doze menores pedaços. Alguns brilhantes, alguns apagados. Quase todos frágeis.
Menos a parte onde a maior e menos notável lasca tinha se formado. Aquele era o maior e mais grosso pedaço do meu cristal espatifado.

O meu cristal espatifado criado a minha imagem espatifada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Chocolate Quente com Marshmallow

Ela olhou para fora. Vira os carros passarem apressadamente pelo lado de fora da janela por um minuto e suspirou. Afagou os cabelos da nuca enquanto pensava em como começar a falar. Quando movera os lábios pela terceira vez sem produzir som algum, a garçonete apareceu.
- O que o casal feliz deseja?
Sem dúvida alguma, a vontade da moça era de fuzilar a garçonete. Que idéia era essa de dizer 'Casal Feliz'? Soltou então um longo suspiro, concentrou todas as suas forças e deu um sorriso.
- Você disse que o chocolate quente com Marshmallow daqui era bom, não é?
O rapaz a fitou nos olhos com vagarosidade e murmurou.
- Sim, o chocolate quente daqui é bom. Quero um com Marshmallow e um croissant integral de queijo.
Ela repetiu o pedido e a garçonete partiu. Olhou novamente para fora e viu um casal de idosos atravessando a rua vagarosamente, sorrindo. Revirou os olhos e se virou novamente para o rapaz.
- Fazia tempo que você estava me esperando? Me atrasei um pouco.
- Não muito, uns dez minutinhos só. Estava ocioso em casa mesmo.
Pensou consigo mesma 'Então porque não disse que estava livre mais cedo?', mas relevou o pensamento e continuou a ferver os neurônios para tentar conversar com aquele rapaz. Antes que começasse a falar, ele começou a falar para o vidro.
- Sabe, sei que pode parecer uma conversa clichê, Mas o tempo hoje está realmente agradável. Sabe, esse tempo cinza, nem frio nem quente. As pessoas podem escolher se saem usando blusas ou camisetas.
Ela olhou novamente para fora e viu, realmente. Havia dois rapazes andando em frente ao café. Um usando Shorts curtos de correr com uma camiseta curta e sem mangas, conversando alegremente com outro rapaz, com longos Jeans, casaco e até um cachecol. Criava um contraste engraçado. Ela riu.
- Por que ri?
- Aqueles dois rapazes. Estão engraçados vestidos assim.
Ele sorriu por uma fração mínima de segundos e voltou à feição normal, como se estivesse com um sono permanente. Ela ainda não entendia o porquê daquele semblante fechado. Pela quarta vez, ia começar a falar, quando foi interrompida pela garçonete, trazendo os chocolates quentes e se desculpando pelos croissants, que haviam queimado, mas ela já traria outros.
Quando a garçonete se afastou, ela tocou a ponta do nariz gelado e começou a falar.
- Você me parece meio abatido. Aconteceu algo?
Ele hesitou uma resposta, olhou para o chocolate e respondeu lentamente.
- Não se preocupe, é o meu jeito habitual. Não estou abatido, pelo contrário, fico feliz de estar aqui.
Ela sorriu pela resposta, mas não compreendeu realmente o que ele quis dizer com aquilo. 'Bom, se ele diz estar feliz em estar aqui, poderia ao menos DEMONSTRAR estar'.
-É que você está com olheiras um pouco fundas e não tem falado muito. Pode conversar comigo, estou aqui pra te ouvir.
Ele hesitou novamente, deu um sorriso curto e respondeu tranquilamente.
- Fico feliz que se preocupe comigo, mas está realmente tudo bem. Me acostumei a dormir tarde e por isso as olheiras. Não sei muito o quê falar com você, mas não leve isso a mal.
- Eu só quero ajudar...
Ele tomou um longo gole do chocolate. A garçonete trouxe os croissants, agora aparentando estarem crus demais, e se retirou. A moça, vendo que não tinha muito o quê fazer, passou a fitar o vidro com a caneca de chocolate na mão.
- Não que isso interfira no meu comportamento habitual, mas eu ando com alguns problemas familiares, meu trabalho anda bem desgastante e não ando me sentido muito seguro com relação a você. Sinto que vou te perder.
Ela se manteve estática. Não esperava uma resposta tão direta do rapaz que, agora, parecia um pouco mais confortável. Era como se antes ele estava com alguma coceira que, de repente, cessou e atacou ela. Fitou mais uma vez o chocolate e suspirou.
- Olhe, eu só quero que você fique feliz. Eu também ando tendo problemas com minha família, você sabe, fui até chamada de acidente pelo meu pai, estudo numa área que não me apetece, mas preciso continuar pra não perder meu emprego. Você está abatido e não se abre comigo. Como posso ficar bem assim? Apesar de tudo, estou procurando ser feliz dessa forma.
Ele suspirou
- Parece impossível.
- É improvável, não impossível. Se eu não tentar, vou me abater para sempre, porque não é sempre que coisas boas acontecem. E mesmo assim temos de viver.
Ele abaixou os olhos para o chocolate. Pareceu com se tivesse levado uma bofetada.
- Eu quero terminar logo de estudar, é só mais um ano, e fazer uma pós em alguma coisa que eu realmente queira. Vou terminar de pagar meu apartamento e adotar um cachorro chamado Spark e uma gata chamada Diamont. Vou arrumar um emprego melhor e voltar a fazer aulas de dança. E só de pensar nessas coisas, já me dá vontade de continuar. Quais são os seus planos para o futuro? Não tem nada que te motive?
- Nunca fiz planos a longo prazo. Toda vez que os faço acabo me decepcionando ou mudando de idéia antes de acabar. Por enquanto, meu único objetivo é terminar o curso de Alemão que comecei. Eu acredito que as coisas boas não são buscadas e, sim, elas aparecem ao acaso. Assim como você surgiu.
Ela se engasgou com o chocolate. Tossiu três vezes, o suficiente pra chamar a atenção de todos os presentes no estabelecimento. Assim que se recuperou, e que todos os clientes do estabelecimento voltaram suas atenções as respectivas companhias, disse numa voz fraca e pastosa de marshmallow.
- Com todos... os problemas que eu... cough... ando tendo, não preciso de alguém que me deprima mais que já estou. Preciso de alguma motivação, alguém alegre. Alguém que queira ficar comigo e me animar. Não alguém que me diz que não tem a mínima vontade de fazer algo...
- Eu nunca disse isso, eu apenas...
- Ouça. - Ela o interrompeu - Sabe, eu gosto muito de você, quero muito que você fique bem, mas não dá pra ficarmos juntos se você não fica bem e nem procura estar bem. Não me venha com essa de que 'Temos de esperar a marolinha passar'. Se só esperarmos, nada vai acontecer.
- Entendo o que quer dizer, mas...
- E pare de falar comigo formalmente. Tem de se descontrair. Estamos saindo juntos há um mês e só vi você sorrir três ou quatro vezes. Me diz o porquê disso tudo isso?
Ele lançou um profundo e tristonho olhar a ela. Apesar de todos já terem desviado o olhar, ainda tinham os ouvidos sensíveis a conversa do casal. A caneca de chocolate tremia na mão da moça, não sabendo se por causa do frio repentino que viera da porta recentemente aberta ou se da raiva que estava sentindo.
- Eu nunca soube demonstrar bem meus sentimentos. Eu... peço desculpas por isso tudo e vou entender se você quiser lançar esse chocolate na minha cara.
De fato, o chocolate pulava da caneca dela. Assim que ela percebeu, baixou a caneca na mesa e pousou as mãos no colo. Ela suspirou e esperou ele continuar, mas seu rosto se voltou a contemplar o vidro e as pessoas na rua.
- Você sabe que não dá mais, não é? - Ela suspirou baixinho.
- Obrigado - ele disse, voltando o rosto para a caneca. - por todo esse tempo. Foi maravilhoso.
Ela, aturdida com essas palavras, se levantou e saiu pisando forte. Parou por um segundo a porta, tomou fôlego e saiu. Ele ficou olhando pelo vidro enquanto ela passava, andando em frente sem virar para trás. Ele virou sua caneca de chocolate, pagou a conta e foi embora, andando na direção oposta.

quarta-feira, 9 de março de 2011

À Deriva

Estávamos à deriva. Éramos dependentes do mar e do vento. Talvez até mesmo da estação Lunar. Como botes encalhados, esperando boas condições para o resgate. Como velas alçadas, quase hasteadas. Como âncoras sendo liberadas.

Era carvão, aguardando o fogo para combustão. Era como qualquer metáfora que dependesse de ação para reação. E este estado era definitivo, interminável, eterno, irreversível.

Porém não podia ser assim.

Apesar de esperar, algo acontecia até todo o processo ocorrer. Não que houvesse autocombustão ou auto-hasteamento. Mas mesmo botes encalhados mandam seus sinais de socorro. Estávamos à deriva, sim. Mas não totalmente imobilizados. O mar, o vento, a estação Lunar eram variáveis inconstantes. Nossa condição não.

Assim como o carvão a espera da combustão, éramos humanos, a espera da morte.
Mas nem por esse motivo deixamos de viver plenamente. Afinal, definitiva, interminável, eterna e irreversivelmente, estávamos à deriva.